Cidadania e Sociedade

O MEU NATAL!

O meu Natal não tem idade. Nele cabe, feliz, a infância que tive, rural, transparente e pura, como os regatos cristalinos onde se bebia a liberdade. Ou as ânsias de trepar às árvores à cata dos ninhos. Como cabe o pai de família que hoje se preocupa com as dores do mundo e o futuro dos seus filhos e da sua mais que tudo.
No meu Natal tem lugar cativo mais o Menino Jesus, nu, sorridente e rechonchudo, símbolo da esperança e das raízes, de tudo o que inexoravelmente começa, do que o velho bonacheirão Pai Natal, essa desgraça inventada pela Coca-cola para dominar o gosto líquido do mundo. É mais meu o Menino Jesus do Alberto Caeiro, uma criança bonita de riso e natural, que ensina a olhar para as coisas, que aponta toda a beleza que há nas flores, a Eterna Criança, o deus que faltava, o humano que é natural, o divino que sorri e brinca, e que dorme dentro da minha alma, e às vezes acorda de noite a divertir-se com os meus sonhos.
No meu Natal há, claro, o bacalhau e as batatas cozidas, mais as rabanadas, a aletria e os mexidos, como é norma neste verde Minho que todos somos e que eu adoro, mais que em nenhuma outra época do ano. E há a família a seroar, até altas horas, a desfiar conversas, risos e bocejos, em redor do tronco esbraseado na lareira. E há mais uns copos, e há jogos, e há sobretudo o calor indefectível e confortável dos laços do sangue e dos afectos em redor da Natividade. Há o presépio, como é normal, as prendas e sobretudo a ansiedade incontida no olhar das crianças à espera de uma Playstation, de uma Barbie ou do último Harry Potter.
No meu Natal os homens ainda dão as mãos, os meninos têm brinquedos e a solidariedade não é palavra inútil arquivada no sótão dos dicionários. “Paz na Terra aos homens de boa vontade…” – apetece repetir, com Gedeão, sim, mas com todos os poetas que, desde há dois milénios, bendizem esse sortilégio que cada ano se repete, como se fosse a primeira vez, amaciando os corações, no sentido da solidariedade, da fraternidade, do altruísmo, da dádiva aos que mais sofrem e aos que menos têm, e por isso mais próximos estão do Menino Jesus original.
No meu Natal, há abraços para os amigos e palavras semeadas para que frutifiquem em paixão e rumor de manhãs, que sabe bem mergulhar.
O meu Natal será, porventura, só meu. O da minha identidade, da minha alma que não sei bem o que é ou onde pára, dos meus valores, das minhas inquietações, dos meus entes mais queridos, da tradição que se renova em cada 25 de Dezembro.
Este meu Natal dos últimos anos está mais vazio, como os que se lhe seguirão: há cadeiras desertas no veludo do meu coração. Falta alguém para um prato que não vai ser colocado na mesa da consoada, para um escabelo onde não estará ninguém, fisicamente, mas que me velará, certamente feliz, algures no espaço sideral, não é meu velho herói que me deixaste cada vez mais roído de uma saudade que eu julgava irrealizável?
Boas Festas, apesar de tudo!
Artur Coimbra

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