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ESTAR PRESENTE É, REALMENTE, O MELHOR PRESENTE

RAQUEL EVANGELINA
Gosto da época Natalícia. É a celebração que mais gosto. Nem tanto pelas prendas, apesar de gostar de as receber (quem não gosta?), mas sim pelo facto de estar a família toda junta sem estar preocupada em ter de sair mais cedo ou dos afazeres da vida. Quando estamos juntos no Natal estamos simplesmente a viver aquele momento, estamos ali e pelo menos durante duas ou três horas nada mais importa. E o espírito? Parece que as pessoas são mais amáveis nesta época. Só é pena que, algumas, seja só nesta época.
Quando era miúda os meus natais eram repartidos. Jantava na casa dos avós maternos, onde todos do lado da minha mãe se juntam e depois de jantar ia até à avó paterna onde ficávamos à lareira a conviver até ser meia-noite para ir à missa do Galo. Depois da missa voltávamos aos meus avós maternos para se abrir as prendas. Na época, outros tempos financeiros, todos compravam para todos. Ninguém ficava sem prenda. Se multiplicarmos por 30 pessoas que era mais ou menos o número de elementos no jantar imaginem a confusão de presentes e de papel de embrulho. Fazíamos competição a ver quem conseguia receber mais. Alguém de megafone anunciava a prenda, abríamos à frente de todos, mostrávamos, recebíamos um aplauso e só depois se passava à prenda seguinte. Falávamos alto e ríamos mais alto ainda. Ninguém se entendia. Mas a felicidade estava presente. Sempre.
Com o passar dos anos os Natais vão sendo diferentes. A nossa perceção já não é a mesma de crianças. Até as prendas vão reduzindo de número. Os primos que casaram já passam connosco os Natais apenas de 2 em 2 anos. E depois há, a parte mais triste, aqueles que já não os passam mais connosco. Primeiro foi um tio. Depois em 2013 o avô materno, que sempre gostou da casa cheia mas estava sempre ansioso por ir dormir porque já não aguentava mais ouvir a canalha. E com a canalha referia-se a mim e aos meus primos de 20 e 30 anos. Também em 2013 a minha avó paterna, o que fez com que agora só passe o Natal com a família materna (pelo menos a noite). Este ano a outra avó e há pouco tempo uma tia. São lugares que vão ficando por preencher e nota-se que para a geração anterior a mim esta época passou a ser um bocado triste e não tem o mesmo significado. Noto que em parte alguns nem têm grande vontade de o celebrar. Porque as pessoas que fazem parte do nosso Natal, da nossa ideia do que esta data significa, começam a faltar. Claro que novos elementos chegam. Os primos pequeninos e os filhos dos primos. E eles dão novamente cor aos Natais com a sua inocência e deslumbre por toda a magia que o Natal nos traz quando somos crianças.
Continua a existir um mar de papel de embrulho pelo chão quando se acaba a distribuição dos presentes. Continuamos a falar e gargalhar alto. Acho que mesmo que o quiséssemos fazer de forma mais baixa não conseguíamos. Não nos está no sangue. E se há coisa que também está no sangue é comer muito. Comemos, comemos, comemos, uma filhós aqui, uma rabanada acolá, uma fatiazinha de bolo-rei… E o pão-de-ló com queijo? Sem esquecer os Ferrero Rocher. Dieta? Faz-se no ano seguinte que 8 dias depois é passagem de ano não se pode fazer regime que vai estragar-se logo novamente. A sueca também não pode faltar. Há que fazer tempo para os presentes. E as discussões porque o parceiro não soube assistir também. E depois claro, os miúdos de 5 em 5 minutos a perguntar se podem abrir as prendas. As tias de 10 em 10 minutos a perguntar se é para o ano que casas. Ou que te juntas. Ou que apresentas pelo menos alguém para elas ficarem descansadas de que há alguém neste mundo que gosta de ti e de que não vais ingressar no convento por causa de algum desgosto. Depois há quem se lembre de evocar quem não está e de quão triste é nós acharmos que este Natal ainda estaria connosco. E choramos. Mas depois lembra-se de um Natal em que essa pessoa fez algo hilariante e já estamos todos a rir com essa memória. Sim admito que somos um pouco bipolares. O “protocolo” do Natal em si é todos os anos o mesmo. Visto por esse prisma nada mudou.
Mas nós no nosso íntimo sabemos que sim. Que todos os anos vai ficando mais distante do que era o verdadeiro Natal. Porque há medida que crescemos vamos percebendo que o que importa menos nesta época são as prendas. Que o que importa mesmo é com quem o passamos. Se me perguntarem que presentes recebi apenas me lembro de um ou outro. Mas tenho bastante viva a lembrança de quando era miúda o meu padrinho ter trazido para a ceia três ucranianos que iam passar o Natal sozinhos num contentor no Porto. E do quanto eles choraram quando a minha prima lhes ofereceu um par de meias a cada um. E não, não estavam tristes por ser uma prenda banal mas sim por pessoas que não lhes são nada lhe terem dado comida e amor na noite de Natal. Lembro da “picardia” saudável entre mim e um primo a ver quem recebia mais prendas. Da minha avó paterna nas suas poucas possibilidades me dar sempre uma nota de 1000 escudos de presente. Do misto de espanto e felicidade do meu primo de 3 anos ao ter percebido que o Pai Natal deixou à porta de casa uma bicicleta igual à que ele tinha pedido ao pai. E do ar desolado de quem recebia uma prenda que não tinha nada a ver com eles.
Sim o melhor presente é definitivamente estar presente. Um dia percebemos que vale mais uma mensagem a dizer “Gostava que estivesses aqui.” que prendas super caras debaixo do pinheiro. Que nada paga passar mais um Natal com os nossos pais presentes. Que saber que temos quem gosta e se lembra de nós é o melhor sentimento que se pode ter no Natal. E em qualquer altura do ano. Não fiquemos tristes se um dia não estivermos bem financeiramente para poder oferecer algo no Natal. Porque podemos sempre oferecer amor e um sorriso. E se um dia não pudermos ou tivermos a que oferecer isso, aí sim, será triste.
P.S. Eu sei que ainda falta uma semana e tal para o Natal mas como a minha próxima crónica é só depois ficam aqui os meus votos de Feliz Natal. Que traga tudo o que desejam.

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