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VOCÊ NÃO É BEM-VINDO À CATALUNHA

Uma frase forte mas que é partilhada por alguns residentes em Barcelona que, nos últimos anos, viram a sua vida quotidiana ser invadida por turistas, muitos turistas, dizem que demasiados. A alcadeza de Barcelona, Ada Colau, está de acordo com eles e declarou guerra ao turismo, ela quer limitar o número de turistas (sim… leu bem!) em Barcelona para não incomodar os residentes e evitar que esta cidade se torne numa Veneza onde os turistas conseguiram expulsar os residentes da cidade. Hoje pouca gente vive em Veneza e aquilo é prácticamente, uma cidade vazia de vida local. Barcelona luta para não ser a próxima Veneza.

Nos últimos anos tem-se assistido a uma subida galopante dos preços na habitação, uma pessoa de classe média é-lhe quase impossível poder adquirir um imóvel ou arrendar um apartamento para viver na cidade. Barcelona é hoje uma cidade cara, mais cara que Madrid e muitas capitais europeias. Para terem uma ideia, um apartamento de 60 metros quadrados, usado e por restaurar, custa em media, 300.000€. Em grande parte, o turismo é responsável por esta inflação através do aluguer de apartamentos de curta duração via plataformas web vieram para ficar através de plataformas como o AirBNB e da oferta local de quartos em apartamentos familiares. A este factor, junta-se a proibição de construção de novos hoteis desde 2016 como medida para evitar que venham mais turistas.

E tudo isto porque o impacto de 12 milhões de turistas numa cidade de 1,5 milhões de habitantes é brutal, é desproporcionado, altera a vida dos residentes. Não sou eu que o diz, é um estudo encomendado pela Câmara Municipal avalado por muitos residentes do centro da cidade.

Vivo em Barcelona há 11 anos, reconheço que actualmente nunca visito o centro histórico (Ramblas, Bairro Gótico, Marina, Museus, etc) porque ali só há restaurantes para turistas (caríssimos) e lojas de souvenirs. Não há nada para fazer ali a não ser que seja um turista. E como eu, a grande maioria dos barceloneses, deixaram de visitar/frequentar essa zona da cidade.

Não é o meu objectivo julgar, condenar ou aprovar, as actuais medidas para conter o turismo! Na realidade, este artigo de opinião é para alertar outras cidades que almejam ser como Barcelona a nível turístico. Cuidado com o que desejam, digo sempre! Lisboa parece querer roubar o protagonismo a Barcelona, é uma forma de captar receitas e fomentar a criação de emprego.  Barcelona vive do turismo, gera imenso emprego ligado ao turismo e às conferências de negócios. Mas tudo tem o lado B…

Os empregos gerados na hotelaria são geralmente mal pagos, no caso dos restaurantes e cafés do centro histórico, os seus clientes são geralmente pessoas que estão de visita por um, dois ou três dias e que não irão voltar, logo, não há a necessidade de agradar e manter o cliente fiel à casa. Isto gera uma degradação da qualidade do serviço e quem paga a factura são os residentes que passaram a pagar mais caro por um serviço de pior qualidade. Por esse motivo, também, os barceloneses deixaram de frequentar o centro histórico.

De facto, parece incrível contar sobre uma cidade que não quer mais turistas apesar de viver deles. É um paradoxo, sem dúvida. Os residentes vêem agora que são obrigados a pagar muito mais pelo seu apartamento arrendado ou, como alternativa, ir para outras zonas da cidade e subúrbios. Os proprietários preferem alugar os apartamentos ao dia porque conseguem obter muito mais benefício no final de cada mês. Os que ficaram, queixam-se do “turismo de borracheira” que os impede de dormir à noite, tal é a forma como os turistas deambulam pelo centro às tantas da manhã cantando e falando alto com uma garrafa na mão.

Resumindo, Barcelona provou ao mundo, através dos jogos olímpicos de 1992, que pode converter uma cidade industrial numa das cidades mais turísticas do mundo em poucos anos. Esta cidade tem, de facto, excelentes infraestuturas para acolher os melhores e maiores eventos mundiais, e para atrair milhões de turistas que querem conhecer a cidade. Mas também está a provar que tudo tem um preço.

Lisboa (e outras cidades portuguesas) estão a apostar tudo no turismo, querem converter-se em cidades com imenso turismo. Acho muito bem, os benefícios são muito tentadores. Mas também é preciso ter consciência que, como em tudo na vida, há o outro lado da moeda. E neste caso, é a perda de algumas coisas a que sempre estivemos habituados. O sossego ou o prazer de poder passear com a família no centro da cidade ou num parque, é algo que fica ameaçado.

Pergunte a qualquer Barcelonês se sente falta da vida florida das Ramblas e da actividade artística e cultural que aí existía. Todos, sem excepção, vão responder que sim de forma saudosa. O Centro de Barcelona é hoje um local que foi conquistado pelos turistas, só eles andam por lá, porque só eles pensam que aquilo é a Barcelona dos barceloneses. Não podiam estar mais errados. Os que lá vivemos, já nem lá pômos os pés na realidade.


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