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FANTASMAS DE NOVEMBRO

ANABELA BORGES
Chegando o mês de Novembro, só penso em coisas tristes.
Começa com os Finados. Depois, são os dias, que, num repente, ficam pequenos, frios e cinzentos. Até parece que a transformação se dá como num passe de magia: de um dia para o outro, sem aviso, passa-se do doce tempo outonal para os rigores do Inverno.
Excepto este ano, que vai demasiado seco e soalheiro para a época, de tal modo que eu ando espantada por chegar a este ponto sem ter usado gola alta, e isso sim, é um feito sem precedentes na minha vida.
De qualquer modo, em termos de relógio biológico o Novembro está lá. É mais fraquinho, mas está lá.
O frio e a diminuição de luz custam-me muito. Custa-me na alma, já referi que fico triste, e custa-me no corpo, que fico tolhida do frio e cheia de dores nas articulações.
Nem sei dizer se esse doer é mais forte para a alma ou para o corpo. Mas lá que fico psicologicamente afectada, lá isso fico.
Afecta-me sobretudo a falta de luz. Não é a falta da luz própria da noite, se é que me faço entender. Não, que eu até aprecio esse encanto especial que tem a noite, esse mistério que nos envolve em silêncio, esse segredo, esse abismo. Não. Refiro-me à falta de luz dos dias. Os dias de Novembro não costumam ter luz. E isso faz-me falta como o pão para a boca. Costumam passar-se dias e dias e dias de penumbra. E eu só vejo os meus fantasmas de Novembro. É necessário manter as luzes das casas acesas durante o dia. O ar enche-se de uma aragem cortante. E os pássaros vão transformando os seus piares em medos e anseios, até se calarem de vez.
Ah, como é bela, ao olhar, a bruma que se espalha sobre o rio, sobre a serra! Mas quão inconveniente ao corpo e à condução do automóvel. Tudo pode ser belo em Novembro, quando observado pela janela…
Se pudesse, baixava uma lei: proibia-me de sair para trabalhar em dias de frio e sem luz.
Resolveria assim grande parte dos meus problemas, já que, chegando o bom tempo, a minha produtividade aumenta muito, e assim poderia trabalhar em dobro para compensar. 
São cinco da tarde, a “hora dos mágicos cansaços”*. O trânsito circula com a dificuldade de fim de tarde.
A música grita pop na rádio, mas estou aqui sem ouvir a música, sem me concentrar nela. Não fosse isso e já teria mudado de estação. Desligo.
Sou de estar concentrada em pensamentos nenhuns de fim de tarde. Sou de estar em espera, absorvida pelo tempo.
Automóveis sobem e descem a rua, e por vezes param, em fila.
No ar, solta-se ainda uma ou outra ave frivolenta. A tarde pinta-se de cinza. Baixa a claridade. É fosca, a tarde.
As luzes dos automóveis vão-se acendendo. As luzes da cidade também. E com elas acende-se a nostalgia. Acende-se um cansaço antigo, compenetrado.
Não tardará que todo o movimento rouco da cidade esmoreça até não passar de um bramido. Não tardará que as pessoas recolham do dia, embora ainda mais tardiamente que os pássaros, que esses, nos seus afazeres, são mais precavidos que os homens, e não lhes são favoráveis escuridões ou aragens frias.
*Verso de Florbela Espanca.

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