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NÃO PEÇAS A QUEM PEDIU…

 …nem sirvas a quem serviu. Adágios há muitos, mas este reflecte o que a nossa índole tem de amargo, no amargor dos actos e no que provocam de amargura entre as almas inocentes, essas que, mal não usando, mal não cuidam. Os burocratas, amiúde pagos para nos complicarem a vida, amanhecem tarde em manhãs cinzentas, pagos pelo nosso bolso de contribuintes, enredados em manha e sapiência, em números, em normas que impõem sobre a sociedade e que lhes caem no colo. Somos educados para competir, para pedir o quanto não temos direito e servir a quem a sorte nos colocou nos altares do quotidiano. Submissos, calamos e inventamos perdões para a nossa impotência, cobardes a suplicar pelo elogio que não merecemos. Pedir é um gesto de coragem, se não se revestir dos adornos da súplica, e servir é um desígnio nobre, se honrarmos aqueles que nos retribuem em favor de uma vida digna. E resignamos a invocar a sina, presos aos grilhões que os espertos nos colocam ou à ignorância que nos cabe, treinados para calar, para inventar orações, ajoelhados, pouco humanos com trela e açaime. No lodaçal, veneramos, pedimos, servimos enquanto os calendários nos avisam do pagamento das dívidas, e seguimos o andor alumiando os passos sem candeia, apenas com o olhar de quem, nada podendo ver, julga ver para além da procissão. Tão estranho este nosso desencontro com a História, com o mundo e com o nome que outrem assinalou na nossa biografia. O grito, se acontece, a tempestade, a fúria, o silêncio que dói, ficam plantados à porta, como se a existência seja uma sombra e as palavras o eco que não chega. O mais é esquecimento, de quem pediu e de quem serviu, arre que é preciso “subir na vida”, ora então que quem tem unhas toca guitarra e o seguro morreu de velho, não vá o porteiro do palácio tomar conta do condomínio. O espectáculo tem de continuar, vivam os burocratas e a sua prole, aleluia, o partido vencerá, a vida são dois dias e para a miséria há peditórios. Enquanto isto, os nossos impostos pagam festarolas e, se der, dois pensos rápidos na farmácia e o manual de bom comportamento na escola. Eu peço, e sirvo de boa e livre vontade, mas ou há moral ou comem todos. E tu, se a moral te não estrangula, ouve o vento, o canto dos pássaros no jardim, a voz da chuva, que as demais melodias são fruto da imaginação. E, se um dia te estenderem a mão para uma esmola, ou lavarem o prato onde comes, não esqueças que a vida tem destas coisas de entronizar o pobre e de eleger o serviçal. É da nossa condição, não há que estranhar.


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