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A VÉSPERA DE AMANHÃ

Resta o sabor das filhoses impregnado nas traves de madeira.

Os barrotes negros da fuligem que ascende ao tecto à boleia das brasas incandescentes, misturadas com sonhos de outrora, nas lágrimas frias invernais das memórias de agora.

As telhas encavalitadas sobre e sob o musgo dos invernos, esquecidos no ressoado daquilo que o céu não quis, parecem a metáfora para o que não queremos acrescentar, o adjectivo que irá encapelar um mar que não sabemos navegar, no aguardo das mãos que as adornem às traves do costeado esqueleto de um corpo que se aguenta apenas porque, uma vez por ano, há momento em que se inspira o que alimenta e sustenta.

Passou-se o Natal, quase uma estação de um só dia na baforada de um cigarro que nem tempo tivemos de acender.
Ficou-lhe na véspera o presente de um dia que se esfuma como o vapor nas lentes quando, com todos ao redor da mesa entre o saboreio da fausta consoada e a recordação do patriarca ausente, saiu da cozinha.

Desandou o ferrolho da velha portada envidraçada, o frio espremia-se contra o vidro para ver melhor e deixava a marca em todos os recantos rectangulares quando a noite se escondia, fugidia, da luz que emanava.

Deitou a mão esquerda à romba e grande pedra côncava, outrora pia baptismal, resquícios de obras eclesiais na freguesia e uma disputa entre homens, bons apenas de dia, molhou as pontas dos dedos e benzeu-se, a água gélida na fronte, uma bolha salgada a crescer nos olhos cansados explode pacificamente e cai aos trambolhões nas rugas, como a enxurrada pacífica de uma tormenta que assome de cada vez que pensamos chover. Afinal, era apenas o sorriso a crescer.

Lá de dentro, pela curiosidade sadia infantil, espreita a criança mais nova que fastidiosamente embrulhava uma longa couve ao redor de uma batata cozida, fazendo divertidos e irregulares percursos sobre o azeite.

Na absorção entre garfadas e consultas periódicas, mas constantes, ao cintilar do led do smartphone, ninguém deu por ela agora, e pela idosa antes, saírem para o pátio descoberto ao coberto da noite de Natal.

A pequena dá-lhe a mão, fita-a e repete a posição de olhar erguido ao firmamento na invariável estrelada natividade, até que o silêncio seja quebrado pela impaciência curiosa de meninice:

– Avó, o que estás a ver?
– Tu e eu.
– Mais nada?
– Não, já só nos sobra o céu.

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