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PINHALPASSION

Na maior parte das segundas-feiras de manhã ainda estou com jet lag embora chegue sempre a meio da tarde de domingo a Lisboa. O Interior de Portugal parece-me um país distante que encontro a pouco tempo de viagem. As pessoas, as vidas, as paisagens, os sons ou o ar são tão diferentes. Falo da Zona do Pinhal, onde nasci e cresci e da sua longa vida de pinheiros, alfazema, caruma e verde incessante. Se as mentalidades são diferentes das da capital? Também. Mas já não tanto assim. Embora a densidade populacional seja baixa há uma mistura incrível de diferenças culturais, económicas e sociais.

Nem toda a gente tem uma “terra” o que é uma pena porque vale tanto quanto ter um irmão, um avô ou uma casa já que também nos vê crescer e nos abriga. Uma“terra” é uma segunda casa, um lugar que guardamos para onde quer que vamos, nem que seja as Maldivas. Por mais que ansiemos a aventura, o requinte, o exótico ou o místico não podemos deixar de parte a nossa “terra”. E ela reinventa-se enquanto nos espera, com uma capacidade surpreendente que nos leva a questionar porque é que a abandonámos. A minha terra tem um potencial incrível turístico, gastronómico, social, cultural e muitos são os que já descobriram isso. São sobretudo estrangeiros criativos, inteligentes e apaixonados pela Natureza e simplicidade. O casal holândes Hubertus e Whihrlmina Lenders é um desses casos. Instalaram-se na Quinta da Portela, uma propriedade com 12 hectares, vai para mais de duas décadas. Desenvolveram o projecto Albergue Bonjardim, revitalizando um solar do século XVIII e mais tarde apostaram no glamping. Em 2016 receberam o Prémio Intermarché Produção Nacional, na categoria de vinhos graças ao seu vinho “Bonjardim”, uma produção que segue as regras da agricultura biológica. Mas no fundo não é só esta exploração vitivinícola, com a sua produção, degustações e tours que marca quem entra nesta quinta. Pode-se ser até abstémio e visitar este local porque o que realmente aqui se vive é um profundo reconhecimento e uma devota apreciação pelo que a Natureza dá. Os proprietários no domingo passado lançaram pela quinta vez o desafio do“PinhalPassion”. Este ano, como em todos os anteriores, várias pessoas juntaram-se à seguinte proposta:

“Todos nós temos um talento único, algo que nos define e com o qual mudamos o mundo
à nossa volta. Temos muito para oferecer uns aos outros. Estaria disposto a partilhar?”

Foi através deste apelo que artesãos, músicos, artistas e pessoas ligadas ao yoga e à agricultura sustentável, por exemplo, vieram dar ao Nesperal. A tarde começou com um almoço partilhado cheio de convívio e troca de experiências e continuou com workshops. Este encontro funciona como elo de ligação entre locais e estrangeiros e permite que várias pessoas apaixonadas pelo interior se juntem e compartilhem as suas ideias e planos para a Zona do Pinhal. A música, de todas as actividades, foi a que mais sobressaiu. Alguns dos músicos que vão estar no Festival Internacional de Bandas na Sertã (FIBS), no fim de semana de 22 e 23 de Junho, apareceram para energizar ainda mais o evento. O FIBS conta com o apoio, entre outros, de Paul Michelmore, promotor musical londrino que vive no concelho.

A minha “terra” não anda mesmo nada aborrecida como seria de pensar. E após toda a série de acontecimentos terríveis que aconteceram o ano passado, este ano deveríamos todos ir passar férias à Zona do Pinhal. Todo o Interior de Portugal precisa urgentemente de mudança e de gente. 82% dos portugueses com menos de 25 anos vivem junto do litoral o que se traduz numa desigualdade enorme em termos de desenvolvimento a todos os níveis entre litoral e interior, num futuro insustentável nas cidades e ao mesmo tempo num desperdício de qualidade de vida. Há propostas, muitas ideias, mas o que é preciso acima de qualquer coisa é a criação de postos de trabalho. O Movimento pelo Interior quer combater esta desertificação aguda e apresentou já várias medidas entre as quais está a de que todos os serviços públicos futuros sejam criados fora de Lisboa.

O Interior vale mais do que aquilo que pensamos e está à espera de apanhar uma onda de mudança para provar o seu potencial. Quem ainda não tem terra, adopte uma. Visite-a, cuide dela, dê-lhe vida, afeiçoe-se a ela. Não é preciso apanhar um avião para mudar de ares e estar à segunda-feira com jet lag.

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