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PRETO NO BRANCO

PEDRO MONTERROSO
Olá, tudo bem? Perguntas-me de passo que, de largo, me silencia a resposta que não alcanças. Parece exigires-me uma resposta branca. Ou preta. Igual, uma resposta que chegue a tempo e que corresponda à tua busca binária de preto no branco. E fora isso, três vezes nove. Noves fora. Nada. Deixas-me no desconserto da chávena do café pelo meio, numa metade interpretada face à justeza das medições de cada qual, ou menos cheia ou mais vazia. Que de repente não me sabe a nada.
Sei, no entanto, que por detrás dos teus olhos desatentos, que sorriem, no fundo, me queres bem e que demonstrarás preocupação se eu estiver mal. No mesmo entanto nunca me encontrarás nem bem, nem mal, por inteiro. E pareces nem dar por isso. Porque, a bem da verdade, nunca me encontrei no preto, nem no branco. Mas será que alguém já se encontrou e que não tenha morrido a seguir? Estamos sempre no espetro dos imensuráveis cinzentos que se encontram entre o preto e o branco. Além de não me admitir essa ingenuidade – a de julgar que está “tudo bem”, também nunca coloquei a possibilidade de tudo estar perdido. Muito do que sou, e de como estou, é alheio a mim e, portanto, não sei como está tudo. A disposição de cada indivíduo começa por ser alheia a cada indivíduo logo à nascença. E assim continuará. Há dias, um reconhecido tarólogo, com nítidos conhecimentos de comportamentalismo, explicava aos seus consultantes que “nós” somos nós e o nosso entorno pluridimensional e, com isto queria dizer, que somos o que os outros estão neste momento a pensar em nós, o que esperam de nós, o que estão a projetar para nós. Às vezes quando julgamos estar “bem”, a vida está a cozinhar-nos surpresas. Ou então já cozinhou e não sabíamos. E afinal a balança estava menos bem do que mal. Além de tudo, todos nos reservam um futuro que está, não raro, muito longe daquele que nós julgávamos. Somos as projeções do nosso chefe, das nossas mães, dos nossos filhos, ou até a projeção do nosso barbeiro que, por mais que tenhamos em mente um determinado corte, nos irá fazer sempre um corte que nos irá desapontar, esperando satisfazer-nos a vontade, mas acabando por satisfazer a sua própria projeção. Por tudo isso, não te sei dar uma resposta, de sim ou sopas. O dito tarólogo contava que o futuro depende de todos esses fatores ocultos nas nossas vidas que, segundo o qual, não são mais que os pequenos “eus” que vivem nas cabecinhas dos outros e que, mais do que saber o futuro, é importante assegurarmo-nos da integridade da imagem que passamos aos outros, isto é, que a consciencialização do presente e do passado nos assegurará um futuro mais conforme as nossas expectativas. Na ciência, com outra linguagem, mas com conteúdo complementar, o sociólogo Zygmund Bauman alerta-nos que vivemos uma época de incertezas, por querermos viver num tempo que não existe, e por esquecermos o tempo onde temos referências, onde efetivamente existimos, o passado e o presente. Não quero desconsertar a tua simpatia no local e na hora desapropriada mas se queres saber como tenho passado, não desvies os olhos para o pulso fino e célere como o autocarro que sempre te leva. Hoje, decidi vir a esta paragem para te parar e te convidar a tomar um café sentado. Sei da paisagem perfeita. Deixa-te por minha conta e deixa que os autocarros passem e escolhamos nós um em que entremos. Essa recusa contrariará a fluidez mecânica onde nos habituamos a ver-nos. Vamos contradizer o pressuposto da patética ideia de que se pode dizer que está tudo bem, ou não, resumindo o estado do espírito a uma ideia preta ou branca. Deixa-me que, com a sinceridade que só o tempo ocioso da mesa de um café aufere, eu te conte como tenho passado. Num tempo gerúndio que me faz estar algures na escala indivisível de cinzentos entre o preto mais preto e o branco mais branco. Puxemos uma cadeira e sentemo-nos. Conversemos. Descobrirás também como tens passado, é essa a razão das conversas. Desde já, rápido, muito rápido. Tanto que tens de andar a mendigar o tempo. Vejo que compraste um carro novo, rápido para espremer o tempo que não tens, e uma casa grande com ginásio e tudo, para que te poupe as caminhadas no bosque que está longe. Eu estou mais lento, por questões externas, a saúde fez-me parar. Foi um fator externo, sim, mas, bom, interiorizei-o, assumi-o como parte da coisa que não controlo e aprendi a lidar com isso à maneira de um tal Buda, sorrindo para essa dor. E por isso te obrigo a sentar comigo, a inventar-te o tempo, porque, as tuas boas maneiras, não recusam tempo a um amigo que diz que está doente. Sintoma da rapidez das roldanas maquinais incorporadas nas mulheres e nos homens que, assumindo ter a liberdade como pressuposto, se esqueceram de perguntar realmente se tudo está bem.

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