Cultura, Literatura e Filosofia

ANDA VER, MAIO NASCEU

Anda ver, Maio nasceu”*

Anda ver, Maio nasceu”*

“Em Maio, comem-se as cerejas ao borralho”.

Esperemos que não, que o tempo cinzento já vai mais que muito, e já atrasa o calendário, o crescimento das alfaces no quintal e o despertar dos botões de rosa no jardim; e deixou, de súbito, carecas as tulipas que se atreveram a espreitar a luz ao mundo.

Por esta altura, é costume já ter despontado a primeira rosa branca para oferecer à Mãe no Dia da Mãe. Não há rosas ainda. Só há meia dúzia de folhas no roseiral, sem botões, na falta de sol. E espinhos. Há sempre espinhos.

As cerejas ao borralho, sem dúvida, em Maio. Esperemos que não, que o mundo vai frio e vazio. Doente. E não está a ser um frio fácil de suportar.

E as palavras, que são como as cerejas, também se tornam mais cheiinhas de sentido em Maio. Com Maio, chegam as feiras do livro.  Com Maio, as festas do livro e da leitura. Valha-nos essa alegria!

Queremos a Primavera. Essa que não quer vir. Essa que carrega todo o seu esplendor no mês de Maio. No ar, a pairar o odor de um tempo que se eleve forte das entranhas da terra, a repuxar o esplendor da natureza aos seus valores mais elevados, em flores, rebentos, insectos, pólenes – Maio quente, diabo no ventre, Maio frio, Maio altivo, Maio maior, Maio amor, Maio flor, Maio Maria, Maio mania, Maio zaralho, Maio borralho, Maio livro, Maio vivo, Maio canção, Maio coração.

A guerra grita. O vermelho da papoila grita. A guerra é tão longe. lon-ge. A papoila, tão efémera. e-fé-me-ra.

O nosso pensamento não chega verdadeiramente lá. Não ouvimos a guerra, não vemos a papoila. O pensamento não chega aos locais doentes do mundo, nem se detém na efemeridade das flores. Os nossos olhos, muito menos. Estamos doentes nós. Estamos doentes dos olhos. E não vemos.

E transformam-se as tragédias dos outros em lamentos nossos, como sopros de outras tragédias que, inevitavelmente, se sucedem. Umas atrás das outras, as tragédias. Lamentámo-las e pronto. O lamento está-nos na alma como um canto cigano arrastado. Um sopro. E é com lamentos que seguimos em frente com as nossas vidinhas.

O mundo não é, verdadeiramente, um lugar humanizado. Ajudar o próximo é prioridade de um pouco punhado de gente. Não estamos realmente em equilíbrio, seres vivos, entre nós. E harmonia, damo-nos por felizes quando a encontramos no ínfimo redor de nós, num círculo pequenino que, andando em círculo de braços estendidos, não nos ultrapassa as pontas dos dedos. Esses dedos que trazemos incertos como pétalas finas de um fino mal-me-quer.

Quero o Maio: a inflorescência – das palavras, das cerejas, dos livros, da leitura.

Quero a esperança renovada no mês de Maio, nos dias infinitamente maiores.

E Seguimos, incertos, na nossa frágil condição de não saber SER.

E a rosa branca para dar à Mãe, que não vem? E a permanência do amor? E o beijo?

Adiamos também essa primavera da Primavera que não vem?

*“Maio, maduro Maio”, Zeca Afonso.

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