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MORREU BELMIRO DE AZEVEDO

RUI CANOSSA
Portugal perdeu hoje uma das personalidades mais marcantes do século XX português e do início do novo.
A 17 de fevereiro de 1938 nascia no Marco de Canaveses na freguesia de Tuías. Depois de uma escolaridade anormal, em 1963 acaba a sua licenciatura em Engenharia Química Industrial, na Faculdade de Engenharia do Porto. No início do ano, com 26 anos, entra para a SONAE (Sociedade Nacional de Aglomerados e Estratificados), de Afonso Pinto de Magalhães, como Diretor de Investigação e Desenvolvimento. Começa então a recuperação da empresa produtora de painéis derivados de madeira criada em 1959. Em 1973 Belmiro de Azevedo parte para os Estados Unidos, onde irá fazer um curso de “Management Development”, equivalente a uma pós-graduação em gestão. Com o 25 de Abril de 1974, com a queda do Estado Novo e início do sistema democrático em Portugal, Pinto Magalhães vai para o Brasil e a Sonae é alvo de instabilidade política. Em 1978, os trabalhadores da Sonae fazem greve contra o controlo da empresa por parte do Estado, a chamada “greve ao contrário”. A empresa continua privada. É já na década de oitenta que em 1982, Pinto de Magalhães regressa do Brasil, e oferece uma fatia do capital da empresa, 16%, a Belmiro de Azevedo. Acabaria por falecer em 1983, ano em que é criada a Sonae Investimentos, SGPS. Belmiro vai reforçando a sua posição no grupo, que entra depois no mercado de capitais. No ano de 1985, abre o primeiro hipermercado em Portugal, o Continente, em Matosinhos, no âmbito da criação da Sonae Distribuição, uma joint-venture entre a Sonae e a francesa Promodés. Este é também o ano em que Belmiro de Azevedo apresenta um documento histórico e intemporal: “O Homem Sonae”. É neste ano que Belmiro passa a dominar o grupo, com a maioria do capital, e passa a presidente executivo. Chegamos a 1987, este é o ano em que são lançadas Ofertas Públicas de Venda (OPV) sobre sete das empresas da Sonae, e que o próprio grupo caracteriza hoje como “um ato disruptivo para tirar partido do quadro de incentivos à dinamização do mercado de capitais que surpreendeu positivamente o mercado”. Com isso ganha o financiamento necessário para crescer e apostar em novas áreas. Em 1989, depois do turismo e das tecnologias, dá-se a entrada no sector imobiliário, com a Sonae Imobiliária. No ano seguinte, seria a vez de ser lançado o jornal PÚBLICO. Em 1995, com a criação da Worten, entra no mercado do retalho especializado. Dois anos mais tarde, em 1997, ocorre a inauguração do Centro Comercial Colombo, o maior da Península Ibérica. Em 1999, começa a internacionalização deste negócio. Corria do ano de 1998, ano da Expo de Lisboa, e Belmiro de Azevedo e o seu grupo entram no negócio das telecomunicações, com o lançamento da Optimus, disputando o mercado com as duas operadoras que existiam então, a Telecel/Vodafone e a TMN, da PT, que tinham uma dimensão muito superior, e um controlo maior deste mercado de oligopólio. Em 2006, a SONAE entra a todo o gás com o lançamento da Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre a Portugal Telecom (PT), movimento marcante mas que acaba por ser travado pelo núcleo duro de acionistas da PT, com destaque para o BES, e o Estado (via CGD), que acionam a famosa “Golden Share”. No ano seguinte, Belmiro de Azevedo passa a liderança do grupo a Paulo de Azevedo, um dos seus três filhos, e ocupa cadeira de chairman da Sonae SGPS. Outro marco importante para o grupo ocorre em 2013, pois é anunciada a fusão da Zon (empresa de cabo que saiu da esfera da PT após a OPA) com a Optimus, surgindo a NOS, cujo controlo é dividido entre a Sonae e Isabel dos Santos. Em 2015, Belmiro de Azevedo afasta-se dos negócios, e Paulo Azevedo acumula a função de Co-CEO (Chief Executive Officer) da Sonae com as de Chairman da Sonae Indústria e da Sonae Capital. Aos 79 anos morre um homem que marcou várias gerações. Por ser quem era. Um empresário com letra grande, um visionário, lutador, inovador, um empreendedor. Era a versão portuguesa do “American Dream”, ou, a forma como um homem comum, de origens humildes, se transforma num dos homens mais ricos do país e do mundo. Ocupava a posição 1121 do mundo. Trocava de carro de 14 em 14 anos. Era rico, muito rico, mas não a ostentava. Era um homem culto, em 1975, nos Estados Unidos da América, obteve um diploma de especialização em Gestão de Empresas, na Universidade de Harvard, e, uma década depois, em 1985, diplomou-se no Financial Management Program da Universidade de Stanford. Citava Marx, o pai do comunismo, para dizer que as crises eram oportunidades para regenerar empresas e países. Era um homem polémico, principalmente, quando não concordava com algumas formas de estar, quer na política, quer na economia, quer na própria sociedade. Essa frontalidade valeu a Belmiro de Azevedo inimizades que nunca se deu ao trabalho de evitar. Assim como a derrota, coincidência ou não, em diversas tentativas de realizar negócios nos quais os governos tinham uma palavra a dizer. Foi o que sucedeu nas tentativas falhadas de domínio do Banco Português do Atlântico, de fundir o Continente com o grupo Jerónimo Martins, de ficar na posse da Portucel ou na iniciativa de lançar uma oferta pública de aquisição sobre a PT, o fracasso mais estrondoso, mas aquele que conseguiu provocar mudanças relevantes no mercado de telecomunicações nacional.
Acabo este artigo com uma frase famosa deste homem que me marcou enquanto jovem estudante de Economia do Porto no já longínquo ano de 1989 e que se habituou a seguir o percurso de um homem com esta dimensão.
“Tenho fama de rico, comportamento de pobre. Estou bem assim.”

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