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A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO QUARTO

Vivalma na residência do esquecimento.

Ao peito as mãos levadas. Morno o sentido. Tardiamente, ou não tarde ainda, o pensado, reflexo do prelúdio que memória póstuma mendigava. Emoção mor, a que permitia aconchego na escarpa de mim, coabitava com hibernada razão, não muito distante de alimentar recolha.

A sobriedade do momento afreguesava ações muitas, gravitando em torno de espaço em branco, reiteradamente preenchido com um silêncio que vitimava verbal nomenclatura, proliferando por vasos que tendiam a secar, tal o insaciável ermo de discórdia, absorvendo uma ordem natural que de simplicidade compunha seu manuscrito.

Requeria de mim temporal partícula de cronológico friso que, se completando, me identificava no mecânico da existência, sem cor alguma, em telas várias.

A constante puberdade do silenciar permitia a audição de feroz batimento, passível e amplificador de uma prenhez de ansiedade, de rasurada lucidez de acordo não com gestacional período. Não obstante, permeava a perdurabilidade de uma variância, equilibrando um estado que patrocinava o alocar nesta aldeia de gentes consumada.

Vagueio. Em vísceras suas. Vagueio.

Ninguém com quem o passo trocar, nem cardíaco batimento em parada se colocava para cadência iniciada uniformizar. Talvez o rubor se apropriasse de emocionais cavidades e interditasse qualquer possibilidade de execução do então em voz de ordem decretado.

Espreguiçado o pensamento soçobrado de uma fecunda análise à constelação teórica de mim, de outros, que limítrofes se desenhavam. Certa é sua truncada condição. Um constante vertebrar a cada apropinquação do real que resumia nada o espaço onde me permitia deambular.

Seguia os canais, envolto em braços que de sussurros se revestiam. Ventos idos presente se tornam, recordações encaixotadas e menosprezadas não. Íngremes os caminhos percorridos, ladeado por delicadas habitações que se configuram horizontalmente, para o coletivo requerendo a possibilidade de igualdade no olhar alheio, curioso, que se aprofunda a cada cedência de si no espaço.

Sem dispor de desdobrado mapa onde orientação certa realidade fosse, insistiu na descoberta dos mais recônditos espaços do pensamento, preenchidos pelo afetivo mobiliário embutido em carnes suas. Marejadas.

Em demanda por tesouro desenterrado, abre-te sésamo nenhum, testado em línguas várias e de vocabulares casamentos, insistindo num imaginário que ignorado há muito se demonstrava pelo que de natural forma se apresentava.

Sem os tocar, tocava cada lar. Olhava-os, não vista turva, mas o salientar de magma que em cratera fechada, de pragmatismo em riste, se fazia visível, nunca o sendo. Talvez apenas um gradual aumento de temperatura, ecoando em imediações minhas, levado a pensamento aquele, onde bote algum anuiria para me levar a distâncias mil do ponto em que me encontrava.

Tão profundo era o sentido que suportaria qualquer realismo mágico que se apoderasse dos elementos que constituíam peculiar quadro, em ocaso há muito imposto, abeirando-se de ouvidos meus, sussurrando inata dependência.

Como se a própria noite, em vestes recolhida, amante minha por impossibilidade de resistência ou distribuídas trincheiras, em mim amanhecesse a prática de uma vontade e total entrega. E neste processo, que de automatismo se faz, precedido de estudo algum de terreno, tamanha a fertilidade, santo-e-senha ignorado era, imputando uma fluidez que esculpia um berço onde amantes, envolvidos num denso silêncio, aprofundassem mútuo conhecimento. Ciência não chamada, mesmo que alheias intenções tendam a provocar no decorrer de humana locomoção.

As partituras de vozes, que durante o dia passeiam por este largo, recolhem-se à hora que vos declamo emoções, em árvores suspensas até que maduras e necessárias se sintam. A plano descendente, inferior não, a apologia ao sonorizado silêncio que nos anela é perentória na sua execução. Virgula o que em acelerado passo tende a percorrer parada de pensamento meu, onde me mantenho às cavalitas, a olho despido, focando o horizonte de cada bramido, entorpecendo-se, limitado por corpo este que o absorve.

Sentei-me no banco, junto à bica que se intimida à passagem deste que a mira e em pés de veludo se mantém, respeitando o preenchido vazio, amplificador do que olhos meus sentem.

Num notório exterior recolher, quiçá já tardia hora, ou afazeres que se impõem, amálgama nenhuma na imersão em polposo ambiente, que apesar de subtraído à panóplia de sons possíveis, não teme curioso ser que o significa pela presença e valorização do eterno desconhecido.

Não pretendo pernoitar o pensamento em aldeão elemento. Pouso, repouso, o peso que em malas transporto, ansiando veloz despachar, garantindo incólume dedicação.

O corpo ergo, transportando indumentária, aquela ainda, em armários que tendenciosamente se organizam por classe de importância. E nela, uma luta contante, imensa, lembrando que o cíclico é mestre e que muito ainda feito pode ser no quebrar de bélica forma de ser do ser.

Percetível agora pode começar a ser a necessidade do estar. Aqui voltar.

A imensidão a que me entrego condecora-me com uma leveza, em nutrição de espaço e tempo, sem sequer a eles reflexão maior atribuir.

Desculpem a insistência em elementos desclassificados por muitos na estratificação elementar do viver. Mas é precisamente esse pêndulo que significa a terra que piso. Chão que me conforta pelo que é. Gentes que o tocam como se primeiro o seu nascer e a terra membro seu fosse. Talvez só assim faça sentido pensar. Anulando ávida aritmética que persiste nas reguadas para imposição sua. A cada guerra disseminada nesse contacto, o golpear na liberdade engorda a olhos vistos.

Faço-me acompanhar da necessidade de olhos cerrar. Protelando vou a chegada a estado esse. Continuo o percurso, inspirando a sonorização da ausência de som, aqui não cabem naturais molduras, descendo íngreme rua que me leva a percorrer os interstícios das memórias que edificando e arruando no pensamento vou.

À porta não lhes bato. Despertá-las, ousado seria em tão madura hora. Lembro o que, sem visto em disciplina, me contam, quando brincamos a um faz-de-conta que sério se faz. Mas não dispenso a oportunidade de calmamente me aproximar da entrada de cada uma.

Coloco o ouvido bem próximo, sentindo o seu respirar, o sonho bom que representam no coletivo que integram e resistente corpo me dá. Suficiente o movimento para as afagar e, sem as despertar, mantê-las acordadas.

Olhando em volta, centrado estou em eira que se dispõe num ponto não alto, permitindo alguma vigília que se apresente necessária. Sabido é que distração muita com o que acima de meus olhos se concentra estancaria essa permeabilidade de ação concreta. Encosto o já mais leve corpo que me acompanha e bebo do que não ouço. Talvez por carência de antídoto para uma austera rouquidão, comummente acariciada pelo mecanismo que dá corda ao dia que passando, não passa, fica, acumula.

A fragância do gotejar do espaço que encimado me olhava, temeridade nenhuma, apesar de julgar legítimo se o contrário se materializasse, tamanha a insanidade do todo a que pertenço, era aglutinadora de uma atmosfera, colega de carteira tornada, conspirando com os pensamentos que no recreio de uma puerilidade constante da nossa condição geravam as emoções que nos atestavam como amigos que se segredam.

Será nesta simples beleza, como que monossilábica, que projeto o que cristalizo em imagens muitas, prescindindo de abreviaturas, embargando ambiguidades, de assídua forma.

Estado este melancólico o não é. Sei de cor esta não entrada nas várias possibilidades de adjetivos que a si pode chamar. Vivo-o. E isso me basta.

Assim como este felino ser, de profundo olhar, apelando à monopolização de atenção minha, que encostando as tonalidades a seu pelo atribuído, tenta pintar humana tela, colocando no extremo artístico choques que lubrificarão emocionais sinapses que em oficina possam estar atordoadas. Possível heroicidade aqui testemunhada, neste perscrutar, onde meu instinto transita em toque por aveludado pelo, tratado pelo amaciar de mãos que como primogénito o requerem.

Talvez o viver possa ser também este intenso e poçal felino olhar para o que nos rodeia. Desancorar de um estado que, por defeito, à deriva nos coloque, passível de submersão numa orfandade que nos remeterá a uma condição tal de desumanização que, aquando da aproximação de espaços sintomáticos como este, a perigosidade anule a dorsal da vontade. Cárcere interdito a visitas, mesmo que fraturantes para com o estado sinalizado e de gabinete de crise reunido.

Parou.

No silêncio imersão em nada siamês da solidão. Diferentes os úteros.

Planou no pensamento de um imaginário que, outrora, de revelação se fez. Até ao momento em redes suas trouxe o deslizar de contentores acima da linha de água. Um continuar sobre águas que o tentavam. Um silêncio apesar de não o silêncio. Capaz de naufragar, atirado de prancha, minudências que rombos praticam em essencial estrutura.

Continuou. Ladeado pelo ser que o aconchega em noite que se vai envolvendo nos lençóis e ocupando parte maior da cama.

À sua passagem, novamente pelas pequenas ruas que ensonadas, já o não cumprimentavam, como que justificando o não despertar com o desenhado e sorridente bom dia de alvoradas primeiras.

Sem pressa associada ao momento, seguiu para o conforto do lar que o recebia sempre que ali permanecia. Um lar sem chave possível de atenuar qualquer intenso e libertário sentimento que nutria pelas pessoas que o abraçavam como se de um passado se recordassem.

Emoções. Folheou-as. Muitas, que destrambelhadas se ausentavam do depósito. Encadernação em dura capa que força requeria para um fecho que sensibilidade alguma abertura fomentava a tardias horas.

Mas isto tudo, tudo, vozes são do coração, que se me sobem, arranhando canal ascendente, escorando-o, facilidade permitindo em teor maior, até que, sem permissão, descosem a razão. Coisas várias que assoalham com alguma dramaturgia, cavidade aquela que suporta os ais em profundos suspiros, como em quarto de prostrados espelhos. Perfeitamente cabendo nas aurículas e ventrículos. Bombeadas, navegando, ora mais, ora menos, numa circulação que nas emoções vê causa. Questiono-me se será isto por viver tão intensamente o pouco do resto que a operação nos oferenda.

As árvores, em planos vários, despiam-se. Não à passagem por mim premeditada, efeito tamanho o não tinha, sim oriundo de deuses outros que nos abarcam, cumprindo o que prometem, despedindo parentes próximos que desnutram o que em pedra cravado foi.

Eram não folhas, mas folhas que no pensamento ainda dançavam em circundante espaço. Continuidade lhes conferi. Em mim. Envolvo-me nesse expressivo redemoinho que não se acinzenta, venha daí braço de ferro em mesa marcado, mesmo que de soslaio, tentando pueril esquiva que nisto de talvez ninguém veja muitos são os que quota pagam.

O instante prolongou-se em artérias outras, desvios os mesmos, como que pisados vez primeira, ou heteronímia praticada que tal permitisse e a zero ponteiro colocado, reiteradamente, para um debutante despontar. Suave a temperatura que me trajava, como que em preparatória fase para um enternecedor embalar no ventre de memória que nudez reivindica.

E sem esforço muito abarcou nos braços toda uma aldeia. Olhou-a. Encostando sua esquerda face como que sesta bocejada.

Uma aldeia que lhe cabia na imensidão do espaço criado e que junto ao peito arritmias copiava, sem receio de palmatória que outrem, devido à rebeldia de emoções-moças, em ordem do dia decretasse.

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