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O DIA DOS PRIMOS

CRÓNICA DE TÂNIA AMADO
– a Madrinha tem uma proposta para este próximo dia 24.
– que fixe, Madrinha. Qual é?
– uma prenda à tua escolha ou um programa a duas antes do jantar, que preferes?
– hum… que bom, um programa a duas. Que vamos fazer?
– estava a pensar em, por exemplo, irmos almoçar, passear e irmos ao circo. Que dizes?
– simmm. Mas… Madrinha, sabes que tenho medo dos palhaços?
– eu sei, meu amor. Se preferires podemos fazer algo diferente. És tu que decides.
– vamos, vamos lá …
A Beatriz teve um forte desejo de comer canja de galinha e, por isso, batemos todas as capelinhas no parque das nações em Lisboa até escolhermos o restaurante. Lá, pede peixe grelhado, meia batata, dois brócolos e um IceT de camarão. Perante este pedido convicto, e de sorriso malandro, o garçom propõe-se a arranjar-lhe o peixe enquanto lhe dá uma flor de papel. Ela aceita de gosto, mas não sem antes rejeitar a proposta da cadeira pequena justificando-se em como se sentia confortável na cadeira dos adultos. O restaurante estava cheio e, como conseguem imaginar, perante aquele pedido personalizado, ninguém conteve uma boa gargalhada.
Almoçámos tranquilas, passeámos junto ao rio e lá fomos ao Circo onde encontrámos uma série de atividades com carrinhos, palhaços, doces e um Dromedário. A minha afilhada agarrava-se ao meu peito, com medo, mas lá pediu para tirar uma fotografia com os palhaços e outra em cima do Dromedário para mostrar aos pais. Em dois ou três momentos, lembro-me de lhe ter perguntando se queria ir embora. Mas ela, heroica e animada, optou por ir ficando esquecendo-se até em pedir os diversos doces que por lá se vendiam.
Chegámos a casa, preparámos o jantar e sentámo-nos à mesa coberta de delícias caseiras com os primos, tios, padrinhos, pais e avós. Depois das dez horas, prevendo o sono dos pequenos, o avô encenou a entrada triunfal com o pesado saco das prendas deixando o primo Diogo um pouco amedrontado. A Beatriz agiliza-lhe o sentimento dizendo que era apenas o avô vestido de Pai Natal enquanto a mãe abria-lhe os olhos, mostrando que acalmar o primo era bom mas sem estragar a surpresa que o avô estava carinhosamente a proporcionar. Este era o primeiro Natal em que o mano da Bratriz, o Pedro, vivia o Natal fora da alcofa e abria as suas próprias prendas. Estamos todos radiantes com o momento.
E assim se passou a noite com generosos abraços e emoções naquela sala de lareira aberta e de corações cheios.
Perto da meia-noite, levei a menina para minha casa enquanto os pais reorganizavam a casa dos pais deles para depois se juntarem a nós. Entrámos no meu carro, de modelo comercial, onde Beatriz se triunfava por poder ir à frente e conversar comigo ou apenas partilhar a vista da lua em silêncio. No momento em que eu desligava o airbag e a aconchegada entre a cadeira e cinto de segurança, reparei que ela estava com um ar introspetivo:
– que se passa, amor?
– hum, estava aqui a pensar.
– queres partilhar?
– quando for grande quero oferecer uma prenda assim ao meu primo Diogo.
– qual delas, amor?
– um dia dos primos: só nós os dois, bem juntinhos.
– ohhh, amor. Tão bom! Ele vai adorar.
Quando pensei que estava ajudá-la a enfrentar o medo e a valorizar as experiências em prólogo das prendas, foi ela que me proporcionou um dia inesquecível e ensinou-me que não precisamos de ter medo de nada.
As crianças têm muita paciência para os adultos.

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