Cultura, Literatura e Filosofia

DOS REBANHOS

Um rebanho de ovelhas que é conduzido à  pastagem e usufrui do alimento verde e depois descansa, e mais tarde é levado para o redil, onde dorme, para repetir todos estes gestos no dia seguinte, não tem qualquer noção dos motivos que levam o dono a ter estes cuidados com elas. Pastam, porque necessitam do alimento. Descansam, porque o corpo lhes pede o repouso. Pastam, de novo, porque o ritmo cronológico da fome está nelas. E dormem pelas razões mais elementares da sobrevivência.
O rebanho que alveja nos prados é constituído por seres vivos. Iguais a nós que, de uma forma ou de outra, nos comportamos de maneira idêntica,  no que às necessidades fundamentais diz respeito. Vivemos. E a vida que em nós pulsa obedece a leis inexoráveis inscritas no  ADN, nas células,  no sangue,  nos órgãos que interagem no nosso corpo, no cérebro que comanda as nossas acções. Somos vida, organismo, corrente líquida bombeada pelo coração,  sinapses neuronais em constante interacção. 
Contrariamente às ovelhas que, em rebanho, pastam nos campos e nada sabem da sua origem ou do seu destino final, nós conhecemos a condição que nos faz apelidarmo-nos de humanos e temos, sobre essa condição, um certo controlo.
Sabemos que fomos gerados por um pai e por uma mãe e, por essa razão,  tornamo-nos parte de uma família, de uma sociedade, de um país,  de um povo, de um mundo. Sabemos que nos espera um tempo em que seremos educados, para um dia integramos  esse mundo, independentemente dos pais, da família e do contexto original.
Vivemos uma escalada de metas, de vitórias e de derrotas, acreditamos ter uma missão a cumprir, tentamos ascender ao topo construindo com fervor aquilo a que chamamos  a nossa existência. E sabemos, muito embora o obliteremos quotidianamente,  que um certo dia, não calendarizado, a vida cessará para nós. Essa circunstância sendo, irremediavelmente, o único auge, de facto, da nossa vida,  o único momento que, do futuro, podemos esperar com absoluta certeza, é,  contudo, transformado em miragem longínqua: qualquer um de nós vive cada dia, e o seguinte, e o seguinte ainda, como se fosse imortal.
As ovelhas nada sabem destas missões, tão humanas,  não as têm no seu mundo de pastagens e redis, ignoram totalmente que aqueles a quem devem o usufruto da erva e o abrigo tencionam transformá -las em alimento para si próprios, sacrificando -lhes a vida e  a dos seus filhos,  extraindo -lhes o leite e a lã. As ovelhas não têm uma história que possa dar delas um testemunho futuro, não sabem de quem nasceram e tão pouco que vão morrer. Vivem, somente,  não sabendo sequer que estão vivas. 
E nós,  humanos, temos todo um passado de muitas gerações a pesar sobre nós como marca e genealogia, evoluímos e transformámo -nos, a nós e ao habitáculo que nos serve de morada, cremo-nos infinitamente superiores ao rebanho que pasta e sentimo -nos no direito de alterar as leis da vida.
Não percebemos que a nossa existência,  empolada e glorificada em numerosos tratados de história, é tão insignificante perante a infinitude de tudo aquilo que nos escapa que pode estabelecer -se ao mesmo nível das reses que pastam. E para sempre ignoraremos o que sente o animal que pontilha de branco os nossos campos até ser esfaqueado pela nossa gula, tão humana. Dizemos que eles não sabem nada, que não pensam, que lhes  basta um pouco de alimento,  de água e um abrigo. Achamo – nos no direito de fazermos a apropriação, nunca consentida, dos seus corações que pulsam, dos seus órgãos que lhes garantem o equilíbrio fisico, das suas mentes munidas de um cérebro e de sinapses homólogas das nossas.
A verdade é que nada sabemos acerca desses seres que, bárbara e traiçoeiramente, arrastamos connosco em estrita dependência, despertando neles ignotas emoções e imprevistos sentimentos. 
Nada sabemos da vida, portanto.
 A história é um mito construído por todos os que nos precederam e a que daremos alimento mais para além. As missões humanas são lendas inventadas por iluminados ou dementes e permitem – nos viver como se contássemos, como se a nossa pegada terrestre fizesse sentido. A imortalidade, esse paradoxo desmentido diariamente pela morte que acontece aos outros, rasga – nos um horizonte e impele – nos a dar graças. A consciência cria sonhos de clarividência que não passam de logros, nem sempre desmentidos : porque também temos o negrume da inconsciência a toldar o esclarecimento. Somos uma anedota minúscula na vastidão insuspeitada do universo, um meteoro fugaz e transitório,  um equívoco para nós próprios. E degeneramos. 
Se tivéssemos um olhar tão acutilante quanto supomos, sentiríamos a iminência da nossa derrocada milenar, saberíamos que somos seres destinados à consumpção e prestaríamos atenção aos sinais. Se a nossa consciência fosse tão arguta  quanto estamos propensos a considerar,  saberíamos que de muito pouca valia é esta vida para a qual vamos forçando um sentido superior. Se o nosso destino estivesse escrito no grande livro do Tempo, decerto seríamos capazes de travar a morte, acedendo à eternidade. 
Assim, não valemos mais que o rebanho de ovelhas que pacificamente pasta, ignorando a faca do sacrifício: também para nós, por mais que façamos, virá a imolação e o fim, de que talvez não venha a rezar a história.   

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