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OBLIVIAMENTE

Quando se sentam nas cadeiras, cinzentas, encolhem-se numa implosão existencial e entre napa esburacada e suja encontram forma de acolher a ansiedade. Se o cansaço afirma, a cabeça descai e pende para trás, encostando-se ao vidro manchado de onde se decalca tristeza e a palavra Urgências passivamente substantiva o local. O despreparo do vidro para a solidão fá-lo oscilar e ir ao encontro de corpos que lá se encostam, dando espaço ao descanso ainda que parco ou as cabeças de cabelo oleoso por onde o tempo teima em pentear preocupação. Abro um olho, a preguiça e a timidez assim obrigam, os nomes ritmados pausadamente sonorizados fazem fila para uma triagem de uma cidade que conhecem apenas os mais idosos e os subscritores de desviantes canais desportivos da caixa enclausurante. Novo nome, novo lamurio, um andar coxeado como se o mundo fosse feito de dois degraus desconexos e irregulares, onde caminhamos pé ante passada, falheira, entre eira e beira. A porta desliza, de lá espreita um segurança inseguro, aponta sisudo um gabinete numeralmente baptizado e o murmúrio doloroso, cavalgado na dor, suspira por uma cor lesta.
Hipnotizo-me propositadamente com os faróis movediços no tejadilho e na grelha frontal dos grandes furgões vermelhos e brancos que transportam sofrimento e alguma desconexão, a palavra aicnâlubma tatuada no capot parece pronta a ser desvendada num códice em reflexo, tudo me assalta para que a cabeça e a mente saia dali. Tudo é melhor do que ali. Provisoriamente, o sofrimento entra por portas onde antes saíam, apressados, alívios em busca de farmacêuticos que lhes vendessem o prescrito, longe de almejarem proscritos, à toa entre corridas de macas e cadeiras de rodas com suporte para apenas um pé, onde as finas rodas de borracha sulcam caminho sobre os chinelos de um qualquer velhiente, mistura de velhote com paciente, que os deixou cair e exibe uma meia rota, talvez como a alma que se diminui em vergonha pela falácia de um corpo que teima em dar parte fraca, por onde espreita um dedo mirrado, escurecido, com uma grande, grossa e curva unha, o resquício de uma garra de quem se foi agarrando ao chão como uma torga, de forma rasteira e olhos de fuligem a semicerrar os anos à força da vida que venta, cada vez mais, para quem se faz de choupo e giesta. Para aqui, nunca a vida foi uma festa. Aliás, a vida aqui parece ser o oásis escondido numa pedreira, o granito que se solta da fresta, o arfar de um peito que se eleva, sustem e depois esbate, um fole gasto e acaboclado do pó que se foi meteorizando, transportado pelos anos de desgaste a arrancar aos petardos as entranhas das montanhas, a polir tampos de cozinhas e, salve ironia, cortar, moldar e irrigar aos olhos lápides de quem ainda vivo encomenda a morte. Não o inventei, disse-mo ele, o braço retesado ao peito, num olhar cruzado com a minha vergonha, o pedido de ajuda num grito silencioso por entre suspiros de quem não se sabe sofrer, aquele velho solicita-me a morte. O familiar senta-se a meu lado depois de fazer a inscrição no guichet e o computador abocanhar a informação e andar ali a cogitar, de bit em bit, de onde conhecerá esta trama de informação, pousa-lhe o amarelado bilhete de identidade na perna e rosna, talvez porque não o ensinaram a ronronar, que tarda nada chamam por ele e há-de ficar melhor, mas entretanto tem que ir à roulotte beber uma cerveja. A vir da mesma cepa, o malte sobre o pó de pedra azul e amaciado pelo fumo do tabaco fará bela mistela de um futuro adivinhado, numa cadeira de rodas de um serviço de urgência, com suporte para apenas um pé, a atropelar o chinelo de um pé que exibirá uma meia rota.
Um clique e uma interferência no sistema sonoro, o som indistinto de um auscultador a levantar, um nome e o número do gabinete de triagem mastigados entre duas mascadelas na chiclete. O próprio som ouve-se mentolado. Olho para o bilhete de identidade na sua perna, o nome igual ao declamado sem qualquer emoção – há que manter a distância e o pensamento no ginásio onde, daqui a horas, na volta de turno, folgará a mente no trabalhar do corpo – a cara séria e um sorriso tímido debaixo do bigode entre duas longas e farfalhudas patilhas, a cara queimada pelo Sol e pela má qualidade da película. Quando a porta se arrasta vagarosamente numa banda sonora que não deixa memória grata, o segurança assoma, não o sisudo, um outro, e faço-lhe sinal com a cabeça apontando para o velhiente, já sem bigode e as patilhas caídas sem orgulho, o braço hirto num jogo sincopado entre hemisférios, uma lateral esquecida ironicamente por quem a uma totalidade obliviamente foi votado.

A porta fechou-se no sentido oposto a abrir-se, literalmente abriu para um fecho que no íntimo imploro, a degradação das existências, as vidas resumidas a um resumo de um rascunhado rasurado e sem vigor nas mangas fajutas de um sobretudo virado do avesso para que se aproveite o tecido. Voltam os faróis azuis iridescentes, a noite acabrunha-se, o peso de um sono ausente faz-se sentir e volta-me o olhar para o chão. Vejo o bilhete de identidade do velho e cai a cortina sobre o acto, o número que somos impresso por agulhas que tatuaram para a sociedade o cidadão numeral, aqui, onde principia o bem, mas onde ainda reina o mal.

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