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CRÓNICA DA FALTA DE ASSUNTO

 

Como bem sabe quem escreve, na área mais subjectiva do discurso poético ou nas diversificadas manifestações da prosa, nem sempre as musas, a disponibilidade ou a criatividade brotam na ponta da caneta ou nas teclas do computador.
Há dias e dias, como em tudo.
Dias em que a inspiração jorra torrencialmente, como as tempestades de Inverno, e os assuntos se atropelam e multiplicam à velocidade da luz.
Outros, em que o autor se senta frente à aridez desértica do papel em branco e nada ocorre de interessante ou susceptível de ser aproveitado para levar aos leitores. É como se a mais extrema secura atacasse e deixasse maninhos o coração e a alma de quem escreve, vazios, inaproveitáveis e sem préstimo.
Falemos da desgraça do cronista que abanca na secretária para redigir umas linhas para publicação mas a falta de assunto desaba impiedosamente sobre ele e não consegue articular duas ideias seguidas que jeito tenham.
O desassossego toma conta do cronista quando o tempo aperta e nada sai. É a angústia. O pânico. O terror.
Olha para o lado, fecha os olhos, à espera de um lampejo redentor… e nada. Vou escrever sobre quê, que tenha interesse para os leitores mas também para mim, que sou o escriba mas também o primeiro leitor?
Vai ao frigorífico, abre uma cerveja e ocorre-lhe Pessoa, na sua celebérrima piada fotográfica, “em flagrante delitro”…
Volta a alapar-se, e nada. A brancura do papel permanece imaculada, como se os deuses tivessem abandonado o cronista à sua sorte. Miseravelmente sem assunto, logo, sem existência. Porque cronista sem assunto e sem crónica, é algo que não tem sentido. É da área do absurdo. A identidade do cronista é a crónica que escreve e publica, num blogue, numa rede social, num jornal.
Volta ao frigorífico e tira um chocolate, que vai partindo e repartindo pelos dentes, remoendo, maquinalmente, para ganhar tempo, sempre em busca de assunto para a sua escrita.
Há dias assim, como dias assado. Ou frito ou cozido. Tenta rir-se de si mesmo e das suas piadas sem qualquer relevância óbvia, até porque está sozinho, consigo mesmo e com a impotência para alinhavar um tema de interesse.
Sim. Falar de quê?
De política? Não interessa nem ao Menino Jesus e nestes dias de Janeiro, com os Reis já festejados, é assunto absolutamente requentado.
De futebol? Ainda interessa menos, numa época em que o futebol já não é desporto mas apenas gananciosa indústria de lazer ou central de interesses financeiros para entreter as paixões e estimular as emoções mais primárias.
Falar do dia-a-dia? Do escândalo das adopções da IURD, que tanto foi silenciado e agora vem à luz do dia? De mais trágicas mortes em Tondela, terra tão martirizada pelos incêndios de Outubro? Das três mulheres que já foram assassinadas em Portugal no espaço de 15 dias, desde o início do ano, num inferno de violência que não há meio de parar?
Da educação que falta e da saúde que escasseia para os mais pobres?
De algum livro que tenha lido, quando o que escasseia é mesmo o tempo para ler, com prazer?
Bom, o melhor é não escrever nada quando nada se tem a dizer. Serve para a poesia e para a prosa, qualquer que ela seja.
Serve obviamente para a crónica.
Ou a angústia do cronista derrotado pela falta de assunto!

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