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O GRANDE HOMEM É AQUELE QUE RECONHECE ONDE E EM QUE É PEQUENO

Não consigo orgulhar – me por ser de um país que integra o melhor jogador de futebol do mundo. E da história, dizem (ele diz!). O defeito deve ser meu.

Orgulho-me de outros actos dos portugueses, o prémio Nobel, José Saramago, representa muito e exprime o que verdadeiramente julgo que é ser português (a língua, claro! ) e até esta última vitória de um português, o ministro Mário Centeno, independentemente das consequências políticas que virá a ter no futuro, me parece importante para o prestígio do país. Mas o futebolista….

Tenho feito algum esforço para entender a dimensão humana e nacional deste jogador e o que ver ou projectar nele para me sentir afirmada e rejubilar por ser portuguesa, à luz deste ganhador de troféus. Não consigo. Ele joga futebol, ao que tudo indica joga bem (eu não vejo futebol ), treina para estar à altura, ganha muito dinheiro, investe na imagem, até compra os filhos a quem, por essa razão, chama seus, tem negócios, museus, estátuas , é conhecido internacionalmente. ..bem sei que é um considerável conjunto de atributos ou de feitos…mesmo assim, não me convence. Nem um pouco! O defeito há -de ser meu (repito): não sou capaz de compreender a genialidade de ser assim excepcional num jogo, que nunca pratiquei, é certo, mas cuja orgânica entendo.

Para mim, ter esse português como símbolo maior do meu país é frustrante. Não é inveja como afirmam, às vezes, a propósito, e quando surgem críticas; nas minhas áreas também sou competente e nunca fui muito dada a esse tipo de sentimentos: falo de inveja, claro. É mais o desgosto de ver que a prática de uma brincadeira, de um jogo, pode elevar um indivíduo a um ponto tal de consagração. É um jogo, aquilo que ele pratica, não é? Quase toda a gente sabe como se joga, não é verdade? Então, por que dar – lhe, assim, tanta importância?

Não consigo perceber. (Mas isto sou eu, claro).

Enquanto pessoa, o “fenómeno” do futebol parece-me um indivíduo comum. Igual a muitos outros que, saídos do anonimato, se vão evidenciando de muitas formas e cujo destaque está absolutamente dependente do dinheiro que detêm. Porque esse pormenor, muito mais do que tudo o que o fez ( falo do futebolista) chegar ao patamar onde lhe prestam culto (qual santo, qual deus ), faz toda a diferença neste nosso mundo regido pela posse de bens. Tenho pena que assim esteja baixa a cotação do humano e do valor, lamento que o génio seja aferido pela ponta dos pés e pela brutalidade do treino.
Penso nos heróis nacionais de todas as épocas, aqueles que fizeram o país e lhe foram dando carácter, em séculos de história.

E depois evoco um homem vestido de gala, exibindo brincos valiosos e um rosto esculpido, oiço-o a fazer o discurso da auto-emulação…e arrepio-me: é um frio imenso que me atravessa e é todo o vazio que me cai aos pés.

Considero que o mérito está igualmente distribuído entre os homens ou, pelo menos, as condições básicas para chegar a tê – lo. Todas as pessoas nascem iguais, pouco as distingue, à partida; mas depois o processo de crescimento acrescenta (e às vezes retira) o vigor inicial, projectando uns naquilo a que a sociedade chama sucesso e deixando outros na obscuridade.

Neste pormenor, como em outros, subscrevo Descartes que assim inicia o seu Discurso do Método :

” O bom senso (ou razão, parêntese meu) é a coisa do mundo mais bem distribuída, e toda a gente julga estar tão bem provida dele, que mesmo aqueles que são difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que já possuem.” (R. Descartes, Discurso do Método).

E, ainda segundo Descartes, o que distingue os homens é o “método” ou seja, literalmente, o caminho que escolhem para trilhar a vida.

Aparentemente, os designados “grandes homens ” romperam as cadeias impostas pelo seu nascimento ou educação e foram capazes de impor o seu nome (e os seus feitos ) ao mundo. E assim nasce uma reputação.

Eu não tenho dúvidas acerca do valor de quem galgou as limitações da insularidade e da pobreza para lutar por um sonho. O que me perturba é o objecto de semelhante sonho e o tão pouco que a humanidade tem a ganhar com o mérito do respectivo sonhador.

Que pode ensinar-me o triunfo desse talento da bola e do relvado, que podemos ganhar, nós todos, vendo – o, ouvindo -o e observando o modo como desempenha as suas funções? Esta é a questão fundamental.

Depois há o problema do futebol, em si mesmo, esse jogo transformado em negócio, esses impérios construídos por acção de uma espécie de alucinação colectiva, pronta a sobrepor-se a muitos e sãos valores. Nunca, como hoje, vi o futebol e os jogadores guindados a semelhante categoria!
É certo que o homem precisa do jogo, da disputa, da competição…da guerra?! Sim, a agressividade pulsa no íntimo de todo o humano, e o futebol funciona como palco privilegiado da hostilidade de uns contra outros. Talvez seja essa, afinal, a sua função predominante e, decerto, é preferível ser violento em cima de um relvado, com o objectivo definido de meter o maior número possível de golos na baliza e derrotar o adversário, a empunhar armas e lutar num qualquer campo de batalha. Já existiam jogos nas Antigas Grécia e Roma (para não recuar mais no tempo) e, neles, o povo pedia sangue e celebrava a carnificina.

Julgo que “o melhor futebolista do mundo e da história ” é, afinal, um guerreiro e, por isso, expande a agressividade e a violência (que tem em si) pelos relvados do mundo. E os treinos, ou seja, tudo aquilo a que ele chama “trabalho”, têm como principal objectivo tornar sólido o corpo para desempenhar aquelas batalhas de homem contra bola, de homem contra homem, durante o tempo regulamentar. A mente, dirigida exclusivamente para as lides do jogo, é treinada em conjunto, porque o futebol tem regras precisas e um certo tipo de inteligência necessita ser activada e desenvolvida.

Segundo Gardner (Howard Gardner – Scranton, Pensilvânia, 11 de julho de 1943-psicólogo cognitivo e educacional norte-americano, ligado à Universidade de Harvard e conhecido, em especial, pela sua teoria das inteligências múltiplas.), o tipo de Inteligência predominante num futebolista, designa-se como Inteligência Motora e confere aos respectivos detentores um grande talento em expressão corporal e uma noção assinalável de espaço, distância e profundidade. Eles têm um controlo sobre o corpo maior que o normal, sendo capazes de realizar movimentos complexos, graciosos ou fortes com enorme precisão e facilidade. É uma inteligência relacionada com o cerebelo, que é a porção do cérebro que controla os movimentos voluntários do corpo. Presente em desportistas olímpicos e de alta competição , é um tipo de inteligência directamente relacionado com a coordenação e capacidade motoras.

Pode considerar -se, assim – se Gardner tem razão ( porque, para além das suas inteligências múltiplas, há outras perspectivas sobre o que é a inteligência ) – que qualquer desportista, e este em particular, exercitam, para a prática da modalidade escolhida, essa zona do seu cérebro e trabalham o corpo no sentido de equilibrarem os dois lados (afinal, apenas um, porque o indivíduo é um todo, não redutível à soma das partes).

A inteligência e o talento existem naturalmente em todos os homens (assim como nos outros animais), repito. O excepcional corresponde, portanto, a uma espécie de incremento de uma capacidade limitada; e sempre que o indivíduo treina intensamente uma zona do seu cérebro, descurando as restantes, compromete a sua integridade global. Canalizar o talento (se o é ) e o treino numa só direcção produz, sem dúvida, um resultado excepcional. Mas, vejamos : é assim tão relevante, do ponto de vista humano, ser um futebolista extraordinário?

A não ser no sentido, já referido, de o futebol, à semelhança do que acontecia na arena dos jogos romanos , oferecer, na luta dentro da área do relvado, o escape da agressividade que, tal como em Roma, contagia o povo mais ou menos bárbaro e o faz enfrentar melhor os seus reveses, não vejo o mérito dessa actividade e o prestígio do “melhor do mundo”.

Vivemos, pois, uma barbárie idêntica à de outros tempos. Poderíamos, desse modo, e já que ser bárbaro nos é constitucional , fixar a violência que trazemos em nós na disputa de jogos e ostentar troféus e medalhas na vaidade que igualmente parece estruturar – nos. Porém, apesar da brutalidade da maior parte dos jogos colectivos, apesar da corrida aos estádios e recintos desportivos, a sede de sangue não é minorada: porque a ferocidade da guerra, literalmente falando, continua aí e são os senhores do mundo que a ela incitam.

Basta observar o que se passa na política, na opção tida como mais justa e a que chamamos democracia. Os líderes partidários não descansam enquanto não destroem um certo equilíbrio, querendo impor a sua versão e derrubar a que lhes retirou protagonismo; os chefes mais poderosos mostram a sua face brutal, querendo subverter a ordem e abrindo caminho à contenda.

Bem no fundo, que não à superfície ( e os homens nem sempre gostam de se observar muito para dentro ), o mérito desse pequeno homem, tornado grande por força do treino exaustivo de uma característica, cifra – se na perpetuação legitimada da violência, no campo de batalha em que se transforma todo e qualquer estádio à hora da competição.

E deixem-me terminar, a propósito da tão propalada humildade desse jogador, em concreto, cujo nome nem vale a pena escrever, e da frase em que ele afirma, com orgulho: “Eu sou o melhor do mundo e da história, porque ainda não vi ninguém que ultrapassasse os meus feitos “, citando Wilhelm Reich:

“O grande homem é aquele que reconhece onde é em que é pequeno; o homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la, que procura mascarar a sua estreiteza de vista com ilusões de força e grandeza.” ( Wilhelm Reich, Escuta, Zé Ninguém!)

Definitivamente, o melhor futebolista do mundo deveria ler este livro, e o séquito dos seus admiradores, que se deixam inebriar pelas vitórias dele, outorgando-as a si mesmos e ao seu país, também.

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