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BISSAU, A CAPITAL

 Bissau é uma cidade pequena. Muito pequena até. Até há uns anos, quando as vacas e os porcos moravam nos buracos que povoavam as artérias da cidade e os carros circulavam a 10 Km/hora para não dar cabo das suspensões, ainda se demorava uns minutos largos para pequenas deslocações dentro da cidade. Por outro lado, andar a pé era considerado um deporto radical onde o principal objetivo era não torcer nenhum tornozelo e só se praticava de dia. Com o cair da tarde e sem luz pública nas artérias da cidade, tornava-se uma actividade demasiado perigosa, até para os mais radicais. Experimentei e sinceramente, não recomendo.Mas isso era nos tempos em que as ruas eram avessas ao alcatrão. Ou este a elas, nem sei bem…

Agora há estradas asfaltadas, pelo menos nas principais vias da “praça”, o coração histórico da cidade, e há uns candeeiros solares provenientes da cooperação chinesa que iluminam os passeios, que também foram recuperados. Pelo menos os que conservam as baterias intactas pois algumas foram surripiadas para outros usos.

E, de repente, percebemos que Bissau é uma aldeia. Ou uma tabanca, como se usa chamar na Guiné-Bissau aos pequenos povoados. Num instante cruzamos a cidade antiga, desde Palácio Presidencial até ao Porto do Pidjihuiti, seguindo a Avenida Amílcar Cabral, ou desde o cemitério (atrás do hospital Nacional) até ao bonito edifício da Meteorologia. Uma “aldeia” que de repente se mostra com ruas desconhecidas a muitos dos automobilistas, tão penosas que era cruzá-las, onde podemos ver agora casario antigo e um pouco abandonado, mas que conserva a traça e a beleza da arquitetura que na primeira metade do século XX povoou Bissau.

Nos últimos anos também se fez a requalificação de alguns dos espaços públicos como o jardim da Praça dos Heróis nacionais, o Largo da Mão de Timba junto do Porto ou o Jardim Titina Silá, junto de um dos Liceus da Cidade. Percebe-se nitidamente a falta que faziam pela enorme afluência que registam. Crianças a brincar, famílias a passear ao fim de semana ou ao cair da tarde, mulheres com a banquinha a vender guloseimas, amendoins ou o que possa ter alguma procura e valor comercial e homens a descansar à sombra das poucas árvores que por ali existem.

Nestas praças, a ONG portuguesa Afectos com Letras a que pertenço, instalou umas caixas biblioteca que albergam livros de acesso público e que se encontram à distância da abertura da portinha que os guarda. Aqui disponibilizamos livros infantis, juvenis e alguns romances de autores de renome internacional a quem por ali passe com vontade de ler um pouco sentado num banco de jardim.

Mas ainda falta arranjar algumas ruas e essencialmente requalificar a zona ribeirinha do porto do Pidjiguiti. Bissau merece que a marginal volte a ter estrada sem camiões estacionados, com alcatrão, com passeios, palmeiras bem tratadas e um rio devidamente desassoreado que deixe de ser uma lixeira a céu aberto. O casario do bairro de Bissau Velho, embora em avançado estado de degradação, ganhará encanto redobrado e esta parte outrora nobre da cidade, voltará a ser um espaço de lazer de beleza superior.

O estuário do Geba, que funciona como porta marítima da cidade passará também a ter um papel de relevo para quem vive em Bissau, nos dias que correm, de costas voltadas para o rio.

Apesar do muito que ainda está por fazer, Bissau reveste-se de um encanto que convida a que nos demoremos por lá para além de umas horas e que não a usemos apenas como ponto de passagem para as bonitas ilhas do arquipélago dos Bijagós.

Bissau, apesar de pequena, vale mesmo a pena.


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