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SOFRER COM VIDA

Uma certeza enorme que todos temos na vida é que um dia destes iremos morrer. Não sabemos quando, nem sempre como, mas sabemos que iremos morrer.

Nem sempre aproveitamos a vida como fantasiamos ou sonhamos. Nem sempre vivemos como desejamos.

O ser humano passa por diversas dificuldades, diversos problemas que por vezes até parecem não ter solução. Quem nunca sentiu um desânimo profundo ou desespero tão angustiante como olhar para um poço e não ver o seu fim?!

Claro que a decisão de pôr fim à vida tem que ser avaliada por uma equipa multidisciplinar e deve ser tomada em casos muito específicos. No entanto, da mesma forma que o aborto foi legalizado porque não se legaliza a eutanásia?

Considero que existe muito para fazer nos cuidados de saúde em relação sobretudo a doenças terminais, incapacitantes e nas demências.

Não há investimento nos cuidados paliativos, não existem locais especializados para colocarmos os “nossos”.

Não há apoio suficiente para os familiares, amigos e cuidadores. Não há apoio suficiente para os doentes.

Viver com sofrimento interno e externo é angustiante.

Existem vários casos:

Aquela pessoa que está acamada há 20 anos numa cama presa aos seus pensamentos e sem condições ou apoios suficientes… A sua esposa que sempre cuidou desta pessoa mas que com o tempo envelhece e já não consegue cuidar de alguém que tem o peso de “um morto”.

Muitas vezes ouvi dizer “senti que o meu pai estava a morrer aos bocadinhos”, “aquela já não é a minha mãe”. Ouvi também choros profundos porque é muito difícil ir fazendo o luto da pessoa que se ama enquanto ela está viva.

Aquela pessoa de 40, 50 anos que descobre que tem um tumor maligno e que num ápice, em meses, a sua vida muda drasticamente. Existe revolta, frustração, angústia e desespero e dores muitas dores.

Aquela pessoa cheia de vida que tem um acidente rodoviário e fica tetraplégica.

 Aquela pessoa que não consegue aproveitar a vida por causa das suas limitações. Que já se cansou de lutar e que os desejos que tem é que a deixem morrer e que os seus amados fiquem em paz e bem.

Aquela pessoa que sofre porque dá trabalho aos que ama. Porque a esposa tem que lhe dar banho, a filha tem de lhe mudar a fralda e não consegue exprimir por gesto o quanto ama a sua família. Esta pessoa muitas vezes pensa em silêncio “se eu pudesse, se eu me mexesse matava-me”.

Não esquecer que esta pessoa precisa sobretudo de apoio psicológico.

Aquelas e outras pessoas com histórias e circunstâncias de vida que não conseguem resolver, mudar ou dar a volta.

Estas histórias podem ter vários finais.

Conheci pessoas que curaram cancros, pessoas que morreram com cancros. Pessoas que viram e ouviram vários diagnósticos de morte ou de incapacidade: umas lutaram por outros diagnósticos e soluções e conseguiram, outras não. E ainda outras se renderam ao que ouviram.

Já ouvi falar em “milagres”, “Deus é grande” e já ouvi a expressão “Deus não existe!”.

Perceba-se que quando choramos a morte de uma pessoa, choramos porque a perdemos, por ela, mas também por nós mesmos. Que continuamos vivos e não queremos perder o que amamos. Chorámos com saudade.

 Ninguém está preparado para lidar com estas situações como estas. Ficamos emocionalmente afetados com o que acontece aos outros e aos nossos.

A questão final que agora coloco é: E se fosse comigo? E se fosse consigo? Se lhe acontecesse uma situação destas? A si mesmo? Ao seu corpo, à sua mente.

Acredito que há muito ainda a fazer na saúde e nos cuidados aos doentes e aos seus familiares.

Mas liberdade nas nossas opções de vida também nos dá maior responsabilidade para assumir a nossa tomada de decisões.


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