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MULHERES COM «M» GRANDE

RAQUEL EVANGELINA
“No meu tempo é que existiam mulheres!” Quantas vezes já nos deparamos com esta frase? Aliás, desafio qualquer mulher que esteja a ler esta crónica a contradizer-me de que nunca ninguém lhe disse isto ou algo parecido. Será a primeira que conheço. Mas afinal o que é ser mulher? Se for pelo raciocínio do antigamente será simplesmente uma mulher, maioritariamente iletrada, que desde miúda foi ensinada a tratar da casa, educada que apenas existe para servir o marido e colocar pessoas neste mundo. Isto sim era uma mulher. Fada do lar, recatada e sem opinião do que fazer da vida até porque quem manda em casa é o homem, que é ele o ganha-pão.
As mulheres hoje em dia são o diabo. Querem igualdade, querem emancipar-se, algumas não querem casar e, pior, o horror dos horrores, há aquelas que nem sequer querem ter filhos. Pobrezinhas, tão egoístas que elas são! Batem o pé quando a opinião não é respeitada, porque sim têm uma palavra a dar. E são capazes de deixar o marido caso ele lhes bata, as hereges! Já não há nada como antigamente em que se levassem porrada calavam porque o marido tem sempre razão. Mesmo que não tenha. Obviamente que já perceberam que sou irónica e que também faço parte deste grupo de mulheres em quem o diabo encarnou.
E falando de mim, já que cada um sabe de si, pergunto: Serei eu assim tão má porque não vou à missa ao Domingo? Então e se eu até ajudar instituições e quem mais precisa? E se eu não andar a falar do que não sei? Se eu for tolerante a todas as raças e orientações sexuais e tratar o meu semelhante com todo o respeito? Não sou eu uma boa cristã? Não estou eu a amar o próximo como a religião em que me educaram ensina? Não interessa. Não vou à missa. Uma mulher que se preze até pode infernizar a vida dos outros mas desde que vá à missa todos os domingos, e se comungar de mãos no peito ainda melhor, é que é.
Outra parte que me faz um bocado de espécie é o casamento. “Ah e tal, o casamento antigamente durava porque existia amor!” Meus amigos o amor existia antigamente tanto como existe agora. E a falta de amor que existe hoje em dia também é igual a antigamente. Não me digam que era o amor que sustentavam os casamentos da vossa época. Agora que me digam que antigamente as mulheres tinham medo de deixar o marido aí acredito. Quantos e quantos não estão casados até hoje, mesmo sofrendo de violência e sabendo da infidelidade do cônjuge (ambos os exemplos são válidos pra os dois lados) só para manter as aparências? Imagino o quanto devesse custar para uma mulher que não sabe fazer mais nada que tratar da casa e dos filhos (e já não é pouco) ficar sem marido que sustente financeiramente a vida. Já para não falar das represálias que sofreria, os olhares de lado, por ser uma mulher divorciada, separada, o que quer que seja. E sim muita gente que iria falar dela era a mesma que ia todos os domingos à missa (Mas não vou mais bater nesta tecla!) Não seria melhor cada um ir para o seu lado? Também não estou a dizer que se deva desistir ao primeiro contratempo que surja entre os dois. Mas se não houver respeito não será melhor cada um seguir a sua vida? E sim, traição e violência são faltas de respeito. E não me venham dizer que foi uma vez sem exemplo. Quem bate uma vez bate mais. Ah, e sim, quem trai também. E não, a culpa não é da mulher/homem que estava de fora. Que eu saiba se um não quer dois não dançam. Eu não sou casada. Não tenho planos de o ser. Se acontecer foi porque a vida assim o quis. Mas nos meus relacionamentos respeito a pessoa que tenho ao lado e espero nada mais nada menos que o mesmo respeito. Não desisto à primeira mas quando há desrespeito não há volta a dar. Só se não souber. Até porque não entendo como se pode estar ao lado de alguém em que não se confia.
E já nem vou falar de filhos. O que é que há com as pessoas que quando sabem que estamos na faixa dos 30 começam a perguntar: “Então e bebés? Sabes que estás a entrar numa fase que depois fica complicado engravidar, depois já não tens paciência para uma criança como terias agora e blá blá blá…” Quando lhes respondo que não tenho grandes intenções algumas desvalorizam e dizem: “ Oh ainda não despertou o instinto!”. Se isto é de instinto o meu ainda é mais atrasado que eu. E depois há aqueles que me conseguem irritar com: “Tu és tola! Toda a mulher, repito TODA A MULHER, quer ser mãe. É a melhor coisa do mundo! És uma egoísta!”. O que até me faz rir em parte tendo em conta que dos vários defeitos que tenho egoísmo nem é um dos meus mas tudo bem. Respeito a opção de cada um. Mas assim como respeito aquelas mulheres que desejam com todas as forças poder gerar um ser também respeito as que não querem. E não, não acho que haja nada de errado com elas. Não são egoístas e muito menos ET’s como a cara de certas pessoas a olhar para elas poderia levantar suspeitas.
E a minha parte preferida a vida profissional. Atualmente já é aceitável que uma mulher trabalhe. Aliás é praticamente insustentável uma casa conseguir sobreviver com apenas o rendimento de uma pessoa. O problema é que as mulheres ou arranjam um trabalho de segunda à sexta das 9 às 17h ou está tudo arruinado. Porque quem é que vai tratar da casa? É preciso fazer o jantar para o marido que chega cansado do trabalho. É preciso passar a ferro, tratar dos miúdos, limpar a casa. Ou seja, temos que ser mulheres-a-dias e ainda ter um part-time para trazer dinheiro para casa. E depois se somos mais ambiciosas profissionalmente pior. Dedicamos imenso tempo aos estudos quando podíamos estar a aprender costura ou a cozinhar. Trabalhamos em turnos malucos, horas extraordinárias e depois como não temos tempo para tudo somos umas desleixadas. Até podemos ter um emprego de loucos mas se não sabemos cozinhar ou não dedicamos o pouco tempo livre que nos resta à casa ouvimos comentários do género: “Olha para aquela. Que sorna! Não faz nada, não sabe fazer nada. Pobre do homem que a levar.” Pois é, pobre do homem que levar uma diretora, uma enfermeira, uma jornalista, uma mulher dedicada à vida profissional para casa. Vai ter que de vez em quando sujeitar-se a ter de ir comer fora com ela ou a comer um bife com batata frita em vez de um arroz de marisco porque a parva para além de não fazer nada não sabe cozinhar. Obviamente que eu também faço parte deste rol. E não tenho qualquer problema com isso.
Isto é portanto uma ode às mulheres de hoje. Se até agora critiquei saibam que foi tudo em tom de ironia. Não, as mulheres de antigamente não eram! As de hoje sim. São mulheres. Estou rodeada delas. Tenho amigas e fam

iliares que são grandes exemplos. Uma está casada há 10 anos sem filhos, outra vai ser mãe e não é casada. Tenho uma amiga que superou um cancro e uma perda no mesmo mês. Outra que não desistiu do curso e apenas o exerce ao sábado quando tem folga da outra vida profissional pela qual envergou. Há aquela que está feliz no segundo casamento e as outras que perceberam estar mais felizes sozinhas, não por não amarem quem tinham ao lado mas por se amarem mais a elas. Cada uma delas fez as suas escolhas. Cada uma delas é livre para escolher a forma que as faz mais feliz. Eu não sou a mulher mais indicada para cuidar de uma casa, principalmente naquela área que chamamos de cozinha, mas podem ter a certeza que sou bastante desenrascada em outras coisas. Cada uma de nós é uma grande mulher. Tanto é aquela que se dedica à casa como a que está mais preocupada em conseguir subir na empresa. Tanto é a que quer ter filhos como a que distribui o seu amor pelos filhos das amigas e não vê necessidade de deixar descendência. Sim tu és uma mulher com M grande. És-lo porque és casada com o amor da tua vida mas também o és porque tiveste coragem de te separar quando ele te bateu a primeira vez. És uma grande mulher por teres criado os teus filhos sozinha, por teres coragem de embarcar no que é a odisseia de trazer um novo ser a este mundo. Mas também o és por teres a garra suficiente de dizeres que não queres, não tens essa prioridade, estás mais focada em outras coisas. É normal. É a tua escolha. E sim és uma grande mulher por conseguires ter sempre a casa impecável e cozinhar pratos de comer e chorar por mais. Mas não deixas de o ser se só sabes fazer sopa e estrelar um ovo. És uma grande mulher porque descobriste uma forma de combater o cancro. E és uma grande mulher porque sabes coser as meias do marido. És uma grande mulher se quiseres ser dedicada apenas à casa e à família mas não deixas de o ser se és dedicada ao trabalho, fazes horas extraordinárias e mesmo assim ainda tiveres espaço para te dedicares a uma vida familiar. Sim. És uma mulher com M grande. Porque essas mulheres são as que arriscam a viver das suas escolhas. Mesmo que essas não sejam as impostas pela sociedade.

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