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MADRASTA OU “MÁ-DRASTA”

Há coisas que não esperamos na vida. Não esperamos, por exemplo – ou já não esperamos -pelo príncipe encantado, porque entretanto desistimos da ideia ou, na melhor opção, porque ele até já chegou. Talvez não num cavalo branco, que os tempos são outros, e há que deixar algum espaço ao improviso, senão, se é tudo como esperado, rapidamente caímos na rotina. E essa, dizem os mais experimentados, é letal, ainda que eles tenham sobrevivido para contar. Mas dizia eu, não se esperam por divórcios, não se antecipam separações, como também não se espera, como plano de vida, ser madrasta.

Parece-me necessário referir que, a juntar a arbitrariedades várias, tem-se distorcido o conceito de madrasta. Como o de sogra. Nomes que, pelo entendimento popular só se querem é longe. Não sei se o Calimero tinha madrasta, mas que é uma injustiça, é. Ora, as pessoas não são todas iguais, tenham ou não a mesma estrutura familiar. O inglês tem a particularidade de ter parentescos que se explicam por si só: ” father-in-law”, por exemplo. Deduz-se facilmente que é o sogro, pai do marido ou da mulher. No caso da madrasta, parece-me que podemos ter em português uma interpretação semelhante: “ má-drasta” para as que são más, madrastas para as restantes. Se bem que não vejo ninguém a apresentar-se dessa forma ou a gabar-se do nome. Ninguém, penso eu, se apresenta como: sou a madrasta do André. Não, habitualmente diz-se: sou a namorada / mulher do pai do André. Penso que ainda nos cabe a opção de escolher a forma como somos tratados. Assim sendo, eu presumo o nome, ou quanto muito a explicação anterior, só para entendimento do ponto de situação aos recém-chegados. De qualquer forma, e aqui é preciso chamar as coisas pelo nome, o inglês deixou as madrastas e enteados ficarem muito mal: “stepmother”, “stepdaughter”, “stepson”. Ora, a associação de “step” (passo ou pontapé) com os parentescos, não me parece particularmente simpática. Depois estranham que haja quem tenha entendimentos tão enraivecidos, além, obviamente, dos motivados pelas histórias da Disney….

Assim, e em tempos de normas várias para garantia da qualidade, parece-me importante estabelecer um protocolo a cumprir para a boa vigência das novas famílias. Sendo madrasta e não “má-drasta” (assim espero e acredito, dado que não tenho ainda nenhuma denúncia no meu livro de reclamações), parece-me que estou avalizada para falar do tema. É quase como um anúncio de emprego, com requisitos vários, a expor:

  1. Se se apaixonou por alguém com filhos, tenha consciência que eles serão sempre a prioridade maior na vida do seu amor. Se ele for um bom pai, obviamente. Talvez se tenha apaixonado por ele devido também à forma como o viu lidar com os miúdos. Poderá significar que sabe ser um excelente pai, caso pretenda ter (mais) catraios. Congratule-se, porque pode assistir ao vivo aquilo que, numa relação de primeiro nível, normalmente só sabe quando já é mãe. Poupam-se dissabores.
  2. Se há crianças, há, regra geral, uma mãe. Prepare-se para um contacto necessário e frequente com esta, a bem da organização da vida dos filhos e dos novos casais. Quando ela liga não é para recordar os tempos em Amesterdão que passou com o seu amor, é tão só para falar sobre factos dos miúdos. Se não é esse o caso que vive, se acha que ainda há assuntos por resolver, sentimentos em banho-maria e dúvidas, esclareça a situação ou então vá tratar da sua vida, que é melhor.
  3. Recorde-se que as crianças têm mãe e pai, e portanto certos assuntos, de importância vital para os miúdos, como escola, saúde e alguns outros, a estes estão reservados. Uma madrasta não deve nunca intrometer-se (e caso o faça, o pai deverá avisá-la, carinhosamente, que está a exceder as funções para que foi contratada). Poderá ter opinião, mas guarde-a para si até que seja solicitada a partilha. Se for…
  4. Nunca, mas nunca, faça uso de informações para dizer aos miúdos que a mãe deles tem todos os defeitos do mundo e arredores. Mesmo que tenha. O que é possível, claro.
  5. Prepare-se para se integrar em novos hábitos, como perceber que há quem lave a cabeça depois do corpo, ou use meias antiderrapantes porque não se gosta de chinelos, ou simplesmente aprenda que há novas músicas e séries que não conhecia. Chama-se a isto aculturação.
  6. Não leve a mal que as pessoas refiram o nome da mãe dos seus enteados frequentemente, seja para elogiar, seja para criticar. Se é uma mulher madura, sabe que todos temos passado, e quando decidiu ficar com o seu amor, provavelmente já sabia a parte mais importante da história deste. Que, a ter decidido ficar com ele, com certeza já ficou encerrada lá atrás.

Se cumpre todos estes requisitos, se não deixou que amarguras conjugais anteriores a azedassem, se é mentalmente flexível para a questão dos “meus, teus e eventualmente nossos” tem uma vida própria e cultiva os seus interesses sem necessidade de criar intencionalmente dissabores a terceiros, avance sem medo. Ser madrasta pode ser uma boa surpresa. Poderá ganhar novas ligações afectivas e alargar a família. Poderá conhecer novas formas de vida e descobrir, poética e docemente, que tem em si uma extensa capacidade de amar. O que é, se pensar bem, uma excelente compensação pelas dificuldades logísticas do dia a dia.

“Toda a mulher que acarinha os filhos doutra tem uma alma bem formada.”

Florbela Espanca, Correspondência, 1911

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