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Cidadania e Sociedade

ÓRFÃOS DE ATENÇÃO

Se me é permitido, aproveito a minha primeira crónica para fazer mea culpa.

Numa semana em que se comemora o dia Internacional da Criança, mais do que sobre os seus direitos fundamentais, importa refletir sobre as crianças que se tornaram órfãs não o sendo.

Todos nós nos deparamos, diariamente, com notícias sobre o flagelo da fome e da guerra. E muito bem, porque são temas que convém manter presentes, ainda que apenas para chorar algumas lágrimas na mesa do jantar, ou ordenar aos nossos filhos: come o que tens no prato, olha para aquelas crianças que estão a morrer com fome!

E estes são, provavelmente, dos poucos momentos em que nos sentimos pais durante um dia inteiro. Porque ser pai ou mãe sempre foi sinónimo de ser a autoridade. No entanto, como olharão os nossos filhos para uma autoridade que se refugia no telemóvel após um longo dia distante deles?

Tem sido amplamente debatido o tempo exagerado que as crianças passam entregues à escola, ao ATL e às atividades extracurriculares. Menos debatidos, têm sido temas como a sobrecarga de horas de trabalho e a pressão exercida pelas empresas sobre os trabalhadores. A acrescer a isto, e porque – aparentemente – nos vamos adaptando a uma sociedade em constante e rápida evolução, ignoramos inconscientemente os efeitos que esta evolução tem sobre nós.

No final de um dia de trabalho, o cansaço acumulado pode chegar a ser incapacitante, e impedir-nos de chegar a casa e ir “alegremente” jogar Monopoly ou brincar com Playmobil. Adicionemos a este estado de exaustão, o fogo direcionado de uma criança sedenta de atenção, que implora pela companhia dos pais. O nosso cérebro, já híper estimulado, reage muitas vezes com impaciência e até raiva. Obriga-nos frequentemente a reclamar – gritando – o nosso espaço e alguns momentos de sossego. E o cérebro da criança, também híper estimulado, e obrigado a doses nada homeopáticas de concentração em todas as atividades que lhe são impostas, reclama – muitas vezes ripostando de volta – a atenção dos pais.

Gera-se assim um fogo cruzado, ao qual sucumbimos finalmente enterrados no sofá com o telemóvel na mão. Anestesiados com a pesquisa de temas do nosso interesse, ou simplesmente com a vida virtual de desconhecidos, obrigamos as crianças a resignarem-se também elas ao telemóvel ou aos vídeo jogos. Na melhor das hipóteses, largos minutos mais tarde, relembramos que somos pais, que somos a autoridade, e vociferamos aos nossos filhos que chega de telemóvel. Mas não gostamos quando nos respondem que nós também passamos horas no telemóvel porque, afinal, a autoridade somos nós.

Facilmente, assoberbados por uma mini guerra civil dentro de quatro paredes, esquecemos que o nosso dever enquanto pais é educar, especialmente, pelo exemplo. Guardamos muitas vezes, numa gaveta bem trancada, o receio sobre qual será o futuro dos nossos filhos numa sociedade em que somos os seus principais alicerces.

Vale a pena refletir e definir, como ponto de partida, a nossa casa enquanto exemplo da nossa preocupação com os direitos das crianças. Vale a pena investir na urgência de fornecer aos nossos filhos as ferramentas necessárias para a que vivam, e não para que sobrevivam, numa sociedade que vai definhando e ensandecendo a um ritmo preocupante.

Convido todos vós a acompanharem-me nesta caminhada. Talvez apenas se faça premente a reorganização do nosso tempo e a priorização do que é, de facto, importante. Em jogo está nada menos do que a diferença entre a felicidade ou infelicidade daqueles que mais queremos ver felizes.

One thought on “ÓRFÃOS DE ATENÇÃO

  1. Uma abordagem que retrata a realidade existente dentro das quatro paredes de um infindável número de famílias. A era da geração “I”-( phone, pad… Quem os acode). A era da ausência de valores no seio da família e da sociedade. Valores valorizados apenas o são, os materiais. Muito bom e muito bem descrito o drama que é a incapacidade evidente de priorização no quotidiano, a qual fará sem dúvida a diferença entre aquilo que é viver, ou simplesmente sobreviver. Como em muitas outras coisas, quando abrirem os olhos já é tarde, mas que cansa tirar a areia dos olhos dessas pessoas, lá isso cansa e é inglório, pois, enquanto uns tiram, eles continuam a fazer a sua reposição. Parabéns.

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