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O ENSINO DA FILOSOFIA NO SECUNDÁRIO

REGINA SARDOEIRA
A Filosofia, enquanto saber que ocupa os estudiosos, costuma ser dividida em capítulos, consoante o tema de que trata e, a esse nível, não se distingue das outras ciências. Mas quando se faz da Filosofia uma disciplina de formação geral, obrigatória para os jovens do ensino secundário, não creio que seja seu objectivo obrigar a saber e a definir, à partida ( ou seja, logo no início do 10° ano), os nomes desses capítulos. 
Ensina – se, então, aos iniciados (que mal sabem pronunciar ou escrever as palavras “filosofia” e “filósofo”), o seguinte:
A gnoseologia (de gnoseo=conhecer) é o estudo do conhecimento; a ontologia (de ontos=ser) faz o estudo do ser; a metafísica ( de meta= para além + fisica= natureza) investiga o que está para além do mundo físico; a axiologia (de axios=valor) propõe-se estudar os valores; a epistemologia (de episteme=ciência ) estabelece teorias sobre o conhecimento científico ); a lógica (de logos = palavra, pensamento) destina – se a estabelecer as regras do pensamento válido; a ética (de etos=costumes) é a ciência dos costumes; a estética (de estesis = sensação ) estuda os sentimentos ligados à experiência emotiva do Belo e outras categorias artísticas .
Durante algum tempo considerei importante que os estudantes soubessem estas (e outras) designações da filosofia e, como estudei grego, chegava ao extremo de escrever em grego a raíz das palavras, julgando prestar – lhes um bom serviço. Aos poucos fui entendendo que tais palavras, na sua maioria, não “entravam” no vocabulário dos alunos; que, caso aparecesse uma delas num texto, necessitava de explicá – la uma e muitas vezes e que, enfim, talvez fosse inútil obrigá -los a nomear as divisões da filosofia.
Aliás, os manuais onde estas designações/definições surgem como objecto de estudo, trazem um glossário nas páginas finais que, outra vez, se propõe explicá -las. Deste modo, decidi remeter os estudantes para o referido glossário, sempre que uma delas surgia, em vez de os massacrar com a definição de temas e de palavras nada comuns.
Ao longo dos anos, fui percebendo o que já intuíra quando eu própria fui estudante: a filosofia é, acima de tudo, uma concepção do mundo, destina – se a investigar, para compreender, a realidade, é útil se tiver como objectivo contribuir para a atitude crítica, e logo profundamente analítica, dos estudantes. Precisa de ser simples, começando pelas situações básicas da vida comum e subindo progressivamente, com extremo rigor e precisão, até aos problemas mais complexos, do homem, individual e socialmente considerado.
Fui fazendo sucessivas experiências e decidi usar o exemplo de Descartes e as regras do seu método. Sendo matemático, o filósofo percebeu quão difícil poderiam parecer certos problemas e concluiu, por experiência própria, que nada é tão obscuro que não possa compreender -se, desde que seja aplicado o método correcto.
As regras, de tão simples, podem ser entendidas por qualquer um, independentemente da idade ou da cultura. Perante uma situação problemática – por exemplo: o carro que conduzimos pára e não volta a pegar – podemos resolvê – la, de imediato, desde que a sua causa seja evidente – o carro não arranca porque nos esquecemos de pôr gasolina. Mas, supondo que o abastecimento do carro não resolve o problema, que, por mais que façamos, o veículo não anda, percebemos estar perante um problema complexo. Recorremos, então ao mecânico. Ele faz uma análise da situação, e, no limite, pode necessitar de desmontar o motor, para fazer o diagnóstico do problema, detectá -lo e resolvê -lo. Por fim, terá que organizar, de novo, as peças que constituem o motor do automóvel; e, antes de o dar como reparado, precisa de o experimentar, para perceber se não haverá ainda alguma falha. 
Para todo aquele que conhece Descartes, o dono do carro, primeiro, e o mecânico, depois, aplicaram as regras do método cartesiano – apenas quatro, em vez do emaranhado de leis que constituem a lógica! E tais regras são tão eficazes na matemática como na vida! 

“(…) em vez desse grande número de preceitos que constituem a lógica, julguei que me bastariam os quatro seguintes, contanto que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de os observar. 
O primeiro consistia em nunca aceitar como verdadeira qualquer coisa sem a conhecer evidentemente como tal; isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; não incluir nos meus juízos nada que se não apresentasse tão clara e tão distintamente ao meu espírito, que não tivesse nenhuma ocasião para o pôr em dúvida. 
O segundo, dividir cada uma das dificuldades que tivesse de abordar no maior número possível de parcelas que fossem necessárias para melhor as resolver. 
O terceiro, conduzir por ordem os meus pensamentos, começando pelos objectos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, gradualmente, até ao conhecimento dos mais compostos; e admitindo mesmo certa ordem entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros. 
E o último, fazer sempre enumerações tão complexas e revisões tão gerais, que tivesse a certeza de nada omitir”.
René Descartes, in ‘Discurso do Método’
Aplicando a simplicidade destes preceitos e treinando – os, a filosofia no ensino secundário poderia ser, progressivamente, desvendada. Mas tão importante quanto seguir as regras seria, como diz o filósofo, tomar “a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de os observar. ” 
Treinando deste modo os jovens, poderia seguir – se a investigação da Filosofia, procurando sempre extrair de cada tema orientações para a vida prática. 
Durante algum tempo, preparei os alunos para um trabalho conclusivo dos dois anos da obrigatoriedade da filosofia no secundário, uma espécie de tese – e assim fiz com que escolhessem um tema, que o investigassem

, dei-lhes as normas para escreverem um ensaio e obtive, desse trabalho, a avaliação final.

Tudo isto (e muito mais, cuja análise seria extensa) contribuiu para que a maioria das minhas turmas e dos meus alunos gostassem de filosofia. 
Pudemos, por exemplo, fazer teatro, ocupar certas aulas com os ensaios e, por fim, levar ao público, as peças seleccionadas. Fizemos “A vida de Galileu”, de Brecht, “As nuvens”, de Aristófanes, dramatizámos Fernando Pessoa, “O Insulto ao público” de Peter Handke, “Pirâmide”, alegoria filosófica escrita por mim…etc. Creio firmemente que, deste modo, não somente dei aos alunos a formação filosófica de que eles necessitavam como lhes forneci instrumentos para fazerem face à vida de uma forma mais esclarecida.

Gnoseologia? Epistemologia? Ontologia? Axiologia? 
Muito bem, as palavras e os temas iam surgindo, ficavam à disposição de todos os que quisessem integrá -los no seu acervo cultural; mas forçar os alunos a memorizar os conceitos, para mais tarde os reconhecerem, em itens de escolha múltipla, sempre me pareceu o atentado mais pernicioso ao real objectivo do ensino da filosofia no ensino secundário.

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