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A MENINA OPERÁRIA DAS MEMÓRIAS

Menina nossa a que ali se encontra no passeio, pisando a uniformidade da textura que por baixo de seu corpo sombra imensa desenha, onde a carência de uma certeza avoluma uma dor que em si arquiva e a que recorre em tempos nem sempre idos. O caminho, o mesmo, a direção, previsível, para nós que a temos observado na orquestração arritmada de coração e pensamento seus.

Tentava reconstruir memórias. Em exercícios, atribuía a seu pai um caderno de duas linhas. Limitadora forma em nada. Mas para certa estar de que singular ele se manteria. Dia existiu que, não a socorrendo, se aliou à normalidade do limiar do espaço que disponível estava para ser preenchido, tocando levemente suas horizontais linhas.

Mesmo consciente de que todas as memórias se baralhavam e para dentro de seu pai caíam, em nada atenuava a densidade do seu amor. Percorria, de sorriso lacrimejante, o caminho. Uma vez. Outra. Outra. E outra. Sem qualquer amenizar de força e esperança. Talvez o esquecimento não fosse um plano horizontal, linear. Possivelmente todas as memórias de uma vida, truncada, como perante nós se apresenta, apenas se tenham desorganizado, das suas prateleiras caindo devido a emocionais malagueiros, sucessivos, dedilhando a costa do seu interior, em rebentamentos mil. Significando-se.

Ela, que de mão dada nos abraça, transportando-nos para comum espaço, onde cada um de nós se abeira de familiar moldura, praticando uma dor que é aquela de recomeçar, como que vida alguma tivesse sido preenchida em momentos, mesmo que a realidade, onde se ajardinam os afetos, floresçam contra humana condição que em sua frente se impõe. Cruelmente.

O sorriso que em muito dela recebemos foi regado com lágrimas que a inundam de uma despedida que se fez célere. A inexistência dos nomes, dos espaços, dos afetos. Uma realidade. Apenas um profundo olhar. De porquês dimensionado. Silêncios marcados pelo compasso de tempo de um metrónomo que nos induz em erro quando sumariámos continuidade.

Mudas as lágrimas que no enlace de intenso abraço se disseminavam entre os poros que amizade cândida promove. Fortifica.

Sozinha jamais, abraçava-se a uma maresia que soçobrava do instante dos dias. Um pequeno hiato que se transformava numa vivencial intensidade, propulsionada pelos afetos que os uniam. Caminho percorrido. Novelo emaranhado. Movimentando os braços no sentido dos ponteiros, tique-taque-tique-taque, teimando nesta anomalia perfeita para quem do tempo apenas quer que ele siga o seu caminho. Em horizontal plano disposto. Sendo, apenas, o tempo.

A alvorada das memórias insinuava-se, sem estendida mão, na plenitude da sua limitação, a um nível que se queria elevado. Este nosso guerreiro, que por combativas linhas escrevia, diariamente percorria, resiliente, sua existencial demanda, sabendo que o estar siamês era do não estar. Mesmo detentor de inalcançável força, seu calcanhar, que a paredes-meias homérico nome partilhava, ia sendo lesado a cada ordem do dia.

Esperava. Ele esperava.

Aguaceiros de afetos o revestiam, desenovelando porquês. Aguardava, num ensurdecedor silêncio, a menina que nunca tardava a chegar. Cada palavra, um abraço. Cada olhar, um debruçar para o seu interior. Memórias que queria resgatar para emoldurar e dispor em internas paredes superiores, a enxutos olhos permissão requerendo, de minuta desguarnecida.

Debruçava-se. Inundava-o de um curioso e assertivo olhar. Memórias, essas, via-as. Apontava. Recontava. Esperando um branco espaço que por ele preenchido fosse.

Poderia o leitor pensar que esquecidos estamos da nossa operária, que em humano terreno regava as memórias que tendiam, em nada sazonal época, facilitar contínuo quartel de seca. Nem suas lágrimas seriam capazes de reverter tamanha condição. E nesse instante, que significa a vida, inspiramos, profundamente. Com ele.

Vez última.

A menina prossegue, cultivando memórias, num exercício que permite a sua sucessão. O seu não esquecimento. Com ela caminharemos. E lhe lembraremos, em momentos menores, que nossa maior exigência enquanto Eu é reconhecer, incondicionalmente, o Outro.

Hoje, a menina, em seu cesto de afetos laborado, aconchega cada memorável partícula de um Nós comummente tecido e vivido.

Uma menina que não quer deixar pueril estado, meninice sua, e de mão dada percorrer as ruas que os observou ininterruptamente, rindo e chorando dos momentos que desenhados foram. Quer ser menina-mulher. Guardiã das suas memórias. Nem que as envolva suavemente em suas mãos, cerradas, e nelas nada mais embale, negando perturbar sereno descanso. Um movimento de bombordo a estibordo de si e da composição afetiva ali representada, não admitindo o seu despertar por marés que de sua amura se aproximassem.

O caminho continuará a percorrê-lo. Sem protelar névoa alguma. Não findará. Celebrando a vida. Suas mãos como leitos de floridas memórias, dispersando-as num compasso por si indeterminado. Não se permitia viver numa certeza perante tamanha incógnita que veste terreno percurso.

              Talvez viver fosse essa apneia incomensurável de resgate das nossas memórias, que tendem a mergulhar no ínfimo patamar da nossa existência, como que nos virando a pele, expondo a que de interna, voltada para humano núcleo, então, de estanque forma, se traduz.

Recolho minhas lágrimas a uma cruel condição de hibernação. Sabendo-as emergentes e emancipadoras de um estado que é este de inalteração de uma dor que é a de se ser, sussurro-lhes, diminuída a voz, profundo o olhar, que não se esgotem em folgo único na incapacidade de reagir à catadupa de emoções, que se estranhando, jamais por qualquer poro vingue e parte faça do dicionário de vocabulares entradas que em corrente adversa ao sentido transite.

Entretanto, esta menina, que de sol a sol se entrega a terrenos nem sempre férteis de memórias íntegras, catalogando-as no truncado que representam, de nós se abeira. Conta-nos, sem nos contar, qualquer verbalização patente na sua discursiva ação, momentos subtraídos. A nós, estes somados são. De uma matemática facilidade nas operações materializadas.

Anota em cada um de nós cada uma das suas memórias, sem qualquer organização, receando o despir da sua intensidade, promovendo a sua continuidade em póstumo dia de aproximação a natural condição.

A menina sabia que, recolhendo cada uma dessas memórias, continuaria seu pai. Vertebrando singular caminho, em circular quadrícula, incomensurável, dedicava-se de humanas ferramentas ao aprofundamento de uma arte a que passou a dedicar seu tempo. A arqueologia das memórias. Minuciosamente as aconchegava, dispersando o que as tendia a diminuir. Sem descanso laborava, contra qualquer adversidade. Talvez de seu pai tamanha persistência herdado tinha.

  Um dia, junto dele entregaria cada uma dessas memórias com um simples olhar e intenso abraço. Aquelas que julgava perdidas, esquecidas, afinal descuradas em nada tinham sido.

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