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SUPER NANNY (S)

Vivemos um tempo fértil para a abordagem de um número ilimitado de temas: o problema é a liberdade sem limites outorgada a qualquer um. Exactamente. A liberdade pode ser um problema.

Todos podem falar, escrever, comentar, dar opiniões, apresentar – se como testemunho; em princípio, essa prolixidade não seria perniciosa e, obter contributos vários sobre assuntos candentes, tenderia a enriquecer o mundo. Mas quando tudo se mistura e nenhuma conclusão válida é possível extrair da rede intrincada das perspectivas – que não da dialéctica – e parece mesmo que o confronto ou a posição A ou B ou ainda a C são levadas ao cume e as demais desprezadas ( ou o compromisso ), instala – se uma espécie de caos, a tender para o vazio.

Vejamos o tão propalado tema do desocultamento da privacidade familiar, no contexto do qual os pais abrem as portas a uma especialista em educação e a uma equipa de filmagem, para televisão, com o objectivo de patentear aos espectadores os respectivos problemas. Tais problemas dizem respeito ao que, em princípio, é tido como privado já que incide sobre o método educativo usado pelos pais com os filhos, expondo, (alegadamente ) sem filtros, o que ocorre no dia a dia, portas adentro.

Vi, por acidente, um pequeno excerto de um desses programas. Obviamente que considerei absurdo tudo aquilo a que assisti. Obviamente que me pareceu um despropósito filmar as birras – apresentadas como autênticas – de uma criança de tenra idade. Obviamente que os conselhos e instruções da especialista me soaram inoportunos e decerto inoperantes.

Aparentemente, os pais acederam a entrar nesse programa, permitindo a exposição de si próprios e da sua família, tendo como objectivo resolver o seu problema, em concreto, e, através de espectáculo – porque um programa de televisão é sempre espectáculo -, mostrar a outras famílias, em idêntica situação, como resolver os seus dramas.

A primeira questão que me ocorreu foi a seguinte : que contrapartida monetária recebem esses agregados familiares para, desse modo, “venderem” a sua intimidade? Efectivamente, eles possibilitaram a realização de um espectáculo, a ser exibido por um canal de televisão; e esse espectáculo tornou-se um produto – comercializável, portanto. Alguém acredita que, elevados à categoria de actores, esses pais e essas mães abdicaram do respectivo cachet? Que abriram as portas das suas casas, mostrando todo o seu interior e todos os seus hábitos, expondo – se e aos seus filhos, nas suas fraquezas, sem daí retirarem dividendos?

Podem garantir-me que sim, que eles estavam animados de pura boa vontade e nenhum constrangimento, na medida em que queriam ajudar o mundo, elevando – o, pouco lhes importando servir de cobaias. Tenho muita dificuldade em acreditar nestes sentimentos e, a menos que a capacidade manipuladora dos órgãos de comunicação social e dos especialistas seja extremamente eficaz, custa – me crer que cedam, sem exigir contrapartidas – se elas não forem já um pré -requisito.

A exploração da imagem dos filhos pelos pais é um fenómeno clássico.

Lembrei-me, a propósito, do pequeno actor Macaulay Culkin ( “Sozinho em casa” 1 e 2) cujo sucesso, quando era criança, se apagou bruscamente, no início da adolescência. Dizem que abusou de drogas e de outros vícios, perdeu a beleza da primeira infância e retirou-se dos filmes. Mas parece que a história teve ainda outros contornos (segundo o próprio ): o pai obrigou – o a entrar nos filmes, apropriou – se do seu cachet milionário, o filho teve que levar a cabo um litígio para tomar posse da fortuna…enfim, todos os problemas decorrentes da apropriação da imagem do filho em proveito próprio, com consequências mais ou menos trágicas para o jovem, tão promissor quando era criança. (Esta é uma perspectiva sobre o caso, colhida em informações avulsas, cuja veracidade absoluta não tenho como provar.).

Logo, estes pais que deste modo abusam dos filhos, com a agravante de mostrarem deles um lado muito desfavorável, têm, sem dúvida, em vista uma recompensa. Não acredito que os mova, tal como afirmam, apenas o amor pelos filhos ou a necessidade de resolver problemas para que se sentem incapazes, muito menos a generosidade de servir de exemplo para outras famílias.

Se vivessemos numa sociedade perfeita, decerto uns casos poderiam contribuir para ajudar na resolução de outros idênticos e patenteá-los traria um benefício comum. Mas estas crianças e estes adultos, assim sinalizados, fazem parte de um colectivo onde as misérias expostas servem para gáudio daqueles que as observam . Estes pais e estes filhos ficam marcados com sinal negativo – e para sempre.

Não avaliei as supostas qualidades pedagógicas do programa; mas não me parece necessário. Por muito que queiram garantir que as cenas gravadas fazem parte da vida real daquelas pessoas e que a presença de estranhos no meio familiar não prejudicará o fluir autêntico da dinâmica habitual, é por demais evidente que não é assim que funciona. As crianças tenderão a alterar o comportamento, em função das câmaras e de um estranho que lhes fala; e os próprios adultos o farão.

Paradoxalmente, há pedagogia neste tipo de programas: porque a pedagogia, basicamente definida como sendo todo o processo de educação, pode estar presente em qualquer lado.

Vejamos.

Uma criança que observa os defeitos dos seus pais, pode aprender com eles, tanto ou mais do que com as virtudes e conselhos. Vendo que, nesta ou naquela situação, o pai ou a mãe procedem mal, ela pode fixar esse comportamento e evitá -lo cuidadosamente. Conheci uma rapariga cujo pai teve a vida marcada pelo alcoolismo e ela, desde muito jovem, prescindiu de beber qualquer bebida alcoólica, como indicação, dada a si própria, de não seguir o caminho do pai.

Um jovem, compreendendo que o seu professor é incompetente, que não dá as lições de modo compreensível, pode exigir dele, com perguntas contínuas e dúvidas persistentes, que se esforce ou se demita. Esse jovem está a exercer pedagogia em si e no professor e, eventualmente, na escola toda.

E assim por diante.

Suponhamos, então, que essa especialista – a “Super Nanny “, título e modelo importados, como tantos outros – não passa de uma fraude (ela ganha, também, o seu cachet) e que grande parte dos conselhos e orientações que dá às famílias, não surte qualquer efeito. O espectador, assistindo ao programa, com sentido crítico, pode guardar – se de os seguir ou enveredar por outros caminhos, caso esteja a pô-los em prática por conta própria.

Logo, este programa que, aparentemente, exterioriza problemas familiares de relação e comportamento entre pais e filhos terá sem dúvida uma vertente pedagógica – se nos dispusermos a abrir – nos para ela .

O problema da exposição mediática e não consentida, expressamente, pelas crianças em causa é outra das questões equacionadas pelos detractores deste programa. Dizem que as crianças têm direito à preservação da imagem, não podendo, segundo a lei, ser alvo de devassa. Os pais não são donos dos filhos, eles são indivíduos autónomos, dotados de personalidade e com direito ao respeito.

Contudo, e em primeiro lugar, se os filhos não são pertença dos pais, por que razão são eles que autorizam ou não autorizam toda a sua actividade civil, quer se trate de uma viagem, de uma visita de estudo, da publicação de uma fotografia ou mesmo da utilização do seu nome, para efeitos úteis? Permitir ou não que o filho tenha esta ou aquela actividade, mesmo que seja da sua vontade ou interesse, não será a manifestação de uma pertença efectiva em tudo semelhante à propriedade?

Logo, as crianças e jovens até atingirem a maioridade civil, são, de facto, propriedade dos pais e apenas o bom senso paterno poderá preservar a sua imagem e garantir que não corram riscos. E só o fazem até um certo ponto, já que as crianças não crescem numa redoma, são enviadas para o mundo em tenra idade e aí submetidas a múltiplas influências.

Logo que evoco os pruridos exarados em múltiplos comentários negativos em relação ao citado espectáculo televisivo, por utilização indevida da imagem das crianças, transformadas em cobaias, penso que uma enorme hipocrisia subjaz a tanta revolta. Esses, que assim criticam violentamente um modelo que escolhe patentear dificuldades educativas, exibindo sem máscaras as crianças e os pais, no seu quotidiano, são os mesmos que publicam no Facebook, por exemplo, fotografias e vídeos dos seus filhos: ou porque acabaram de nascer, ou deram o primeiro passo, ou pronunciaram a primeira frase, ou cantam e dançam com virtuosismo, ou tocam piano…e há aquela mãe que não hesitou em engalanar a sua filha de tenra idade e mandá – la fotografar em múltiplas poses…e logo, logo conquistou o título de “a menina mais bonita do mundo “!

Podem retorquir : mas afinal, os pais fazem isso para realçar as qualidades dos filhos e por isso eles devem estar – lhes gratos, mais tarde! Neste caso…é o contrário que acontece.

Mas, pensemos : o assunto será, deste modo, linear?

Se fosse, o pequeno actor Macaulay Culkin, bonito e inteligente, que ainda entra nas nossas casas por alturas do Natal, jamais teria razão para lutar com o próprio pai que o transformou em lenda! E as pequenas raparigas que, nos anos 50/60 do século passado, vindas das aldeias, após completarem a escola primária, “servir” para casas abastadas a troco de um magro salário que entregavam aos pais na totalidade, jamais teriam qualquer hipótese de tornar-se mulheres equilibradas e bem sucedidas na vida!

A questão é complexa e, por isso mesmo, não pode ou não deve ser tratada de modo ligeiro.

O programa em questão foi cancelado por ordem do tribunal. Imagino que este facto tenha provocado, igualmente, reacções contraditórias. Considero esta decisão irrelevante quando são mantidos e exibidos, prolixa e diariamente, conteúdos televisivos aberrantes, manipuladores, francamente anti – pedagógicos a todas as horas do dia. Falo de telenovelas, programas de entretenimento, concursos, reality-shows, (pseudo) debates, praticamente todo o conteúdo da programação, incluindo a publicidade. Esses programas são vistos por toda a família e, muitas vezes, em família. A maior parte deles deveria igualmente ser cancelada, a bem da saúde mental da sociedade em geral e das crianças em particular.

De modo nenhum me ocorre defender o agora cancelado programa “Super Nanny”: até a sua designação me repugna, aquele “Super ” como se a especialista tivesse poderes sobre – humanos e a palavra “Nanny “, importada do inglês. Mas toda a especulação em torno do formato e a onda de comentários expressos que fui lendo, nauseada, aqui e ali, me patentearam a hipocrisia social dos pais, que são contra, mas permitem que os seus filhos adoptem, em público, os comportamentos mais lamentáveis, perante a sua passividade, dos falsos moralistas que criticam aqueles pais em concreto por exporem os filhos e depois publicam as fotografias dos seus em redes sociais por onde circula toda a gente, a ignorância ou a pactuação relativamente aos exemplos colhidos pelos filhos e por eles próprios na imensa abjecção que hora a hora é a oferta televisiva nacional e internacional.

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