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ÓRFÃOS, TAMBÉM DE PAIS VIVOS

Na Guiné-Bissau o índice de mortalidade materno é o mais elevado dos paises PALOP e um dos mais altos noMundo. Segundo a UNICEF que elencou os dez piores países a nível global, a GB encontra-se na sexta posição o que se traduz  em números reais, em cerca de 549 mortes maternas por 100 000 nascidos vivos.

Estamos a falar de crianças que ficam sem mãe mal chegam ao mundo mas, muitas vezes este facto dita por si, desde logo, a sentença de ficarem também sem a restante família. Isto porque algumas etnias consideram que a criança encarna o mal pelo facto da mãe ter morrido, sendo liminarmente rejeitada no sei familiar. Mesmo se a mãe morreu por falta de assistência no parto, por uma hemorragia ou qualquer outro factor claramente e facilmente identificável pela ciência. Mas o animismo assim dita.

A estes casos somam-se os nascituros gémeos, como já referi em crónica anterior, também rejeitados em algumas famílias ou as crianças nascidas com deficiências ou aparentes problemas que os curandeiros não conseguem resolver, as chamadas crianças Irãs.

São estas meninas e estes meninos que acabam amiúde abandonados ora nos centros de saúde e hospitais ora nas poucas casas de acolhimento existentes na Guiné-Bissau.

Sem apoio do Estado, estes centros vivem da boa vontade de particulares, à excepção de um ou outro, que recebem financiamentos de instituições ou organizações internacionais que os mantêm a funcionar.

As famílias raramente voltam para ver as crianças ali deixadas, ignoram a sua existência e é-lhes indiferente se crescem em segurança e com saude ou não.

Conheço algumas das casas de acolhimento destas crianças e a luta para lhes dar o melhor é constante. Por vezes não há comida, por outras só há arroz, que se serve assim branco, sem mais nada a acompanhar, enganando-se a pobreza do prato com um molho para lhe dar gosto. A luz é um bem de luxo com que se habituam a não conviver e a água um bem racionado e que se deve poupar.

Numa destas casas vivem 40 crianças. Alguns órfãos de pai e mãe mas outros provenientes das mais diversas histórias e que têm em comum um dos factores que referi em cima. É o Lar Betel. Aqui estão crianças e jovens com idades compreendidas entre os 5 meses e os 21 anos que são apoiadas por uma meia dúzia de mulheres boas. São estas “mães” que os mimam, os repreendem, os educam, os ensinam a crescer em sociedade. Vive-se ali da generosidade particular que lhes bate à porta e deixa carne, peixe, arroz, leite em pó, fraldas, roupas ou material escolar para os seus pequenos. Vive-se de forma muito frugal mas com muita dignidade e um asseio irrepreensível. As crianças até podem ter um buraquinho na roupa ou esta não ser a medida certa para o seu corpo. Mas não há um nariz sujo, nenhum dos dois banhos diários por tomar, ou unhas encardidas. Há brio na limpeza, apesar de ser uma casa minúscula e com poucas condições para acolher tantas crianças.

Na escola, que tira os mais velhos destas quatro paredes onde se sentem todos irmãos e vivem protegidos por uma redoma de amor, são crianças como as outras. Atentos, brincalhões, reguilas quando é preciso, mas sobretudo bons alunos. Até podiam não ser, mas a verdade é que são alunos empenhados e com bons resultados. E posso atestá-lo pois sou encarregada de educação de sete deles.

Um dia destes, enquanto estavam na hora do recreio e eu visitava a escola que frequentam, uma menina do bairro, colega deles, acercou-se de mim e disse-me timidamente ao ouvido que gostava muito de morar com eles, no Lar Betel e pediu se a podia levar a conhecer a casa.

Fiquei por momentos sem reação e mil ideias me passaram pela cabeça. Que bonito mundo aquelas sete crianças devem habitar aos olhos dos colegas da escola, onde apesar de lhes faltar a figura de uma mãe e de um pai, de um lar e de uma rede familiar, transmitem a imagem de uma vida cheia de amor e de carinho. Um mundo onde aquela menina que me abordou, apesar de ter casa e família, gostava de entrar e viver.

Estas meninas e meninos, muitas vezes órfãs de pais vivos, necessitam urgentemente de ser reconhecidas e apoiadas por um Estado que as tem ignorado e deixado entregues à sua sorte. Porque a generosidade privada não garante a sustentabilidade de qualquer projeto. E aqui estamos a falar num projeto de vida. Mais concretamente, de quarenta vidas.

Afinal, como disse Amílcar Cabral,  “as crianças são as flores da nossa luta”, não são?

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