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CAMPELOS – ALDEIA DO MEU CORAÇÃO

Em janeiro de dois mil e treze escrevi este texto que hoje partilho.

O que escrever sobre um lugar que nos faz bem a maior parte do tempo?!

Eis, que passados quatro meses, me encontro a meio caminho desta nova jornada com que fui brindada profissionalmente mas que, sem dúvida, me tem vindo a transformar, mais do que inicialmente supus, em termos pessoais.

Lugar esse…

Que nos devolve a paz interior há muito esquecida!

Que nos devolve a serenidade há muito dissipada pelo constante estado de ansiedade!

Que nos faz realmente concretizar o que nos haviam dito ser impossível!

Que nos dá força para não cair e nos faz querer voar mais alto!

Ao contrário de tudo o que seria previsível, estou num local que não conhecia e que me faz sentir que regressei a casa.

Talvez esta seja a prova de que os lugares mágicos existem.

Apenas se encontram distantes e há que deixar que sejam eles a vir ao nosso encontro.

Passei dois dias a chorar copiosamente porque não queria vir e duas noites em claro com dores de barriga porque não queria ficar.

Convenci-me de que desistir à partida seria a melhor opção.

Tinha a certeza de que iria apenas para anular a minha colocação e voltar à monotonia confortável de dias infindáveis passados em pijama, e que um após outro, nos fazem perder a noção entre o dia e a noite, pois ora se dorme durante a tarde tamanha a frustração de nada ter para edificar, ora se come às quatro da manhã porque precisamos de nos acalmar interiormente.

Não poderia estar mais enganada ou ter recebido melhor presente.

Uma após outra, as aventuras têm-se desenrolado levando-me a observar pormenores em que anteriormente não reparava e com eles amadurecer, creio, um lado meu que desconhecia.

Ao segundo dia de aqui estar, ia sendo atropelada por um trator carregado de abóboras que não parou na passadeira onde eu me encontrava já a meio caminho de chegar ao passeio do outro lado da estrada.

Inicialmente, fiquei admirada pelo sucedido uma vez que me apanhou de surpresa.

Rapidamente recomposta, desatei a rir enquanto, ainda parada na passadeira, olhei para o trator até o perder de vista incrédula que não tivesse parado.

Seria ironicamente perfeito, se é que algo se pode realmente denominar assim, que depois de sobreviver na capital, onde impera o stress e a correria, fosse chocar de frente com um veículo que até então não fez de todo parte do meu quotidiano.

De referir que passei essa primeira semana a comer broas e doce de abóbora que gentilmente me foram sendo oferecidos.

Esse seria apenas o primeiro de muitos outros deliciosos incidentes rurais com que me deparei desde então.

Um belo dia ia eu a sair de casa, no decorrer da segunda semana da minha estadia por este lugar, quando um homem que nunca havia visto me atirou um sonoro “bom dia” seguido de um enorme sorriso.

Obviamente não retribui pois não o conhecia de lado nenhum mas ainda assim apreciei o gesto.

Dizerem-nos “bom dia” de cara alegre só pode significar que algo de bom está por vir.

Estes bons dias deram oportunidade a algumas boas tardes uma vez que sempre que me vê e ainda que não me conheça insiste em me cumprimentar sorridente.

Passei a retribuir tamanha a sua persistência.

Ao fim de um mês, numa manhã como tantas outras, abri os olhos e levantei-me para mais um dia de trabalho.

Senti que havia qualquer coisa ácida no ar.

Não soube logo precisar o que era, mas uma vez que não me cheirava a gás descontraí e supus que tinha de comprar um aromatizante um pouco mais forte para disfarçar o facto de, apesar de limpa, uma casa velha e húmida ter sempre algo com que nos brindar.

Abri a porta e de imediato fui invadida por aquele cheiro nada familiar mas depressa identificável a estrume.

Isso mesmo, cheirava a estrume na aldeia!

Os campos encontravam-se lavrados e estrumados.

Impossível não desatar a rir sozinha logo ali!

É nestas altura que nos damos conta que algo de muito importante na vida com certeza nos ultrapassa.

As assimetrias entre lugares e as suas características próprias passam-nos totalmente ao lado, a menos que neles permaneçamos tempo suficiente para deles desfrutarmos de forma integral.

Algures no caminho que a pé percorro existe uma bica onde é possível ir buscar água.

Desde que o tempo esfriou que não vejo o senhor já muito idoso que todas as manhãs lá se encontrava, sentado no banco de rua, enquanto pacientemente aguardava que da bica a água enchesse os seus garrafões.

Eram sempre quatro e à minha passagem costumava dar-me também os bons dias.

Passei a retribuir o cumprimento.

Desde que o tempo mudou e o frio me gela os ossos que não o vejo.

Aguardo com alguma curiosidade pela chegada do tempo quente para que possa voltar a vê-lo e retomar a rotina a que me habituei nos primeiros dias.

Não faço ideia porquê mas é algo que me conforta.

Olhar para aquele banco vazio não é a mesma coisa.

Ver aquela bica correr para lado nenhum parece-me um desperdício.

E é assim o lugar que neste momento me acolhe com tudo o que de bom e de diferente tem para me oferecer.

Também tem o seu lado menos bom.

É visível que algumas pessoas vivem com dificuldades.

Pudesse eu ajudá-las a todas.

E sim, é este lugar que me faz escrever como se a minha vida dependesse disso.

Não sei para onde me conduz mas estou a gostar, para já, do rumo a que me leva.

Se ao menos eu soubesse qual…

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