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O CERAMISTA NAS PALAVRAS EM BRASA

 As brasas dormem, sussurradas pelo imaginar do que poderá ter sido uma lareira nocturna, das que espreitam por detrás de um gradeamento que policia o salto aventureiro de faúlhas e das sobras dos crepitares eufóricos quando o lume os transmuta.
À volta da mesa, redonda, o pó branco e grés reúnem-se esparramados no chão, esmagados por passos dados descalços, no cimento tijoleirado são exibidas as marcas do que parecem ser bailados de fantasmas, com os seus etéreos pés, sem direcção que se apresente viável apesar de se conhecerem todos os caminhos.
Na parede olham-me miríades de vidrados, cobaltos e ruborizados ornamentos sucumbiram ao vazio do calor que verga, cimenta, endeusa e apascenta. Esta vida, por vezes, faz-se de uma madrugada lenta, o eterno despertar adiado para que nunca se saiba acordado.
Quando o chá arrefece e deixa pairar o aroma da terra que pariu a folhagem, sobram as palavras em cavaqueira com uma qualquer miragem, porque artesanalmente já ninguém se abraça, nem com o braço firme, musculado, de um ofício que o tempo amassa.
Pela janela semi-fechada por semi-aberta, vislumbrei mais umas bancadas e aparatos com trejeitos de barro, cal, escorridos tomados pelas sobras que nunca viram forno.
A terra é de quem a ama, por isso quem dela se alimenta e veste, condenado está ao amor duradouro da natureza, aquela que ao vento reza, para nos cuidar sob a tenda erigida onde habitamos, vestidos de humanos, sem nos caber na algibeira o caminho curto e empedrado para as paisagens nas passagens a caminho do que se ama, na terra.
Escondi-me quando o vi mexer sob o avental, virou-se no sofá talvez por uma constância de movimentos que liberte o corpo para descanso mais prolongado. O aviso de bateria do computador pisca, fastidiosamente, como um farol azul no aviso lânguido de que a música está a tocar apenas no ouvido interno do ceramista. Quando voltei, mais tarde, já sem necessidade de me esconder ao abrigo que estava da noite curta do Inverno, ajoelhei-me sobre umas hortênsias alvas e espreitei por entre os bocados menos sujos com o pó branco da cerâmica e vislumbrei-o, a arte nobre de fazer com a mão aquilo que foi chão, moldar, levantar, lapidar, vidrar e amar, o barro, a argila, o esvoaço leve de uma peça pronta a cozer. E ali, a olhar para o vazio de uma peça virgem por lavrar, à luz da lareira que afogueava num raku teimoso contra os elementos que se rendem ao fogo, o ceramista escreveu incontáveis linhas de palavras nas cântaras, um livro de metamorfoses moldadas cuja escrita almejou apenas desaparecer sob a serradura ardente, num sentimento incandescente.
Há palavras destinadas apenas a serem lidas pelas nuvens quando o fumo ascende e a vida, escorrida a golpes de chuva, se desprende do firmamento e nos vem cair no colo, sem qualquer lamento.

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