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LER INTENSAMENTE EM LISBOA E NA SERTÃ

Criaturas tímidas e caladas ainda que algumas vistosas, embelezadores de estantes, pesos na mala, recursos para quando não se consegue adormecer, ocupação enquanto se espera por consultas e companheiros de viagens no metro, poderão ser estas formas de descrever os livros.

Nos seus dias perfeitos os livros, perante curiosos, apaixonados ou gente perdida, abrem-se por duas mãos que os parecem lançar ao ar como se pássaros fossem, através de uma leitura em voz alta. E embora seja, por vezes, nossa intenção irmos para dentro deles, como escape, eles revogam sempre o direito à realidade. Ganham som, corpo, vida e vontade, expandido-se perante multidões seja através de ensinamentos ou enquanto lembranças. Falam, respondem, guiam, são sentidos como verdade.

Há eventos que mudam o tom e o olhar como falamos e vemos os livros. Caso houvesse uma rota dos livros nacional para leitores insaciáveis, teriam dela de fazer parte a Noite da Literatura Europeia (NLE) (9JUN), em Lisboa, e a maior maratona de Leitura de Portugal, a Maratona da Leitura na Sertã – 24 Horas a Ler (7JUL).

Muito une estes dois eventos. Os livros servem de motor para conhecer um lugar, as suas ruas, edifícios e património; e, actores, contadores de histórias e autores são os que através da sua arte impulsionam os textos a deixarem de estar só no papel. Este ano até a escolha do lugar que recebe a NLE, o Bairro Alto, se aparenta, pelas suas ruas estreitas e calçadas, à zona histórica da Sertã. Pela nobre causa de projectar a palavra calada têm muito em comum o Seminário das Missões de Cernache do Bonjardim e o lisboeta Convento dos Cardaes, a capela de Santa Maria Madalena no cimo da Serra de São Macário e a igreja barroca de Nossa Senhora de Jesus no Bairro Alto, o Atelier Túlio Vitorino e o Atelier Museu Júlio Pomar, entre outros.

Mas também há grandes diferenças. A participação da população na Maratona da Leitura é mais activa dado que qualquer um pode aparecer e ler um excerto de um livro ou uma poesia enquanto em Lisboa são apenas 14 os livros (cada um de um diferente país) que irão ter a possibilidade de serem interpretados por artistas com experiência e já todos definidos.

Este ano, na sua sexta edição, a NLE tem início às 18H no Liceu Passos Manuel e, após as leituras de 10 a 15 minutos cada, os livros vão ser arrumados às 23H30. Já a Sertã promete desarrumar estantes à meia noite do dia 7 de Julho e só terminar quando passarem 1440 minutos, numa maratona que se repete há sete anos. No concelho da Sertã estarão presentes quase 20 convidados, entre os quais Valter Hugo Mãe, Pedro Lamares, David Machado, Mafalda Magalhães ou Jorge Serafim. Haverá também bibliotecas itinerantes e contadores de histórias de vários pontos do país a chegar até aos mais isolados lugares do concelho para que a todo o lado chegue a palavra lida. Será mais uma vez o regresso a um tempo antigo feito de partilha de histórias e de oralidade.

A partilha nestes dois dias, em lugares geograficamente distantes, um rural, outro citadino, não é unilateral porque quem vai ao encontro de tais momentos entrega também o seu espanto, deixa a sua opinião, e leva para entregar a outros estas suas experiências, alastrando ainda mais o poder destas criaturas aparentemente passivas.

Claro que existem muitos eventos idênticos no nosso Portugal, mas estes dois distinguem-se por fazerem coincidir história, passeio, arte, turismo e livros. Uma mistura que provoca um turismo literário que vai ao encontro daquilo que leva à escrita, que retoma o princípio da criação, que mexe com a energia estática dos dias: a inspiração.

E, chegado o fim de qualquer um destes dias, quem visita vai para casa com milhentas histórias que se entrelaçaram durante horas, e ainda antes de apagar a luz não consegue não abrir um livro de que se lembrou entre tanta narrativa, ou outro que estava parado ou ainda um outro que não encetou,

e mais um pouco,

e mais um bocado,

e promete de si para si:

“Só mais uma página”.

“(…) a leitura é um modo de acção. Convocamos a presença, a voz do livro. Deixamo-lo entrar, ainda que com cautela, na nossa intimidade”George Steiner.

Dedicatória de Valter Hugo Mãe numa edição anterior d’”A  Maratona da Leitura” na Sertã

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