Cidadania e Sociedade

SUPERNANNY

O tema é polémico e está na ordem do dia. Quanto à polémica, já lá vamos. Comecemos, pois, pela discussão que foi suscitada pelo programa e que não deixa de ser algo para que o professorado vem alertando há algum tempo – a parentalidade.
Já não é de agora que se ouvem expressões como “eduquem-se primeiro os pais, para depois se conseguir educar os filhos”. A parentalidade mudou. A família mudou. A sociedade mudou. A família em que o pai trabalhava e a mãe ficava em casa a cuidar dos filhos e das lides domésticas, já cada vez menos existe. Agora, ambos trabalham e chegam a casa ao final do dia cansados de uma jornada laboral stressante, na maior parte das vezes sem nenhuma vontade de usar a palavra que mais educa, provavelmente, uma criança – o Não.
Por outro lado, a sociedade mudou ao nível daquilo que disponibiliza em termos de tecnologia às crianças e jovens. Telemóveis, computadores, tablets, 150 canais de televisão, fizeram mudar as relações entre as pessoas, nomeadamente entre aqueles que se mostram mais disponíveis para as abraçar. Contava-me alguém há poucos dias, que tinha ido jantar com amigos. Cada casal com crianças. No final do jantar, as crianças não se despediram umas das outras porque pura e simplesmente não interagiram. Provavelmente, nem os nomes umas das outras ficaram a saber, porque passaram o tempo todo “mergulhados” nos respetivos telemóveis.
Vamos, então, ao programa e à polémica. Comecemos pela SIC. A SIC é um canal de televisão privado e que, como tal, busca um objetivo – audiências. Neste sentido, a polémica instalada à volta do programa não faz mais do que ajudá-la a cumprir esse propósito. Há, no entanto, outras questões que se colocam:
Será que os direitos das crianças estão a ser integralmente respeitados?
Será que as crianças estão a ser devidamente protegidas por aqueles que deveriam ser os principais guardiões do seu direito à privacidade, ou seja os pais?
Será que o direito à privacidade de uma criança é um direito do qual os seus legais representantes podem dispor, abdicando dele se assim o entenderem e recebendo uma compensação financeira para tal?
É legítimo procurar audiências televisivas à custa deste formato de programa?
Que acompanhamento será feito a posteriori dos casos que serão apresentados no programa?
Será aceitável que os pais que aceitam as regras do programa sejam convocados pelas CPCJ, que tantas vezes se mostram pouco atuantes em outros casos?
Perguntas difíceis para respostas que, certamente, ainda o serão mais. Uma coisa é certa, a polémica está instalada e irá continuar porque os argumentos são mais que muitos para defender os dois lados da questão.
Discuta-se a parentalidade. Discuta-se que as premissas da educação de uma criança, são hoje absolutamente distintas do que eram há alguns anos atrás. Discuta-se tudo, numa base de que não há receitas mágicas nem infalíveis. Uma coisa é certa. A lógica da observação dos comportamentos em contexto familiar, alinhados à lógica de reality show, não me parece de todo que seja a melhor solução.
A bem dos pais e das crianças!

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