Cultura, Literatura e Filosofia

LA CASA DE PAPEL

A máscara de Dalí que os assaltantes usam na série não é mera coincidência

Quem diria que 73 anos após o final da II Guerra Mundial o refrão de uma velha música popular italiana, de autoria anónima, intitulada“Bella, ciao!”, cantada pelos resistentes antifascistas italianos durante aquele conflito, passaria a ser cantarolado por milhões de pessoas por todo o mundo? A popularidade súbita dessa música deve-se ao facto de se ter tornado no hino da série televisiva espanhola “La Casa de Papel”, cantado por duas das suas mais icónicas personagens, o “Professor” e “Berlim”. A série televisiva tornou-se num verdadeiro fenómeno de popularidade entre os telespectadores de todo o mundo que, avidamente, devoraram episódio atrás de episódio do enredo em que um grupo de assaltantes perpetra um dos mais ousados e bem sucedidos assaltos da História.

Mas, para além do carácter viciante desse enredo, há um forte pendor simbólico em “La Casa de Papel” que nos permite afirmar que há uma mensagem subjacente, de pendor fortemente politizado, e que visa claramente o capitalismo selvagem e o império do sistema financeiro internacional, mais concretamente do Banco Central Europeu e dos bancos centrais nacionais. Para alguns sectores da sociedade, o BCE e os bancos centrais nacionais, foram os responsáveis pelas políticas de austeridade draconiana impostas a alguns países europeus que, para muitos, afectaram os mais fracos e enriqueceram os mais poderosos e que deu origem a protestos violentos nalguns países da Europa com o clímax desse protesto a ser atingido aquando da inauguração da faraónica sede do BCE em Frankfurt, em Março de 2015.

Quando, no último episódio da segunda temporada de “La Casa de Papel”, o “Professor”, personagem mentora do assalto, converte à sua causa a inspectora Murillo, responsável pela operação policial de resposta ao assalto à Casa da Moeda em Madrid, fá-lo precisamente recorrendo ao argumento do papel perverso do BCE na economia europeia, na injeção maciça de euros no sistema bancário europeu, o qual beneficiou os mais ricos em detrimento dos mais pobres. Pelo contrário, e segundo o “Professor”, os quase mil milhões de euros, produto do engenhoso assalto à Casa da Moeda espanhola perpetrado por um bando de “desgraçados anónimos” sem “eira nem beira” e sem nome, representa uma injeção de capital na economia real que beneficiaria os mais fracos.

Para além do simbolismo do alvo do assalto, a Casa da Moeda, local onde se imprimem as notas de euro, do anonimato dos assaltantes apenas identificados pelo nome de cidades capitais de vários países do mundo, os assaltantes de “La Casa de Papel” escondem o rosto por detrás de uma máscara de Salvador Dali, adereço que faz lembrar a célebre máscara de Guy Fawkes, soldado inglês do Século XVI que lutou no lado espanhol na Guerra dos Oitenta Anos e que participou na “Conspiração da Pólvora” para matar o rei protestante Jaime I, e que é usada actualmente pelos activistas do grupo internacional “Anonymous” que, entre outras causas, tem desenvolvido ações agressivas contra o sistema financeiro internacional, tendo mesmo declarado guerra ao sistema de bancos centrais e ao capitalismo selvagem imposto pelas correntes neoliberais que dominam o panorama político internacional.

Tal como a inspectora Murillo, o telespectador acaba envolvido com os assaltantes, torcendo ferverosamente pelo sucesso do assalto e pela vitória final dos mais fracos sobre os poderosos deste mundo.

E embalados por “Bella Ciao” sonhamos com um mundo mais justo…

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