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PARA A MARCHA E EM FORÇA!

 No passado 7 de abril, a ANIMAL promoveu mais uma Marcha Anual pelos Direitos dos Animais. Nela participaram associações, partidos políticos, grupos informais de cidadãos, todos em entreajuda pelo bem comum. Num dia de mau tempo previsto, pessoas várias saíram das suas vidas regulares e juntaram-se para defender aquilo em que acreditam.

Foi a primeira vez que participei. Sou ligada à causa mas, por uma razão ou por outra, não tem sido possível participar. Mas desta vez os astros, mesmo em dia de tempestade, conjugaram-se nesse sentido. Pessoas diversas, de percursos variados, profissões e vidas múltiplas, coexistiram num objectivo comum. Existe na pluralidade um factor interessante, que é o facto de, apesar do que nos divide, há aquilo, que é bem maior, que é o que nos une. Havia veganos, vegetarianos, voluntários de ordens várias, profissionais ou apenas simpatizantes.

Há algum incómodo público na realização de marchas e manifestações. Há os que se queixam do ritmo lento do andamento. Há o trânsito que pára. Há aqueles que saem às portas das lojas e janelas das casas para ver a banda passar, como canta Chico Buarque. Há os que param os seus andamentos para identificar a causa e tirar fotos para mostrar aos amigos. Mas depois há aqueles a quem chegou a mensagem, e que, usufruindo desse acordar para determinado assunto, talvez comecem a questionar-se nas suas atitudes e, eventualmente devagarinho, mas em crescendo, as coisas mudem.

Há temas que se destacam, vociferados em coro: a tourada, a experimentação científica, a esterilização, o abate, o mau trato a animais, a utilização de animais em circo, a alimentação vegana ou vegetariana. Temas complexos, que têm a capacidade de gerar polémica. Mas não é essa a melhor forma de chamar à discussão?

Parece-me claro que muitas vezes temos preguiça de nos questionarmos. Pecado meu, confesso, que em miúda o que mais gostava no circo eram os animais. Achava os palhaços enfadonhos, apreciava os equilibristas e malabaristas, mas o delírio acontecia com a entrada dos animais. E porquê? Porque não tinha noção do que isso implicava, e também ninguém mo explicou. Foi preciso crescer para tomar conhecimento de certas coisas, e assim reavaliar o que pensava. Há coisas em que ainda não tive essa coragem ou essa clareza de espírito, mas quem sabe chego lá um dia…

Estas acções, e outras de voluntariado, permitem muitas vezes chegar a pessoas que até compartilham do interesse, mas não foram criadas ou não circulam em meios em que os possam desenvolver. Têm motivação, têm capacidade de fazer algo, mas não sabem por onde começar, a quem se dirigir, o que fazer, concretamente. E há tantas formas de ajudar: trabalhar numa associação, visitar escolas e falar da causa, formar grupos de visita a associações, participar em campanhas de recolha de ração nos supermercados, promover doação em valores ou géneros entre os colegas nos locais de trabalho ou escolas. É preciso é querer.

 Há um conceito a que ousei chamar Sensibilidade Útil. Isto não é senão o fazer evoluir de um estado, em que vemos um animal abandonado e proclamamos: – coitadinho, coitadinho, para um estado em que não se resolvem todos os problemas do mundo, mas resolvem-se alguns. Dizem que não é para todos. Talvez não seja, como em vários assuntos que nos fazem sofrer, há quem opte por fazer de conta que não vê. Ou que ache que não é capaz. É-se capaz, sim, digo eu que a primeira vez que fui a um canil, e a bem ver a segunda e a terceira, saí de lá a chorar, e chorei no caminho e em casa. Até que me senti ridícula, não por chorar, mas por nada resolver com esse choro. E detesto, mesmo, sentir-me ridícula.

Há soluções intermédias, que nos ajudam a aprender a gerir esse desconforto, e a ganhar coragem para voos maiores. O apadrinhamento, por exemplo. Só há cerca de 10 anos conheci o conceito, não sei se conhecem. Se não podem ter um animal em casa, podem sempre apadrinhar um, o que permite visitá-lo na associação, passear com ele, socializá-lo, contribuindo com um pequeno montante mensal que ajuda na sua alimentação. Quem sabe as suas condições de vida não mudam e arranja um amigo para a vida?

E depois há o estigma social, os que dizem que o meio é propício às pessoas com dificuldades mentais ou de interação humana, e que aí se refugiam numa ligação em que não são questionados ou contrariados pelos animais. Tenho alguma dificuldade em perceber isso. Por um lado, uma grande parte das pessoas com quem me tenho cruzado nestes andamentos têm formação universitária diversa, para além de terem vidas perfeitamente integradas profissional e socialmente.  Por outro lado, o voluntariado em geral pressupõe um choque constante com dificuldades, e uma resiliência, uma resolução da frustração. Ser voluntário não é, no caso, correr com os cães num prado verdejante. É lidar com maus tratos, com animais em pânico, com dinheiros que não há, com casos intermináveis de abandonos.

Vendo bem, talvez tenham, afinal, alguma razão em chamar malucos a este pessoal. Que gente no seu estado normal encararia todas estas contrariedades, deixando os seus muitas vezes em casa, e ainda daria a cara em eventos públicos e causas difíceis? Insanos, loucos, confirma-se. “O amor é louco, não façam pouco desta loucura…” já cantava Carlos Ramos…

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