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O BANHEIRO DOS DEUSES

Que “o dinheiro não dá felicidade” mais parece uma máxima arquitectada para ludibriar os pobres. De facto, entre o beber da fonte ou da torneira de oiro, o que está em causa é podermos matar a sede, mas a água é objecto de negócio, da trama que os donos do oiro impõem sobre aqueles que pagam para chegar à fonte. Poupe-se a água, invista-se no desodorizante, defeque-se o mínimo possível, vegetais crus são mais saudáveis, e não importam os venenos lançados aos rios, o plástico aos oceanos, as piscinas dos novos-ricos. Não dá felicidade não, sobretudo à humanidade que vê na riqueza a salvação para os seus dramas, e joga, joga em sorte e azar, joga e não logra trincar a cenoura, àqueles sobre os quais impende uma vida de chapa ganha, chapa gasta, e aos muitos que só não subsidiam a justiça porque ela vive das fortunas, dessas ilegítimas absolvidas na barra dos tribunais. E lavam-se o rial, o dólar, o rublo, o iuane e o euro, tão bem asseados que dá para fazer guerras e assinar a paz, para pôr e depor presidentes, para subir a cotação nas bolsas e provocar bancarrotas. “Sorria que está a ser filmado”, vemos nas padarias e nos centros comerciais, só falta a provocação na parede dos bancos, mas aí talvez os sorrisos amarelos não fossem tantos quanto os manguitos. Nos nossos supermercados fazemos gente feliz, o seu carro é uma companhia que não vai esquecer, o partido é o único que ouve a sua voz, com este crédito os seus problemas fazem parte do passado, et cetera. E se um dia o capitalismo e demais totalitarismos fossem para a mãezinha que os deu à luz? Anões mentais não faltam a dirigir os destinos dos povos, poucos de carácter, inchados de poder, temidos e temíveis, endeusados pela turba amestrada a que só falta ter inscrito nas nucas um código de barras e a data das validades, que vai comer à mão do domador por conta do sonho, e vive no pesadelo sem despertar para a vida. Os salteadores de colarinho branco não brincam em serviço, e inventam os seus testas-de-ferro, nos tribunais, nos parlamentos, nos media e por detrás das câmaras cujos locadores nos pedem para sorrir. Outrora o Olimpo era lugar de respeito, imaginário, motivo da liberdade criativa. Agora os deuses foram depostos em nome da ignorância, do medo e o circo escancarou os portões a cada dia e hora. Mais vale ficar calado do que provocar-lhes a ira. Afinal não é novidade que o dinheiro dá felicidade, também porque a liberdade se compra, como a água que nos lava o rosto e os pecados de alguns.

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