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Cultura, Literatura e Filosofia

A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO SEXTO

Velhice. Envergonhada nada. Dadas as mãos. Desobedientes, sem erguido punho, plenos são os sorrisos, contando cada ontem, cabendo na envergadura do hoje, semeando a continuidade das vozes que ali se alistam, se orquestram e que faltaram ao solfejo impingido por outrem que da prática nada arremessou para perfeito agarrar em habitado momento.

Olham-se. Bonito olhar o nosso ante musculada, terna, embora rugosa, sensibilidade para com o Outro. Aquele que sem existência sua, aconchegaria nunca cabeça pousada em ombro, capaz de sustentar nem tudo o que anseia da vida.

Dialogavam, insonoros, sem se demoverem do propósito primeiro. O estar. Poderemos nós imaginar a simplicidade desse estado, reduzi-lo a uma minudência do dia que se estende debaixo do comodismo de muitos. Complexo será concluir quando e como o fizemos ou poderemos vir a copiar de tão estimados seres que ali, sem preocupação alguma que adorne a embarcação que lhes permite feliz e serena navegação, não se interrogam das adversidades de toda uma vida que foi encarecendo a humildade e o abraço simples, num toque que se afasta por inação de um regateio.

Desenhada a igreja que se impunha como símbolo geográfico, não requerendo mais que aquele espaço, coabitando com restante indumentária que, juntamente com quem os habitava, recortavam, sem criados setores, uma ilha que se reterritorializava a cada humana aproximação. Sinónimo de querer crescer sem demasiada obesidade ou dietas outras que espelham uma irrealidade que em nada satisfaz a coerência e a singularidade do que falamos.

Os olhares que ali não se cruzavam, cruzando-se, formavam terna gramática, não decorada, mas sabida existente. Na prática, sem discorrer pelos sujeitos que dispunham, erro algum temiam. Passo seguinte redecorava o trabalhado em sintonia com o sentido.

Aproximava-se hora de saída de outros que em alvorada nascidos para novo dia, deslocaram-se ao interior de igreja decorada a duas cores. Singela, humilde, capaz de abraçar um sem número de vontades. Do exterior ouviam uma voz que se fazia arredondar em regaço dos presentes, mas extraindo um pouco muito de si para os que se ausentavam do interior, prescindindo em nada do embalar que para eles lúcido se fazia.

Sem tumulto algum causado, entorpecimento nenhum, a rebate o sino tocou. Corpo este, integrante, dentro sinal de vida salienta, tocando, rasando, interior seu. Sentindo-o como que de coração substituto, sem arritmias, mas cessando a cada indisposição para marcação de inferiores escalas. De sineira torre olhava a velhice que lhe sorria, certo de que em sintonia estava com a cadência que decidida foi por carinhoso casal.

Aquele sino toca na disciplina que em idos tempos lhe ensinaram. Estes que hoje o sentem, em si, não copiam. Adeptos de uma indisciplina o são e optam por a idade celebrar com faina de afetos a que se atiram diariamente. Não ligam ao sumariado em escolar caderno, em estórias contadas, recontadas, até à exaustão que nem um balir permite, tamanha a repetitiva cadência e os sucessivos apontamentos que se impõem, como que de pura matemática. Operações que hoje em velórios se identificam e recomendados em nada o são, nem que seja pela inexistência de gotículas oriundas de emoções que se despediram perante a precariedade de celebrado vínculo.

Apropinquou-se o menino que qualquer um de nós o pode ser, se nos despirmos de coisas muitas que nos obnubilam e transportam para um individualismo inútil por castração pecador de uma universalidade do sentir e do assemelhar.

Menino este que lhes soprou perto do coração, quando digo perto entendam-me muito muito perto, como que segredando o maior mistério do mundo, mesmo que pequeno seu o seja, mas que crescendo, significará um todo vivido e não menos importante pegada.

Momento de reencontro de gerações em nada distantes quando medida a sua cumplicidade. Braços de tão pequenos que a vontade e o amor aumentam quando se trata de abarcar dois velhos que nutrem por ele a profundidade de sereno mar. E de pagaias em riste, serão braços seus, equilibrados em embarcação de suficiente porte, deslizar por sua liquefeita carne.

Águas em leito dispostas. Um desconhecido sem temor. Tocante, céus que se rasam. Olho. Tudo espelha. Não eu. Confiança, respeito, sinto. Nele, a descoberta contínua, truncada, sempre, em terra, como mar olhado. Planos os mesmos que isto de se ser humano ainda muito tem para decifrar, distante de mágicas artes, que essas quota-parte recusam na adivinhação do que só humana conduta pode fazer prevalecer.

Respeitado foi o lambuzar interno do sino que se amedrontava facilmente com o silêncio ensurdecedor do emotivo que se dispunha em plataforma longe de enigmas e se vestia de uma nudez que encandeava, certo é, ainda, mentes outras que deambulavam pelo dia como se finitude de existência sua fosse programada política, condicionada por um nada que se fazia tudo, embalado por um não-ser, mesmo de dispostas munições em armeiro em si embutido.

No dizer, não o que diz-que-disse, bem do alto de tão estimada torre, outro se insurgia, apelando à necessidade de deslocação para o que seria mais um dos momentos que enternecia qualquer ocular visitante, quanto mais quem no seio desse berço compactuava com a felicidade e a simples entrega do que se sabe, pedindo em troca o que se pode vir a saber, assomando à sua paleta emocional, novas formas de embelezar o que nos rodeia.

Felizes iletrados, cátedra nenhuma, na indisciplinada arte das emoções. Quando falante, não se permitia os dois pontos parágrafo travessão, não olvidados os dois dedos que nos afastam das margens, onde letra desenhada significa o que vocal cordeamento labora.

Não que reneguem, esqueçam, camadas outras que os indumentam e que, muitas as vezes, em nada ou pouco acrescem ao esboçado. Mas de interesse secundário, perante a imensidão do que vivem.

A identidade está nestas pessoas que se humanizam e não mecanizam. Que trazem ao agora, sempre, os seus costumes e hábitos, beatos nada na sua execução, sabendo novas que se chegam e de boa-fé dispõem no tabuleiro as peças que ao coletivo sentem pertencer e olvidadas em nada devem ser.

Corpos erguidos, a custo menor do que poderemos equacionar, isto se nos reduzirmos a contas como tendenciosamente temos vindo a colocar, como réus, os que não nos servem e no horizonte mais nada têm do que aceitar uma condição que não coaduna com uma realidade a nu olho demarcada.

Dizia então que bonito casal, já sem a cadência do batimento sineiro, se levantou da pedra onde puxam o outrora para o presente, vivendo-o. Acompanhemos sua demanda, sem derivação alguma, por muito que o facilitismo do dia nos entapete e sobrevoe pensamento nosso, considerado de valor roliço.

Menos de duas mãos de idade contadas se enlaçavam aos avós. Não desprendiam do desassossego do amor, como que sabendo que por muito que os esmiuçasse não se demitiam de horizontal cargo para o qual admissão alguma requerida fora. Digam o que disserem, se escutarmos o pensamento comum de emocional triunvirato sabemos, celeremente, que o escamar de cronológico friso atenua fatia maior da esperança do que limítrofe se posiciona.

Reescrevemos, reescrevemo-nos, em sebenta nova não, outra em caixa em sótão colocada, mas passível de rasura, para que não se esqueça o que infligimos no simples decorrer da existência com adornos que foram alfinetando, suprimindo a beleza da criação aliada à não saturação do que enfeza potencial aprendizagem.

Sem criado balão de oxigénio, como corre no discurso que se debate por saída limpa, sabendo-a difícil perante camadas acrescidas do que não se melhora, mas sobrepõe, vemo-nos sentados agora, junto a três seres que profundamente se amam com a força criadora de um mundo que não necessitava de sete dias para se edificar. O instante, nos instantes, lhes bastavam.

As gerações que ali determinavam um momento que não se ausentaria do que embrulho e recolho em berço que embalo junto ao coração, somavam ao coletivo a identidade que os carateriza. Não nos descuidemos para as ruas das novas-cidades. Do que aqui pisamos suavemente e com a possibilidade de respirar um tempo que labora no tempo, que se respeita enquanto tal, não magica o que em truques citadinos nos leva a prolongar um sim como se o seu oposto violação fosse num dicionário que se impõe por necessidade de organizar o que em caos se quer liberto.

Oficina que aproxima, que prescinde do sussurrar, quando nos gestos se traduz o respeito pela condição humana em plenitude sua. Trocam-se sorrisos como que competências de importância extrema para uma linha de montagem em fabril edifício. Partilham-se olhares que absorvem o que de melhor cada um em si transporta, catapultando para coletiva esfera a esperança de uma comunidade que caminha, incansavelmente, por trilhos de uma fé que não se regateia em mercado que em bancadas dispõe secundários interesses, que não os de um todo.

Mesas que se estendem no interior de habitação, lar outro, onde se conjugam cores que constroem dorsal de uma mascote que apela a quem por bem os visita o discorrer de um dia que se entende desde a alvorada que lhe serve de costado. Na amura de criativa embarcação frequenta-se uma demanda por valores que se entendem por básicos, nucleares, à compreensão da alteridade.

Cada compartimento, que não permite estanqueidade, segregação em cíclica anulação, mesmo que anteparas sujeitas estejam a situações que tentem protelar horizonte que os ilumina para este objetivo, significa a vontade, a vontade, a vontade, que aliada ao saber ser tracejam em humana carta um percurso que considera o ser humano na sua amplitude, estática nada, subserviência nenhuma, perante o adverso.

Contadas as estórias, acrescidas as vírgulas, pausas as que sentidas são por necessárias no discorrer do discurso de pele segunda, de afetos, que se entende no comum viver como pele-de-galinha.

Sorrisos que se desenham, não canso, não canso, não canso, de vos lembrar. Como recusar este entendimento do real quando em mim réplicas dos mesmos sentidas são. Meus braços disponho em peito rasurado por uma dor que aqui, sereno o circundante, se cose. Não migra, apesar de refletir sobre esquivas outras. Mantem um sentimental patriotismo que, sem definido hino, pressente que ali mora, pontuando, nem sempre em paralelismo com a oralidade que se vinca, entrelaçando linha que costura, sem questão demais.

A igualdade ao nível dos porquês está latente porta sim porta sim, não escolhendo estatuto ou idade. O impulsivo porquê laborado por qualquer uma destas crianças, mesmo aquela que ali, num dos cantos, mesa sete, ladeado por duas avós, uma sua, e outra que não sua, sua é, se esconde atrás de densa folha, imitando a espontaneidade em cada recorte materializado, impressão sua. A jusante da labuta, exemplar único. A soma de todas as partes que ali se constituem. A qualquer um podemos atribuir estatuto de autor.

Oficina de operários que hierarquia chamada não é. Oficina de velhos e menos velhos, crianças os chamam. Rugas que se ruborizam cada vez menos e se mostram sem receio de reflexo seu em imaginado espelho. Sabem-se capazes de um pouco que muito é. E os porquês afluem a uma superfície, não polida, mas onde cabem todos os porquês do mundo, mesmo que a cada velho ali sentado o recriminem por tal estado contínuo de interrogação que nada mais é do que estar interessado na condição em que se encontra, assim como aqueles, de estatura baixa, crianças de porquês atribuídos por simples tese.

Madura carne a desta voz, ouço-a, não sei se a conseguem entender, envelhecida pela repetição, de sussurros não, do quanto em muito amava miúdo aquele. Seu. Tão seu. Base uma relação, parasitismo nenhum, que fomenta a plena transmissão para si enquanto família e comunidade o muito que em uníssono podem conceber, mesclando a pluralidade que celebram e lhes serve de aconchego aquando da tentativa de bicho-menos-bom de uma solidão que os sidera ante a possibilidade de ação e transformação e alteração de paradigmas, nunca, arranhando a garganta que se estende do seu pensamento à terra que os promete como operários dos afetos, no contíguo que avós e netos escavam.

Se ser criança, em pueril estado de incerteza, incógnito, é estar obeso de porquês que nem sempre respondem a regras de trânsito do débito de palavras que se aproxima de rotunda das mais diversas ruas gramaticais, exijo sê-la, mas em tamanho maior, sendo velho, velhinho muito, rugosa a pele, douto em afetos.

Condição bonita esta a que chegamos, escrevendo-me em outros que amenizam em nada o impulso de viver. Casa de fados esta em que em quadrada mesa, acompanhado das memórias, aplaudo quem com suas lágrimas de sinceridade embate contra a embarcação a que pertenço, a que sou, em mares mesmo que nunca dantes navegados, navegados.

Com que voz amália esta, de erguido queixo, fechados os olhos, lacrimejando fado seu, despontava em cada fértil coração a panóplia de pensamentos que nos percorre, na lucidez que nos exigimos, não obstante aquela pele que vos falo, e que por mim fala, decidida em não me desabitar mesmo que ordem de despejo outorgada tenha sido. Acudam-me. Só, não sou.

Com que voz vos diria o inverso se o real que sinto, pressinto, me preenche, se faz audaz e pontua uma diáspora do que para mim pretendo.

Em oficina aquela alicerces muitos, não peçam que visíveis, são edificados. Tomara ser criança e velho em tempo o mesmo. Mas também o posso ser, paredes-meias e sentir, ou não, o vertebrar pleno da felicidade no decorrer de um todo que significará as partes.

Fecho a porta. Lentamente. Olhando-os, sentindo-me, ainda, sentado entre eles. Sei que levarão a candeia até aos seus lares e lá continuarão o que sucumbirá jamais a precário trabalho. Sabem que o cerrar de olhos em seus leitos é um acento na felicidade que partilham na oficina maior que é esta que percorremos pelos mais ínfimos quelhos que a constituem.

Ainda de soslaio, olho-os, olhando-me. Já não estou. Até aqui me trouxe.

Leio a certeza do quão bom é partilhar geracionais instantes. Envelhecê-los. Fazendo-os engordar de tal modo que mesmo assim impossível seria rasar mundanos limites, sem qualquer mendicidade associada à locomoção dos sonhos que têm nos calcanhares a ferocidade com que os seus ama.

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