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A MEDIDA DA GRANDEZA

Conversando com um amigo sobre o existencialismo,  ouvi-o afirmar que o assunto está desactualizado, que hoje não faz sentido ser existencialista ou defender o existencialismo. Disse-me ele que as preocupações de hoje são outras,  que ninguém se ocupa com as questões da existência ou do sentido da existência.

Fiquei a pensar no assunto.
Se, aqui e agora, começar a falar deste tema que acolhimento terão as minhas palavras,  caso o meu amigo tenha razão e o interesse por este assunto estiver mesmo fora de moda?  O que me dizem? Faz sentido falarmos sobre a existência  e o sentido da existência, ou é melhor irmos embora tratar de coisas práticas?
Seja qual for,  no entanto,  a resposta,  tenho um segredo a revelar: todos nós, que por aqui andamos, começamos a existir  um certo dia e terminaremos,  daqui a mais ou menos tempo, o nosso percurso na terra. Esteja ou não na moda tratar este tema,  discutir ideias e opções,  esta é uma verdade indiscutível.
Curiosamente a evidência absoluta de que somos,  antes de mais,  seres que existem e que por isso pensam, ou vice-versa,  foi descoberta por Descartes no século XVII. Todos conhecem a célebre fórmula “Penso, logo existo.”,  não é verdade?  Aí têm uma fórmula filosófica irrefutável (nem o seu criador conseguiu negá -la,  por mais esforços que tivesse feito) e até hoje ela permanece como a única evidência absoluta e total da história do pensamento humano.
Será um erro considerar Descartes um existencialista, no sentido que veio a ser atribuído à palavra, desde os finais do século XIX e durante uma parte significativa do século XX? Não era a existência que ele queria propriamente tratar no seu percurso filosófico,  ele quis,  isso sim,  encontrar e justificar uma verdade que pudesse ser o ponto de partida do conhecimento certo e absoluto.  Encontrou apenas esta e encontrou -a na primeira pessoa.  Assim:  Eu,  Descartes,  duvido de muitas coisas,  de quase tudo,  pode, dizer-se;  mas,  de uma verdade estou absolutamente certo – esta,  pela qual me defino como um ser que pensa, mesmo que sejam erros aquilo que penso,  e que para pensar tenho que existir,  mesmo que nunca saiba exactamente quem sou.
Ora,  do alto da nossa alegada superioridade de seres humanos de um século muito avançado, muito à frente de Descartes e do seu tempo,  o certo é que continuamos sem saber muito bem quem somos,  estes que por cá vamos andando,  mais ou menos despertos,  mais ou menos adormecidos.
Serão  necessários grandes gestos para fazerem de alguém um “grande homem “? Ou o “grande homem” é,  afinal, aquele que, na sombra, realiza pequenas acções, sem alarde , justificando o privilégio de existir?
Há dias fui confrontada com um pequeno momento e protagonizei um pequeno gesto.
Indo de carro, vi, a poucos metros de mim, um animal a debater – se no meio da estrada. Rodeei-o cuidadosamente e percebi tratar-se de um galo fugido, decerto,  de uma casa próxima e apanhado por um condutor incauto ou apressado. A minha consciência alertou-me para a necessidade de fazer alguma coisa: parei, voltei atrás por entre uma nuvem de penas pretas e brancas e aproximei – me do animal.  Já não se debatia. Tinha os olhos fechados, a cabeça encostada ao chão porque, entretanto, morrera.
Peguei – lhe pelas patas ainda mornas, arrastei – o para a valeta onde o depositei numa cama de erva e fui avisar os donos presumíveis.  Senti-me estranha,  incoerente no meu gesto. Em simultâneo, acometeram – me sentimentos contraditórios.
Não salvei o animal da morte. E se o tivesse salvado?  Sem dúvida,  entregá -lo – ia a outra morte, também ela violenta: porque os frangos são criados para servirem  de alimento aos humanos. Mas deveria tê -lo deixado ali, no meio da estrada, para ser reduzido, aos poucos,  a uma massa informe, aos poucos,  ela também desvanecido num mero borrão,  ele também lavado pela chuva em poucos dias?
E eu?  Acaso já renunciei,  de todo, a comer carne, mesmo não sendo eu a sacrificar os animais com a minha faca – extraordinário álibi ?
Andei uns dias perplexa com estes e outros pensamentos.  E ainda ando.
Se houve grandeza no meu pequeno gesto de dar àquela vítima  uma forma de sepultura, que consequências advirão daí para o mundo, para a humanidade, para os seres vivos? Mudou alguma coisa? Foi acrescentado valor ao homem e às outras criaturas?
Creio que,  no cômputo geral, uma pequeníssima diferença foi estabelecida naquela hora. E o registo secreto desses gestos de nada teve, ali, um acrescentamento.
Ora eu creio que são,  exactamente,  estas ignotas e raramente descritas atitudes e acções que evidenciam a especificidade do valor humano e possibilitam que continuemos a ter fé na redenção do sentido da existência .  E regresso a Descartes.
No século XVII ele pôde absorver todo o conhecimento possível,  foi um grande sábio e destaca-se hoje entre os maiores. E contudo, o seu mérito reside na centelha de luz que aquela verdade acende enunciando uma certeza absoluta: Eu existo e sei que existo porque penso e nada terá poder para negar esta evidência. Tudo o resto perdeu actualidade, tudo o resto foi negado pelos sábios seguintes; mas o “penso, logo existo” mesmo que tudo o que pensa esteja errado e que nunca saiba quem é ou o que é,   de facto, este que existe, perdura como uma eterna verdade. Inútil,  decerto, mas absoluta e eterna.
Por esta razão (e  talvez por muitas outras que seria fastidioso enumerar ) continuo a considerar de primeiro plano reflectir sobre o que faz de nós existentes,  por oposição ou em complemento, do fluxo vital que nos liga aos outros viventes. Ao galo a que dei sepultura e aconchego na morte, por exemplo.

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