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AS CRIANÇAS DA GUINÉ-BISSAU

Hoje, e porque é a minha ultima crónica de 2017, vou falar-vos das meninas e dos meninos da Guiné-Bissau com quem me tenho cruzado ao longo dos últimos 8 anos naquele país. São crianças alegres, brincalhonas, sorridentes e generosas, mesmo quando o estômago pede por comida há longas horas e o corpo acusa o cansaço de diarreias, febres, lombrigas e outras doenças tais que, por lá, e à falta de um sistema de saúde capaz de dar respostas cabais, se curam com recurso à paciência, a ervas, chás ou até a cerimónias onde se invocam os Deuses para lhes levarem o mal. Estas crianças vivem com quase nada, ou mesmo absolutamente nada no que diz respeito a luz, fogão, frigorífico, banheira ou uma simples sanita com autoclismo. Isso seria um luxo impensável no seu contexto, em que a água que existe em casa é a dos baldes que vão buscar diariamente ao poço ou ao rio mais próximo. As meninas e meninos que apoiamos nas escolas financiadas pela ONG Afectos com Letras, ainda são algumas centenas, brincam com embalagens de lixívia vazias a que atam uns rolamentos e um corda e correm contentes rua fora, a despique com um ou outro pneu de bicicleta empurrada por um pauzinho roubado à lenha que serve para se fazer a fogueira onde a mãe coze o arroz do dia que irá alimentar toda a família. Se houver dinheiro este arroz pode levar um gostinho (cubo maggi) ou um caldo de peixe ou chabéu. Se não há dinheiro, come-se assim, cozido em branco.

Eles e elas brincam com bolas que improvisam com roupa velha enrolada, nos intervalos de ajudarem os pais na lida da casa, na horta ou na venda no mercado do pouco que tiram da terra. Também dançam com uma energia contagiante, logo que dois ou três batem palmas e quando, por sorte, aparece um djambé.

E cantam muito. E saltam. E mostram que a alegria pode estar ali onde não encontramos nada mais.

Estas meninas e estes meninos guineenses também sabem o que é o Natal. Os cristãos, pelo menos, celebram-no e os não cristãos (muçulmanos, animistas ou outros) respeitam-no e conhecem-no.

Mas por ali não imaginam o que é o consumismo, as lojas cheias de gente que se acotovela e briga pela ultima peça na prateleira, as filas nas caixas registadoras, as birras dos miúdos da sua idade quando o presente não é a desejada ultima versão de uma consola, por sinal parecida às outras duas que andam lá por casa aos tombos.

Sabem apenas ser reconhecidos quando, por esta altura, os pais ou na escola lhes dão um presentinho, que por mais humilde que seja, gera neles um sorriso de orelha a orelha e faz brilhar os seus olhos como poucas vezes vemos por cá.

Não se aplica aqui o cliché do felizes com pouco, não é disso que se trata, mas sim o felizes e agradecidos com o que recebem. Que no caso, é mesmo pouco. Mas chega para lhes iluminar o semblante e ganharem o dia.

Também eu fico bem mais rica cá no meu intimo ao testemunhar estes momentos únicos do modo de estar e de ser pequenino naquele país.

Para as crianças da Guiné-Bissau e para os leitores da BIRD Magazine deixo os votos de um Natal muito feliz de um 2018 bem melhor que este 2017 que agora deixamos.

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