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ABANDONASTE TU, OU FOSTE ABANDONADO ANTES?

Pontualmente é noticiado o abandono de idosos, em números que nos chocam pela sua dimensão. São deixados nos hospitais, ou vivem com a solidão nas suas casas, isolados do mundo, sem alguém que lhe interrompa a monotonia dos dias com uma sopa, um jornal ou uma conversa, dedicando-lhe parte do seu tempo, corredor dos dias que passam atarefados e sem travão.

O que significa isto, o que se conclui com este facto? Significa tão só que há solidão!

Significará também que estas pessoas foram abandonadas pelos filhos que, numa ingratidão suprema e num desprezo pelos mais fracos se libertaram, desenvencilhando-se de trabalhos de cuidadores que não lhes convêm nos dias? Não, não significa. Ou não necessariamente.

Desafortunadamente, há casos destes, em que idosos, pessoas válidas em termos de empatia e interacções humanas com filhos e netos, são deixados para trás, numa libertação de estorvo, aniquilando-se assim a ascendência, projetando-os para um passado distante, independente do presente que ainda é seu. Refiro-me a esta situação de abandono pensado e intencional, não num sentido de logística, de cuidados com pessoas de capacidades limitadas pela situação etária ou de saúde. Essa é uma dificuldade real, na maior parte das vezes pouco apoiada pelas entidades sociais competentes, entre gerações que trabalham cada vez até mais tarde e que já não são só a geração sanduiche, entre pais idosos e filhos jovens, mas entre pais idosos, filhos adultos e netos pequenos que a longevidade vai permitindo acrescentar na cadeia.

 Falo sobretudo duma ausência de vínculo emocional, cortando a vida, como se de um cordão umbilical se tratasse, mas agora não para promover a nova existência, mas para esquecer a antiga. Daí o abandono, a ignorância das necessidades alheias, o desdém pelos demais. Mas para além destes, que espelham o egoísmo e a fuga à responsabilidade dos familiares directos, há, e é neles que me foco hoje, os outros. Na pressa de catalogarmos tudo, de opinar e de não perder o circuito da informação – que não podemos ser pegos por terceiros na falta da mesma – somos muitas vezes precipitados nos nossos julgamentos. Importante é atalhar caminho para uma conclusão, ainda que deixemos de observar as ramificações que possam eventualmente existir sobre o assunto. Abusamos da simplificação.

Assim, pergunto-me se é possível abandonar quando já se foi abandonado. De outra forma: podemos abandonar quem já nos abandonou? Esta questão suscita estranheza. Como assim?!

Quando um filho é maltratado, sendo através da falta de cuidados básicos, negligência, agressões, infantilização permanente, castração de autonomia e iniciativas, entrega a terceiros, poder-se-á falar de abandono? Ou no caso de exercício de controlo e disciplina distorcidos, ausência de empatia e partilha emocional, intromissão na reserva pessoal e familiar do filho adulto, controlo pela dependência financeira, poder-se -á considerar abandono? Penso que sim.

É tarefa paternal prover o sustento, promovendo um crescimento saudável em corpo e alma, no sentido de criar um ser humano completo e emancipado. Os filhos não são nossos, muito acertadamente dizia Saramago. Se de alguma forma nos demitimos dessa função maior, sendo intencionalmente desadequados, ou mesmo prejudicando o seu bem-estar, com intromissão em assuntos próprios, ou sufocando-os para ostentarmos a nossa posse, não estamos de alguma forma a falhar no propósito?

A questão é: é legítimo pedir a quem não foi respeitado como filho que seja responsável pela velhice ou doença dum pai ausente de facto? De um pai que não passa de um estranho? Que nunca esteve presente, ou que, pior ainda, estando presente só criou intencionalmente problemas ao filho?  É concebível confiar no bom intimo daquele que sofreu injúria para amparar o prevaricador na velhice? E quando se viu os avós serem tratados com desconsideração, mas os seus pais se acham dignos de tratamento diferenciado? É justo que quem tenha crescido sem os pais biológicos por opção dos mesmos, ou tenha sofrido ações de perversidade destes, tenha o encargo da sua velhice?

A cultura portuguesa é generosa em adágios aplicáveis à situação da maternidade / paternidade, mas destaco aqui apenas um: “ter é dor, criar é amor”. Este ditado contradiz-se naquela célebre expressão: “mãe há só uma.” O que no caso que falo, de pais demissionários, é caso para dizer-se que ainda bem que só há uma…. senão, valha-nos Deus!

 A biologia não explica tudo. Não é a fecundação, nem o nascimento, que gera um pai ou uma mãe, gera apenas, e tão só, progenitores. Maternidade e Paternidade é um nível superior, a que só ascendem aqueles que tomam um ser nascente e o amam, o educam, o respeitam. Que com ele geram ligações como sinapses emocionais, numa partilha, entreajuda, consideração mútua. Que têm conflitos, mas que têm uma base de amor. Que vão alterando as suas ligações, na medida em que, o agora menino, será um adulto em 20 anos. Que evoluem contínua e conjuntamente.

A idade, bem como a doença, não tem a capacidade de transformar pessoas em santos. Aqueles que vemos, muitas vezes com aspecto frágil e olhar desanimado, são os mesmo que outrora foram, só que acrescidos do peso do tempo. Bons, se bons foram. Maus, se maus foram.

 “Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem.”

Rui Barbosa

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