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PARA UMA NOVA ESCOLA

REGINA SARDOEIRA
Considero ser uma das mais importantes tarefas de um cidadão esclarecido, nos dias de hoje, reflectir sobre o sistema educativo. 
Quando usamos estas duas palavras, referimo-nos, na prática, a tudo o que se passa na escola, envolvendo professores e alunos, essencialmente, mas também, os funcionários, as famílias, os órgãos autárquicos, pelo que, vendo bem, o sistema educativo diz respeito a toda a sociedade.
Urge então reflectir sobre a sociedade, analisar o que somos nós, hoje, enquanto humanos organizados em grupos concêntricos, cujo reflexo corresponde à sociedade global. 
E questionemos. Esta sociedade, marcada pelo acesso massivo à informação, poderá reflectir-se na escola, tal como ela é ?
O professor continua, hoje, como sempre, dirigindo – se às salas de aula e ali, perante grupos de alunos, lecciona a matéria para que está apto. Leccionar, significa, exactamente, “dar lições”; e assim o dever do professor é ensinar, durante muitas lições, ao longo do ano lectivo, o conteúdo aprovado para os alunos concretos que lhe foram atribuídos. 
Será que ainda faz sentido dar, deste modo, lições? Chegar à sala de aula, munido de sabedoria e de alguns recursos, e centrar em si mesmo toda a atenção, exigindo ordem, disciplina e crédito, para que a sua palavra surta efeito? 
Penso que, nos tempos que decorrem, esta atitude (que ainda é a de qualquer professor) não faz qualquer sentido. O que ele ensina, explicando minuciosamente, e que pode ser depois corroborado e estudado no manual respectivo, está, antes e depois de o professor entrar na sala de aula, acessível e também minuciosamente explicado em dezenas de sites. E então o aluno percebe que tudo o que o seu professor diz pode ser pesquisado online , com vantagem, sempre que ele quiser, pode ser confirmado ou, quem sabe?, eventualmente corrigido e melhorado. 
Sendo assim, por que razão há – de prestar atenção ao professor, se tem à sua disposição, centenas, milhares de professores privados capazes de lhe darem a informação de que precisa? 
Exactamente, reflictamos, vivemos na era da informação, qualquer assunto, qualquer ciência ou arte estão aí, à disposição de todos e de qualquer um; e as crianças e jovens que frequentam a escola sabem – no perfeitamente, pois nasceram, ao mesmo tempo ou já depois, desta onda vertiginosa de sabedoria desvendada.
Logo, o professor que dá lições tornou-se obsoleto, a sua palavra, ainda que sapiente e justificada pelo manual adoptado, pode ser posta em causa pelo próprio aluno, que cresceu e se vai formando, neste mundo em que a Internet permite, com muito pouco trabalho, aceder a tudo e a muito mais do que poderá ser dito nas lições do professor.
Creio que os professores estarão conscientes desta espécie de “inimigo” que lhes invadiu a sala de aula, perturbando ou retirando a hegemonia que ali detinham. Queixam – se, invariavelmente, de desatenção ou indisciplina; custa – lhes muito perceber e assimilar esta progressiva descentralização do seu papel. Refugiam – se numa espécie de zanga permanente, ou desespero silencioso, ou sensação de haverem falhado, quando não desertam da escola, procurando lenitivo para a sua impotência, convertida em depressão; e vão em busca do atestado ou da baixa médica, para, ao menos, garantirem alguma sanidade. 
Necessário era, no entanto, que todos e cada um entendessem que, sendo seres humanos deste tempo – exactamente, o mesmo que o dos seus discípulos – , deveriam apressar – se a converter esses inimigos em aliados. 
A informação anda, toda ela, por aí; porque não trazê-la para a sala de aula e conduzir os alunos nos meandros dessa floresta, complexa e muitas vezes enganosa, fazendo com que eles encontrem o que precisam?
Os instrumentos estão já na posse deles : qualquer criança ou jovem possui um telemóvel, um tablet, um computador. Sabendo que, hoje em dia, não adiantará muito, a menos que se queira perder a batalha, lutar contra o progressivo crescimento e expansão da tecnologia da informação, o sistema de ensino deve esforçar -se por assimilá – a e dar-lhe o protagonismo a que tem direito.
Não significará, todavia, que o acto lectivo precise de cingir -se, em absoluto, ao uso destes recursos e que a cultura humanística e as artes, por exemplo, não devam ter, no sistema, um lugar de destaque. 
O binómio professor /aluno não tem que robotizar – se e o uso de instrumentos não deve tender para a instrumentalização do próprio utente. É necessário, contudo, entender que o “cliché” da escola, tal como é entendida e praticada, gera insucesso humano, falta de comunicação humana, insatisfação do humano, perante o humano. Talvez esteja na hora de entender também que as palavras “homem ” e “humano ” correspondem, hoje, a conceitos diferentes daquilo que em épocas passadas se entendia. 
Estando ainda acima das outras espécies existentes na terra, o homem sabe (ou deve saber) que essa superioridade não lhe garante qualquer predominância e que, tal como todos os componentes da terra que habita, precisa de (saber) ocupar o seu lugar. 
Esta parece-me ser outra das supremas funções da escola, enquanto ocasião agregadora do todo social, a percepção lúcida e construtiva do cenário criado pelos humanos, para os humanos, mas, em simultâneo, desumana porque destrutiva dos meios de que, afinal, não podemos prescindir. A escola tem que ser ecológica, não somente na teoria, mas acima de tudo, na prática e os jovens devem ser confrontados, ao vivo, com os desastres ordenados por gerações sucessivas fixadas na ganância e convidados a realizarem o projecto construtivo do seu próprio futuro. A escola necessita evoluir para o trabalho contínuo de projectos interdisciplinares que envolvam todos os saberes, que reúnam todas as práticas, em ordem à alteração do mundo.
Pode parecer contraditória esta aliança dos instrumentos tecnológicos com a necessidade ecológica de reconstruir a natureza ; e contudo, se queremos reformar o ensino , devemos, antes de mais, focar a nossa atenção nestes dois vectores.
O homem é um ser complexo, sendo que essa complexidade o fez criar para si um nicho que acreditou ser a condição da sua manutenção, na hegemonia face à natureza; porém, no reverso, esta complexidade gerou-lhe mais dependência e veio a perceber que continuava a ser devedor da natureza que, no entanto, delapidara.
Cabe, pois, à escola unir es

tes dois extremos, fornecer dados e incrementar projectos que permitam restaurar o humano, na natureza e no mundo.

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