Home>Cultura, Literatura e Filosofia>A ASSOCIAÇÃO BENTO DE JESUS CARAÇA
Cultura, Literatura e Filosofia

A ASSOCIAÇÃO BENTO DE JESUS CARAÇA

Bento de Jesus Caraça. 1901-1948.
Imagino que este nome soará pouco mais do que ininteligível a uma grande parte das pessoas. Eis porque nada adianto acerca dos seus dados biográficos, contrariando o espírito comum de apresentar tudo feito à consideração dos leitores: aqueles que, de facto, quiserem saber quem foi este homem,  terão que procurar.
Assim deve ser, realmente, a aquisição do conhecimento: quero saber? Parto em demanda.
Por essa razão (quis conhecer)  fui duas vezes a Lisboa participar em reuniões – a 18 de Setembro de 2017 e a 21 de Abril de 2018 – cujo objectivo principal consistiu em criar as bases para uma associação, justamente designada Associação Bento de Jesus Caraça. No dia 18 de Abril, na Padaria do Povo, em Campo de Ourique, Lisboa, foram aprovados os estatutos e os órgãos básicos da associação,  foi apresentado o respectivo site e o logotipo, foram pronunciadas intervenções a propósito e,  por fim, celebrou -se o aniversário de Bento de Jesus Caraça,  nascido a 18 de Abril de 1901.
Gerou-se ali um grupo, uma entidade e um propósito.  Um grupo de intelectuais, na sua maioria, professores e investigadores, resistentes ao conformismo apático de um povo, adormecido à sombra de pessimismo estiolante ou indiferença vã; uma entidade dirigida para concretizações necessárias em torno dos objectivos fundamentais da pessoa; um propósito de erguer vozes novas, como eco frutífero de valores ancestrais.
E vou citar:
Artigo 1º
Denominação e finalidade
A Associação Bento de Jesus Caraça, também designada pelo acrónimo
ABJC, é uma associação sem fins lucrativos, que tem por objectivo
divulgar o pensamento de Bento de Jesus Caraça, dar a conhecer a sua obra
em todas as suas facetas e promover a discussão em torno das suas ideias,
nomeadamente entre as gerações que não conhecem o seu pensamento e
obra, promovendo a cultura integral, através da divulgação das ciências,
das humanidades e das artes nas suas diversas expressões, editar
publicações que se coadunem com a prossecução dos seus fins e a
organização de congressos, seminários, colóquios, conferências, debates,
exposições, bem como outras actividades afins.
São  estas as finalidades da ABJC . Como tal, o seu pressuposto básico será conhecer o pensamento e a obra do homem que lhe dá o nome, e contribuir para a sua divulgação, entendendo o que ele designou como “cultura integral do indivíduo”, nomeadamente entre a camada mais jovem.
Ora, por “camada mais jovem” podem entender – se muitas gerações, se nos focarmos nas datas acima enunciadas -1901-1948 – tempo no qual decorreu a vida do eminente professor.
Muitos,  com a leveza própria de uma época de realizações centradas no efémero,  pensarão que  um homem nascido no início do século XX e desaparecido 47 anos depois, nada poderá ensinar ao nosso tempo. Outros reflectirão um instante e dispor-se – ão a investigar, dando a oportunidade a si próprios de descobrir o valor que, assim datado, repercute acertadamente até ao presente e mais para além.
O convite para integrar a ABJC  surgiu – me,  inesperadamente,  por via telefónica . Soube que o meu nome – Regina Sardoeira – foi o ponto de chegada da investigação acerca de um possível descendente desse outro ilustre, e para muitos desconhecido,  Ilídio Sardoeira. Ele sim, conheceu e actuou com Bento de Jesus Caraça, nomeadamente participando, com obras, nas edições da Biblioteca Cosmos.
“A Biblioteca Cosmos, criada em 1941 sob a direcção de Bento Jesus Caraça, é um marco da história da cultura em Portugal do século XX. Bento Jesus Caraça procura com a Biblioteca Cosmos promover a divulgação cultural e a formação  das massas populares e estimular entre os jovens um conjunto de interesses que o Estado recusava. Como o próprio refere, o objectivo da colecção é prestar “reais serviços aos seus leitores e, através deles, a uma causa pela qual lutamos há muitos anos: – a criação de uma mentalidade livre e de tonalidade científica entre os cidadãos portugueses.» (CARAÇA, 1947). Ao apresentar a colecção, no momento em que a Biblioteca Cosmos abre as portas, Caraça escreve “…A que vem a Biblioteca Cosmos?”
“…Quando acabar a tarefa dos homens que descem das nuvens a despejar explosivos, começará outra tarefa – a dos homens que pacientemente, conscientemente, procurarão organizar-se de tal modo que não seja mais possível a obra destruidora daqueles.
Então, com o estabelecimento de novas relações e de novas estruturas, o homem achar-se-á no centro da sociedade, numa posição diferente, com outros direitos, outras responsabilidades. É toda uma vida nova a construir dominada por um humanismo novo.
Há, em suma, que dar ao homem uma visão optimista de si próprio; o homem desiludido e pessimista é um ser inerte sujeito a todas as renúncias, a todas as derrotas – e derrotas só existem aquelas que se aceitam.
Quando acima falamos num humanismo novo, entendemos como um dos seus constituintes essenciais este elemento de valorização – que o homem, sentindo que a cultura é de todos participe, por ela, no conjunto de valores colectivos que há-de levar à criação da Cidade Nova.
A Biblioteca Cosmos pretende ser uma pequena pedra desse edifício luminoso que está por construir…”
A Biblioteca Cosmos publicou 114 títulos, algumas compostas por mais de um volume, sobre os mais diversos ramos do saber. A colecção era composta por sete secções: 1ª Secção – Ciências e Técnicas; 2ª Secção – Artes e Letras; 3ª Secção – Filosofia e Religiões; 4ª Secção – Povos e Civilizações; 5ª Secção – Biografias; 6ª Secção – Epopeias Humanas; e 7ª Secção – Problemas do Nosso Tempo.
Desde 1941 até 1948, à data da morte do seu fundador, foram publicados 114 títulos, 145 volumes, com uma tiragem global de quase 800 mil exemplares (tiragem média por livros : 6.960 volumes).”
Perante a magnitude de uma tal realização e representando o meu ilustre tio e padrinho Ilídio Sardoeira,  fui em demanda do professor Bento de Jesus Caraça, de quem conhecia um pouco mais que o nome, absorvi-lhe o poder e rendi – me à sua actualidade.
Vivi duas experiências de contacto directo com os homens e mulheres que,  primeiro,  manifestaram a intenção de fundar a Associação e, depois, se reuniram em plenário para , definitivamente,  a lançarem. Aceitei integrar a direcção, assumindo responsabilidades a cujo alcance irei aceder brevemente.
Desenganem – se todos aqueles que descartam a possibilidade de se associarem, com o pretexto de que a sede fica em Lisboa e são, desde Amarante, mais de 300 kms a percorrer. A ABJC pretende, exactamente, a descentralização,  pretende promover acções por todo o país e até internacionalizar – se. Por outro lado, a actual tecnologia permite reuniões à distância, via Skype, pelo que os quilómetros serão esbatidos.  Desenganem – se também todos aqueles que, sabendo que o patrono da associação foi um matemático, um professor, um investigador e tudo o mais que deverão descobrir, pesquisando, não terão, ali, um lugar relevante.
Chamo a atenção para um pormenor, e cito, a propósito e de novo, um excerto das intenções que presidiram à formação da Biblioteca Cosmos :
“Bento Jesus Caraça procura com a Biblioteca Cosmos promover a divulgação cultural e a formação  das massas populares e estimular entre os jovens um conjunto de interesses que o Estado recusava.”
Poderão objectar – me que, actualmente,  as designadas “massas populares” têm acesso amplo à cultura, uma vez que o ensino é obrigatório durante 12 anos e ainda que, hoje,  o Estado democrático não recusa os interesses dos jovens, antes pugna por incentivá -los.  Ora, eu, que conheço bem e em primeira mão,  o sistema de ensino português afirmo, peremptoriamente, que grande parte (para não dizer a totalidade) dos programas e das matérias leccionadas nas escolas não forma cultural e cientificamente as “massas populares” e que, este nosso estado democrático recusa, como nos anos 40 do século XX, ainda que por razões diferentes, “o conjunto de interesses dos jovens”. Sei também  que este nosso estado democrático faz esta recusa deliberadamente e sei – o também em primeira mão visto que durante dois anos lectivos  – 2011/2012 e 2012/2013 – fiz uma crítica profunda “àquilo” em que o “estado democrático ” transformou deliberadamente o programa de Filosofia – a disciplina que promove o pensamento,  a crítica,  a autonomia – questionei o ministério da educação através de uma correspondência intensa que mereceu resposta e mesmo concordância. E tudo ficou igual, ou pior.
Por essa razão,  e não por ter chegado a idade da reforma, e não por estar cansada de ser professora, e não por achar inútil preparar os jovens para a vida, “meti baixa” em 2016, ausentando – me, desde então, das salas de aula.
Nessa medida, ser membro activo e actuante da ABJC, captar o seu alcance  e desenvolver acções constituirá a contrapartida necessária deste meu sentir-me válida quanto à formação dos jovens, estando,  muito embora,  afastada das salas de aula.
Estive, portanto, em Lisboa no fim de semana de 21/22 de Abril e levei comigo duas amigas que aceitaram o repto de integrar a Associação. Não foram as únicas pessoas que convidei. Foram, repito, aquelas que aceitaram. Uma é,  como eu, professora de Filosofia e também do Ensino Especial; a outra é Psicóloga Clínica. Cada uma a seu modo participou entusiasticamente das actividades e o futuro ditará a acção que lograrão desenvolver.
Creio firmemente que todos ganharão,  se estiverem atentos e para tal acederem a despertar do marasmo deste nosso-ultra avançado século XXI , fazendo jus ao espírito e à acção de Bento de Jesus Caraça. Termino recordando o conceito básico  de “cultura integral do indivíduo ” , noção fundamental do seu pensamento e que urge praticar – no ensino e na vida como um todo.
“O que é o homem culto? É aquele que:
1.º – Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º – Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º – Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior preocupação máxima e fim último da vida.”
(Bento de Jesus Caraça,  A Cultura Integral do Indivíduo, conferência realizada em 25 de Maio de 1933).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.