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A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO TERCEIRO

Primeiro o dia.

Ei-lo como que disposta toalha em fértil solo, respirando, transpirando seu labor para ainda não suado corpo que apesar de vertical, horizontal se dimensiona. Não o sabendo ainda, alguém o encaminharia para profunda de absorção do real.

Chegada a um desconhecido mundo. Não que ali tudo se resumisse, mas em poucos parágrafos desponta a súmula do que se vive, em geográfico espaço delimitado, sem muro algum, por afetos que retratados são no decorrer do tempo que não permite o calçar de passeios que, de forma lateral, interdite o erro.

Placa me é apresentada. Nada mais que outras, mas singular, óbvio é o que absorvido vai para o interior de veículo que a velocidade não regulada se desloca. Certo que dentro, acomodado, soldo algum lhe seria cobrado pelo social agregar que se perfilava, sem revista em relógio acionada e que em horizonte se significava. Não obstante o casamento entre consoantes e vogais, após deambular por cinzento tapete, nada fazia prever umbilical relação que, mesmo de segundo parto testemunhado, até corrente dia se prolongasse.

Percurso que hoje parte integrante faz do que repito para comigo em pensamento e na prática que este me permite. Desproporcionais doses de felicidade transporto-as em alvéolos que, resguardadas de afetivas temperaturas, nem sempre de cachecol se munem. Não que indisponíveis, somente tempo algum para pesquisa de indumentária, para o que despido de estação se caracteriza.

Silêncio doseado em singular época, onde rumando se vai na catadupa de dias que se seguirão. Horas às quais entregar-me-ei, famélico não de em outro local permanecer. Situacional se encontra estado meu, em ponte para uma continuidade que definirá o que o pensamento e descoladas artérias desenharão dia idos, que no caminho já pisando os vou.

Deambulo por temporal linha. Migalhas esquecidas no integral que fermento moldado em si constitui.

Assim me permito ser habitado. Habitando-a.

Compartimentos arquitetados, sem molde anteriormente estudado, em qualquer academia, edificando um nós pela prática existencial que se solidifica pela vontade e sinceridade na ação e no discurso.

Aldeia esta que se estende através de seus braços, que mais não são do que gente. Pessoas que em local hora, momento aquele, em pequena azáfama se revêm.

Em pequena mesa exterior descanso o que em viagem submeti ao desconhecido e à incógnita a que tal percurso incorpora.

Avançada idade, diziam uns, outros colaborando com a ordem natural das coisas, da vida, e assumindo a finitude de pegada nossa. Contado foi, na voz do próprio, vivacidade muita, desengelhando rugas suas, não exteriores, sim aquelas que serviam de arquivo, na memória que pertencia já ao espaço para cá do limite que se conhecia e facilitando ia um apontar de dedo, peripécias em catadupa, embaladas por um desenhado sorriso, não requerendo adiposa explicação. Inexistentes as interrogações por quem de ouvidos em estendal alongados, sujeitos ao informativo redemoinho de vivências.

Em poucas palavras cabia a imensidão de uma só aldeia.

Disposto em mesa, avulso de grupo algum, rodeavam-me humanas dimensões de simples particularidades. Nutriam os raios que interagiam as circunferências mal-amanhadas. A exigência era nenhuma. Ido seria o dia que para lá da sinceridade e amizade, em minuta própria, exigisse o que nem concebidos deuses lapidaram em dura pedra.

Sol que se espraiava na densidade das peles que ansiavam bravura por parte de agente arejado ante homens como obstáculos a intencionada passagem. Não estes o atrito, certo o é. Ali bebiam da fonte do mútuo conhecimento, vendo aprazíveis ramos como impulsionadores da concretização de um nós, em nós, que criava.

Entre as pessoas presentes, ainda soluçando perante a incógnita de semelhantes, a voz a mim direcionada foi. Rotação de corpo, não sujeitando a cadeira que me sustentava a força maior que lhe impusesse incomodidades. Não sabendo o que responder a desconhecida chamada, esbocei um sorriso que ainda hoje, como que de fora me observasse, ainda recordo. Talvez a acentuação de um abraço que dado me fora assim que em território aquele me dispus.

Lagartixas que se tatuam a cada anel de vida, estanques em nada, arredondando emoções que no seu discursivo momento decantam sotaque que embeleza o corporizado. Seres aqueles não manietados, não ausentes do lançar de cabos a terra, de trivialidade enxutos. Demorei-me na compreensão do sucedido. Tamanho o emaranhar de citadinos ruídos que davam corpo a uma anestesia do normal e recôndito meio que ali permanecia não intacto, mas polvilhado de humano recrudescer.

Perante singular parturiente da comunicação, sentia o desossar abrupto, recortado em introduções não intercedidas, objetivas, de qualquer obstáculo que pudesse ser considerado, em ambiente até então não laborado pela curiosidade que advém de um destino que se estende próximo. Mentalmente lapidei, sem o conseguir, o mecânico que estratégia de salvaguarda de emocionais pertences meus garante assim que confrontado com novel elemento.

O comunicar, adornado das mais diversas peripécias do linguajar, estava patente no canal que ali criado fora. Momentaneamente pensei não ser o destinatário das palavras que sorriam a cada disparo. Recebia-as, certo da impossibilidade de ofensiva gerar. Desocupei qualquer posto de guarda do que de mim insisto em reservar para posterior colheita.

Quatro naipes convidados. Numa firme disputa que, não sabendo de onde surgira, entregue foi em mão. Desconhecendo por completo o remetente, a mesa estaria preparada, segundo o mesmo, reforçando a seriedade do proponente, verificado o ocaso de solar estrela.

No tempo que vos narro velho homem detém a inexistência de presença sua.

A mesa, se então preparada se encontrava, não recebeu até hoje os seus participantes. O velho senhor não foi vencido por qualquer resistência minha ao tão afamado jogo, onde se permitia uma profissional concentração. A idade dos adultos abarcou por completo a sua condição de eterna criança e não permitiu que, por mais que esta aldeia visite, o senhor com malandro sorriso, me aborde, cobrando o que outrora público tornara.

No manuscrito de afetos que truncado permaneceria, esta seria vírgula primeira do que num só parágrafo, dicotomias nenhumas, traduzia o que sintomaticamente em mim assomava. A pertença desagrilhoada fomentada era, na simplicidade de cada lais-de-guia comunitariamente trabalhado. Progenitura qual, pergunto. Ou apenas ampliado ventre. Resposta que, já então, pauperrimamente distava.

Paralelamente um outro plano se materializava. A preparação para o certame que se avizinhava requeria dos autóctones um diário labor, terreno preparando para humana enchente, que viveria cada parte da aldeia. Aquilo que as gentes permitiam. E elas, a vós sussurro, tudo. Em troca, nada.

Entre o pequeno mercado, o café em que ainda me sento, à condição de obsoleta remetida ensurdecedora rotina, e religioso símbolo, não obscurecendo outros espaços de importância mesma, transitam os demais para bem receber quem aproximação encete.

Seria nesse dia primeiro, com tudo o que a numerologia intime, que o despoletar do que maturei e continuo a resguardar em partes esconsas do meu pensamento, amanheceu. Pequenas habitações de outros, em mim, a que sem abrupto toque, me é permitido limite ultrapassar, que se desvanecendo vai, voando qualquer linha que separando estava dois espaços, já por si, em nada distintos.

Olhos meus, habituados à luz que agora embalada pelo cansaço e arritmia de arregaçadas mangas, navegavam por circundante lugar, gargalhando mudamente de episódios à mesa aconchegados e que véu levantavam à simplicidade do viver de quem ali, a cada poente, recolhia a familiar ventre.

Hoje, sei de um caminho mais célere para aproximação do peito desta aldeia que, até mim, por mãos suas, através das pontas dos dedos, dedilha os meus pensamentos. Tenuemente. Da memória falo. Do que então semeado foi e até hoje fertiliza comum solo. Apesar de longe, perto, muito perto, daqueles que meus, sem aquisição, sinto-os. Neles, em cada um, na sua presença, mesmo na ausência, somos plenamente o eu que revelamos sem aprumada maquilhagem que nos desvincule da paisagem que representamos.

Chamam-me. Até hoje o eco sentido é. E com ele, de volta, regresso a essa outra origem minha. Uma outra, mas não menos considerada que as demais, que tendenciosamente levados somos a estratificar. Aqui, a horizontalidade das vivências significa, sem estanqueidade determinante, viver.

Vejam cada vocabular orquestração que vos apresento como a representação da realidade que me veicula a povo este que me perfilha.

Madrugo. Com a simples necessidade, intrínseca, de adaptar menina que em meus olhos transporto, à luz incomensurável que me é proporcionada. Corpo meu que pratica uma locomoção, de recolhidas velas, entregue a vozes de execução inaudíveis da infantaria, que o vento, em simpático tom, determina. Dizem que, a cada aurora, o costuma fazer. Gosto de o imaginar assim.

Diário de bordo preenchido vai sendo. Afetos que promovem manual trabalho de dedos que os desenham. Vários os fundeadouros. Largo o ferro. Não insisto na contagem das quarteladas. Seguro me sei. Não periclitante. Unhado. Força proporcional à intensidade do que insta. Contínuo arrastamento até um outro berço. Olhando para inferior plano, revejo-me no percurso traçado. Rotas que se adequam à inconstante da existência.

Sorrio. Olho o cais, não o mesmo. Emoldurado num longe que se faz perto, de livre vontade e de meritocracia vincada em currículo jamais pedido.

Viver a aldeia é permitir que ela nos habite. Caiada se gentes suas. Que de nós se avizinhem e nos peçam quente o pão que em mesa partilharemos, destrancando o anonimato da confiança que em locais muitos, não neste, deambula, como transeunte de ruas que em perpendicular não se permitem dispor.

Lembrar o ancião desconhecido, embora mais-que-conhecido é, sempre, sempre, recordar singulares momentos vividos.

Somos pouco para o muito que a vida patrocina. Persistente meia haste. A vida assim o é. Frequento esta memória. Ainda. Sempre.

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