Home>Cultura, Literatura e Filosofia>UM CONTO DE NATAL “O Segundo Natal do cavaleiro da Dinamarca” (O Natal do homem bom)
Cultura, Literatura e Filosofia

UM CONTO DE NATAL “O Segundo Natal do cavaleiro da Dinamarca” (O Natal do homem bom)

Todos os anos, nesta época, publico um conto de Natal. Faço-o desde 2012, sendo este, portanto, o meu sexto conto de Natal.

Aqui fica um excerto:

No Inverno, a floresta da Dinamarca reinava num reino de frio e penumbra, ficava *“presa em seus vestidos de neve e gelo”. Mas em casa do Cavaleiro a maior festa do ano era precisamente no Inverno, “no centro do Inverno, na noite comprida e fria do Natal”.

Era o dia 24 de Dezembro, um dos dias mais curtos do ano. O Cavaleiro queria chegar a casa antes da meia-noite. Penetrara na imensa negra floresta com o cavalo que lhe tinha sido providenciado pelos amigos da aldeia vizinha. Trazia uma alegria própria de estar perto, que era outro nome que acompanhava a esperança, a fazê-lo esquecer o cansaço e o frio. Mas a floresta era um lugar estranho: parecia mágica e parecia que as coisas se moviam dos seus lugares, “como um labirinto sem fim onde os caminhos andavam à roda e se cruzavam e desapareciam”. A neve cobria tudo, tanto que havia feito desaparecer o curso do rio, o trilho que o Cavaleiro tinha esperança de seguir. A luz crua da tarde fazia tudo branco da neve e cinza no ar. Só os pinheiros continuavam verdes, “com os seus ramos cobertos por finas agulhas duras e brilhantes parecem vivos no meio do silêncio branco e imóvel”. O imenso silêncio da floresta deixava escutar o menor rumor, pequenos ruídos e estalidos. Mas isso foi enquanto houve luz. Depois, só cinza e negrume, uma imensa penumbra como num santuário, como as veredas e grutas escuras que Jesus percorrera no Seu caminho de vida e amor.

Por vezes, sentia um respirar, um bafo quente de animal, lobo ou urso que por ali rondasse, os ramos dos arbustos a roçarem-lhe o corpo, mas já nem sabia se os imaginava do cansaço e do frio, se era a realidade a trazer-lhe os medos à superfície. Pelo sim pelo não, dizia com voz firme: “Não sabes que na noite de Natal as feras não atacam o homem?”. E logo aquela sensação de se sentir perseguido desaparecia.

Anoiteceu. “A neve apagara todos os rastos, todos os carreiros”, e agora multiplicava-se o silêncio à medida que a noite avançava. Todos os bichos se haviam recolhido nas suas tocas.

– Estou perdido. Vou morrer aqui – o Cavaleiro caminhava em círculos, cada vez mais desesperado, “o silêncio continuou a crescer e o homem e o rio não se encontravam”.

“Tudo estava imóvel, mudo, suspenso”.

“Então lembrou-se da grande noite azul de Jerusalém toda bordada de constelações”. Esse pensamento fortaleceu-o. Na floresta, o céu “era escuro, velado, pesado de silêncio. Nele não se ouvia nenhum sinal. Mas foi em frente desse céu fechado e mudo que o Cavaleiro rezou.” Rezou a oração dos Anjos, aquela oração que numa noite antiga tinha atravessado o céu reluzente da Judeia:

“Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”.

Uma rajada de vento sacudiu as copas das árvores.

O Cavaleiro levantou-se movido por uma leve curiosidade. Pareceu-lhe vislumbrar um relampejo, uma difusa claridade na fundura da noite.

[…]

“Lá fora havia gelo, vento, neve. Mas em casa do Cavaleiro havia calor e luz, riso e alegria”.

Dentro de casa havia filas de estrelas que se desdobravam em harmónios feitas pelas crianças. Havia azevinho, coroas, anjos e velas.

Todos queriam ouvir as espantosas histórias que o Cavaleiro tinha para contar da sua peregrinação à Terra Santa. Há dois anos, naquela floresta, naquela clareira, naquela casa, sentado àquela mesma mesa, perante os mesmos convivas, anunciara a sua partida. Perdido do sentido mais profundo da vida, precisava de uma luz que o ajudasse a reencontrar o seu caminho de fé. Queria passar o Natal na gruta onde Cristo nasceu, “também ele queria rezar ali”.

“Naquele tempo as viagens eram longas, perigosas e difíceis”. Malgrado a grande aflição sentida, a mulher do Cavaleiro “não tentou convencer o marido a ficar, pois ninguém deve impedir um peregrino de partir”.

[…]

E, pela noite fora, perante a admiração de todos, o Cavaleiro contava como “procurou nas ruas de Jerusalém, no testemunho as pedras, o rasto de sangue e sofrimento que ali deixou o Filho do Homem perseguido, humilhado e condenado” – o que é o nosso sofrimento comparado com o Dele? Como “caminhou nos montes da Judeia, que um dia ouviram anunciar o mandamento de um novo amor”. Como eram belos os palácios de cúpulas douradas e misteriosas as passagens estreitas por entre as pedras que contam a história de Jesus, a história mais antiga do Peregrino mais antigo e especial. E descreveu os homens usando duas tranças em bandós por debaixo do quipá e longas barbas apanhadas num carrapicho caminhando cabisbaixos pelas pedras gastas das ruas.

E, finalmente, procurou explicar como foi só dele aquele momento, a noite de Natal em Jerusalém, o que mais tinha ansiado naquelas horas: um momento de paz, um refúgio e um momento de oração. Na gruta de Belém, rezou durante toda a noite e “julgou ouvir, num cântico altíssimo cantado por multidões inumeráveis, a oração dos Anjos:

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”.

Como era hábito na noite de Natal em casa do Cavaleiro, contavam-se histórias pela noite dentro. Algumas eram histórias recentes, cheias de novidade, e outras eram as mesmas histórias sempre repetidas, que a cada ano se tornavam mais belas.

[…]

O Cavaleiro era outro homem. Era um homem novo. E era um homem bom.

Aquela viagem tinha efetuado uma grande renovação no seu ser. Porque mais do que uma viagem pelo mundo, aquela tinha sido uma viagem ao mais fundo de si. Foi quando se encontrou no interior do silêncio de si próprio.

A noite avançava no calor da graça e da gratidão. O Cavaleiro pediu a todos que rezassem com ele a oração dos Anjos. E aquele coro de vozes foi um clamor de força e união no seio escuro e frio da floresta, rasgando a névoa.

“Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”.

E em silêncio, o Cavaleiro repetiu as súplicas que dirigira a Deus na Terra Santa, “que o fizesse um homem de boa vontade, um homem de vontade clara e direita, capaz de amar os outros”.

Agora estava em casa, com os seus.

Aquela era a noite do mundo – noite de trégua, noite de Natal.

*Todas as passagens colocadas entre aspas são citações da obra O Cavaleiro da Dinamarca.

Este é um projecto coordenado por João Carlos Brito e por Maria Eugénia Ponte.

“O Segundo Natal do Cavaleiro da Dinamarca (O Natal do homem bom)” (excerto), de Anabela Borges in colectânea LUGARES E PALAVRAS DE NATAL, editora Lugar da Palavra, Dezembro de 2017.


Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.