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CAMPELOS – OITO MESES DE AVENTURA

Em julho de dois mil e treze escrevi este texto que hoje partilho.

“O que escrever sobre um lugar que nos faz bem a maior parte do tempo?!…”

Começava assim o texto escrito há alguns meses quando me encontrava a meio caminho desta súbita jornada.

Hoje, tive de dizer adeus a esse lugar.

Não um adeus definitivo, mas muito provavelmente um até já indeterminado.

Arrumei tudo! Todos os meus pertences foram devidamente acondicionados na mala de viagem e em sacos que ao longo dos últimos oito meses me têm acompanhado nos trajetos de fim de semana.

Desci as escadas, não sem antes olhar uma última vez para trás, fazendo um compasso de espera e respirando fundo numa tentativa de absorver ao máximo as últimas imagens daquela casa.

Despedi-me da senhora a quem aluguei a casa com um sorriso e um obrigada. Surpreendeu-me entregando-me um saquinho de papel com uma fitinha azul.
Abri o saco admirada! Não esperava…

Lá dentro encontravam-se umas pegas e um pano de cozinha debruado a croché. Disse-me que apesar das dores nas costas insiste em fazê-los mesmo deitada para que o tempo lhe custe menos a passar. São lindos e não contava com tal oferta, ainda para mais, repleta de tanto significado.

Ao ver-me sair e entrar no meu carro mostrou-se espantada. “Agora já conduz!”. Respondi que sim, que tinha aproveitado o tempo ali passado para ter aulas. Sorriu e acenou com uma doçura própria que apenas quem já passou a fasquia dos oitenta consegue transmitir. Detentora de uma cara redonda e uns olhos castanhos calmos é muito alta e forte e na sua presença sinto-me ainda mais pequena que o meu pouco mais de metro e meio.

Cheirava a pó de talco fazendo-me lembrar de outras senhoras de oitenta anos detentoras do mesmo cheiro e do mesmo sorriso…

Já dentro do carro engrenei a primeira e não mais olhei para trás seguindo o caminho de regresso a casa.

Viver numa casa desconhecida e tão grande constituiu desde o início um desafio.

Sempre que me esquecia de alguma coisa no andar de cima ou no andar de baixo lá ia eu meio baralhada escada acima escada abaixo em busca do que precisava.

Agora já habituada, irei com certeza sentir falta do exercício físico forçado. As primeiras semanas foram passadas com algumas dores de pernas e alguma desorientação numa tentativa de perceber como me organizar no sentido de encurtar as viagens sucessivas rumo à escadaria.
Jamais esquecerei o facto de estar numa casa que não a minha rodeada de fotos de gente desconhecida e em que quase nada era meu.

Tive tempo para ver as fotos e as porcelanas espalhadas pelos móveis tentando perceber quem eram aquelas pessoas.

Dispor apenas de quatro canais de televisão e estar num lugar onde a rede de internet era praticamente nula pode ser um grande aborrecimento ou uma enorme bênção.

Vivi durante oito meses numa casa enorme e nem por um minuto me senti sozinha embora a maior parte das vezes não estivesse lá mais ninguém.

Há algo de maravilhoso no tempo passado connosco próprios que nos permite conhecermo-nos através do silêncio partilhado apenas com a nossa existência.

Ao longo de oito meses colecionei memórias futuras às quais hei de recorrer sempre que delas precise. E há tanto para recordar…

Recordo o primeiro dia em que lá entrei e tive a sensação que de alguma forma tinha regressado a casa, a uma casa há muito não visitada mas jamais esquecida.

Recordo o rádio meio antigo em que ouvia música com alguma estática e que me acompanhou na maioria das minhas refeições na cozinha.

Recordo os banhos pouco quentes que tomei debaixo de um chuveiro com pouca pressão.
Recordo particularmente o banho de água gelada que tomei em pleno inverno quando, sem que o previsse, a bilha de gás chegou ao fim. Para além de estar coberta de espuma, seria necessário sair de casa para a poder trocar e a hora já ia avançada. Definitivamente, água fria foi a decisão!

Recordo noites em que dormi profundamente numa cama que não era a minha e dos sonhos que nela chegaram até mim.

Recordo semanas de tanto frio em que deitar-me de camisola interior, pijama, robe, dois pares de meias e gorro era a única forma de conseguir adormecer.

Recordo as caminhadas a pé que fiz continuamente de um lado para o outro e que sempre me levaram onde precisava de estar.

Recordo os bons dias dados a cada vez mais pessoas que não conhecia mas que teimavam em me cumprimentar e que, cordialmente, fui retribuindo com crescente entusiasmo e à vontade.

Recordo o único dia em que houve trânsito na rua principal devido ao funeral de um filho da terra. Rapaz novo, deixou chocados todos quantos o conheciam, o que não era o meu caso. Motivo suficiente para encher o passeio de carros mal estacionados e que condicionaram o trânsito, palavra que por si só não é condicente com este lugar. Ter um funeral repleto de gente só pode ser bom sinal!

Recordo o senhor idoso que ia buscar água à bica todos os dias, até mesmo depois de recentemente ter sido afixada a placa “Água não controlada”. Tinha uns olhos muito grandes e muito azuis que passaram a esperar que eu dissesse “bom dia” para retribuir de seguida curvado pelo peso da idade e dos garrafões. Apesar dos passos lentos, todos os dias chegava ao seu destino persistindo a vontade de aceder à rotina instaurada pela força da necessidade.
Recordo o facto de me estar já a habituar a que alguém parasse o carro perto de mim oferecendo-me boleia. Quem é que no seu perfeito juízo consegue não pensar em correr na direção oposta à do carro que para perto de nós nos dias que correm?!

Definitivamente, vou sentir falta das apitadelas inesperadas do meu instrutor quando ao conduzir me buzinava caso me visse na rua e do motorista do autocarro escolar que acenava com a mão para me cumprimentar, várias vezes ao dia, sempre que me via.

Recordo a sopa feita em comunidade a propósito de uma festa onde a maioria dos vegetais foram pedidos à terra que os guardava desde que haviam sido semeados pelos miúdos na horta da escola. Os mesmos miúdos com os quais dei um banho de mangueira não só aos vegetais aguardados pela panela, mas a todos nós porque o jeito para trabalhar com um alguidar e a pressão acertada da água custaram a ser descobertos por mim.

Nesse dia sujamos as mãos numa cozinha improvisada com uma mesa, uma Bimby e um brilho nos olhos proveniente da antecipação do que estava por vir. Carregamos mesas e cadeiras, dispusemos talheres e loiça de plástico, distribuímos guardanapos que teimavam em não permanecer no seu lugar, dançando enquanto fugiam das nossas mãos, e por fim, comemos até cair para o lado pois as defesas não nos permitiram ter a força necessária para recusar tal satisfação.

Recordo ainda tudo o que aprendi.

Aprendi a conduzir, segundo diz o meu instrutor cujas aulas frequentei até esta semana. Estive lá mais tempo que o suposto, mas assim teve de ser.

Aprendi a gostar de cozinhar porque tive de passar as tardes de domingo a fazê-lo. Só Deus sabe como detesto todas as atividades domésticas e afins!
Aprendi que chegarmos cinco minutos atrasados pode não ser considerado falta de profissionalismo e faz maravilhas pelo nosso batimento cardíaco num lugar onde tudo se faz a seu tempo e com tempo.

E recordo já as saudades que sei irei ter deste lugar, das pessoas que dele fazem parte e da pessoa que fui aqui.

Este lugar está vivo, respira e faz-nos acordar para o contraste vibrante das cores, do cinzento do asfalto ao verde dos campos, passando pelo arco-íris de casas; para o cheiro floral da vegetação e acre do estrume; para o som dos miados dos gatos sentados nos muros que nos observam enquanto passamos por eles; para a oferta de uma fatia de qualquer coisa e consequente aceitação educada dos alimentos oferecidos como se de um presente estrondoso se tratasse; e, por último, para o cumprimento fácil acompanhado de um rasgado sorriso de quem nos vê na rua e para sempre para nos puxar para um beijo inesperado, um aperto de braço distraído ou um abraço tão apertado que duvidamos se a sensação avassaladora provém do contacto físico desinteressado ou se na realidade fomos, momentaneamente, atropelados e simplesmente não demos conta do sucedido.

Sempre soube que tanto nos apaixonamos por pessoas como por lugares mas este apanhou-me completamente desprevenida.

Sem dúvida a experiência mais parecida com uma viagem no tempo.

Ao passado.

Alucinante, imprevista e intrigante.

Como é que um lugar tão pequeno e com tão poucos habitantes pode revelar-se tão imenso e tão cheio de vida?!
A humildade refletida nos olhos educados de quem nos trata com reverência só porque, supostamente, nos foi atribuído um título ao sermos detentores de um estatuto inexistente ainda que o mesmo tenha sido conquistado com muitos anos de esforço e afincada dedicação.

A tomada de consciência da dimensão reduzida da nossa própria existência comparativamente a quem já viveu mais que o dobro de nós e encerra em si uma sabedoria popular, estando sempre disposto a partilhá-la a propósito de uma qualquer conversa, fazendo de nós aprendizes de circunstância.

As mãos estendidas de quem perguntava “Precisa de alguma coisa…”, sendo que a resposta foi sempre negativa porque aquilo que eu precisava me foi dado no instante em que cá cheguei sem que nem eu mesma o soubesse.

Hoje vim embora, trouxe comigo memórias e deixei lá uma parte de mim!

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