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Gente da Minha Terra

TÂMEGA GUIGAS E GAIVOTAS

 Para se amar é preciso conhecer e, este Tâmega, tem ainda tanto para se descobrir…O rio Tâmega, que nos atravessa de lés-a-lés, nasce entre musgo e fetos na Galiza, na província de Orense, Serra de São Mamede e, como quem inicia um passeio para o qual não persepctiva um regresso, entra em Terras de Portugal pela Veiga de Chaves, onde se espraia num amplo gesto de abraço.

Este pequeno repouso, como querendo tomar folgo, leva-me a pensar ser sinónimo de ânsia em conhecer outras terras e novas gentes, na procura de um oceano que a vista ainda não alcança e o olfato, sedento de maresia, ainda não descortina.

Aventura-se e, sem medo, atira-se por entre fraguedos e penhascos lançando mão a ribeiras e arroios e, como um cavaleiro medieval na defesa da sua honra ou da sua amada, procura os caminhos mais curtos afundando-se nas profundezas de um leito de serra pedregoso e temido mas, ao mesmo tempo, de belezas ímpares e verdes idílicos.

É um rio de vida, de paixões e desencantos mas, temperamental e de carácter forte que, de quando em vez, investe sem dó nem piedade levando consigo vidas e bens.

As memórias mais cansadas fizeram chegar até aos dias que correm de que o Tâmega é um rio “fêmea” e, como tal, necessita de comer carne todos os dias para se manter boa mãe. Este “dito” teve cá em Amarante uma Senhora que, vivendo na sua Casa beijada pelas suas águas, quando lhe sentia alterações comportamentais mandava uma sua criada matar uma galinha e lançá-la ao rio. Sabe-se lá quantas vezes lhe apaziguou a fome e a fúria, mantendo o doce deslizar das guigas sobre o seu dorso povoado de folhas de amieiro e salgueiro, onde as bogas e os barbos se deliciam nas cascalheiras e os escalos se banqueteiam de moscas de maio e outros insetos cansados dos ardentes e efémeros momentos de procriação.

Por onde passa é povoado, um pouco por todo o lado, de barcos que os homens nos seus diários afazeres utilizavam e utilizam como meio de transporte de pessoas e bens e, também, na pesca e na caça em percursos relativamente pequenos, uma vez que, o Tâmega não se deixa navegar pelas muitas açudes e pedregosos obstáculos que enxameiam o seu leito.

Estas pequenas embarcações, em Terras de Amarante, tomam uma forma diferente de todas as outras e um nome – Guiga – que não se sabe a sua origem (supõe-se que derive de uma outra de origem inglesa “gig” – barco de regata) nem o por quê de tal denominação, uma vez que, se restringe só e somente a esta Terra a quem São Gonçalo chamou sua.

Nos dicionários a definição de Guiga aparece como “pequeno barco utilizado nas regatas” o que também não deixa de ser interessante, uma vez que em tempos não muito remotos, no Verão, era dado grande realce a um evento que consistia numa concentração e posterior corrida de ida e volta, destas pequenas embarcações, na área compreendida entra a velha Ponte e os Açudes dos Morleiros, onde era posta à prova não só a força muscular e o sentido de orientação dos remadores – remam de costas voltadas para a proa – mas, também, os conhecimentos ancestrais utilizados na sua construção pela forma suave e elegante como corta as águas.

Esta tradição quase que se chegou a perder vindo a ser, ultimamente, implementada pelos organizadores e responsáveis pelas Festas de Junho.

Foi, em tempos, meramente utilizada como utensilio de trabalho, fosse na pesca, na caça ou nas travessias de pessoas – seis a oito – e bens ligeiros. Ultimamente tem vindo a ser utilizada na pesca desportiva e em passeios turísticos ao longo do rio na área adjacente à zona histórica da cidade.

A Guiga, é um barco de fundo chato, de proa e popa levemente alevantadas e com a mesma configuração o que dá ao remador a possibilidade de o manobrar da maneira mais favorável, que pode ser movido a remos ou à vara. Construído em madeira de pinho (proa e popa em carvalho) nunca excede os cinco metros de comprimento, pouco mais de quarenta centímetros de altura e um metro de largura, com cinco assentos com proa e popa cobertas, toda ela pintada com cores garridas.

Os últimos construtores de guigas em madeira foram os irmãos Sílvio e Fernando Patrício e António Ribeiro, também conhecido popularmente por “António Pisco” que trouxeram esta arte, mais que centenária e adquirida através de gerações, até aos anos setenta do passado séc. XX, se bem que, outros entretanto tenham surgido mas de duração efémera.

Um outro barco, conhecido sempre por “barco” mais avantajado, mais ou menos com a mesma configuração excepto na popa (rematava com uma tábua que se elevava acima dos lados e tomava a forma de leque ou rabo de pássaro), quase sempre movido à vara, era utilizado na travessia de animais e cargas mais pesadas e na extração de areias, podendo-se dizer que hoje já não sulca estas águas.

De há uns tempos a esta parte, têm vindo a ser construídas em chapa de ferro e até em contraplacado, se bem que algumas não obedeçam à configuração tradicional pois são-lhe retiradas as popas iguais às proas e rematadas com popas retas o que leva o remador a remar só numa direcção. Não deixa, por isso, de ser um barco diferente cuja história partilha com a terra e a gente que lhe deu o nome e que permanece no Tâmega e só em Amarante a deliciar não só as suas gentes, mas também, todos quantos nos visitam e gostam de se deleitar com os prazeres de uma paisagem inigualável.

Nos idos princípios dos anos oitenta surgiu no nosso rio uma pequena embarcação de recreio pela mão do amigo e companheiro de carteira Teixeirinha – António Machado Teixeira – a quem foi dado o nome de “Gaivota”, sabe-se lá por quê, construída em fibra-de-vidro e com estrado em madeira. Fazia-se deslocar a pedais, que moviam uma espécie de hélice, entre a Praia Aurora e os Açudes de Frariz. Teve vida curta pois, logo nas primeiras cheias, as cadeias que a sujeitavam não aguentaram o esforço finando-se, esta primeira “Gaivota” rio abaixo tendo sido vista, pela última vez, na Varziela.

Passado algum tempo surgiu pela mão de Pedro Macedo, proprietário de uma oficina de bicicletas na Rua Teixeira de Vasconcelos, uma outra “Gaivota” cujos flutuadores eram construídos com latas de óleo (vazias), devidamente agrupadas e fixadas a uma estrutura de madeira que servia de estrado e, ao mesmo tempo, as sujeitava à sua função. Também não se aguentou acabando por fenecer sem deixar história.

A terceira “Gaivota” aparece pelas mãos dos amigos Hugo Silva e Mário Flores, esta já com flutuadores cilíndricos, feitos em chapa de ferro e com extremidades cónicas (para melhor cortar a água) também com um estrado em madeira, com rolamentos nos pedais para facilitar o movimento da hélice e pintada de amarelo a quem foi dado o nome Humar em homenagem aos seus patronos.

Esta “Gaivota” chegou até aos nossos dias, com alguns arranjos e conservação e alguma apurada e atenta vontade de existir pois, Mário Flores, não descura atenções à sua Humar. A patente não foi registada e, como tal, começaram a surgir algumas “más cópias” enxameando uma área da zona histórica com estas embarcações de recreio e forma de obtenção de alguma maquia extra por parte dos seus proprietários.

Estas “Gaivotas” que não comem peixe nem sabem voar, não se identificam com o nosso Tâmega, com a paisagem, com Amarante e, no meu modesto entender, nada de bom acrescentam a esta Terra. Pela sua instabilidade e deficiente construção já protagonizaram alguns incidentes e acidentes com perdas de vidas humanas. Dá que pensar…

Com esta investida a existência da “Guiga” chegou a estar deveras ameaçada mas, o amor e a tradição falaram mais alto e, este barco de poetas e prosadores, elegante, plenamente integrado na paisagem idílica e património de Amarante e do seu Tâmega, único no mundo, como que ressurgiu com nova força e vontade e, paulatinamente, ocupou a lugar que sempre foi seu.

O Tâmega, na sua passagem por Amarante, divide-a em duas margens frescas, verdejantes e com história e, é a “Guiga” com as suas formas sensuais e delicadas, a sua elegância no flutuar e cortar as águas que as une e faz prevalecer o amor, alimenta paixões e ilumina a vontade de viver a Vida.

Não nos esqueçamos que só em Amarante e no rio Tâmega é que há um barco a quem os Homens, em tempos que ninguém recorda, deram o nome de “GUIGA” e, tudo o mais, não passa de uma fantasia que não faz nem deixa história.

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