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Cidadania e Sociedade

O ECLETISMO DA FEIRA DO LIVRO

Recordo com saudade as minhas visitas à Feira do Livro, quando era pouco mais do que criança. Natal outra vez, mas em tempo quente. Sacos com livros, que devorava avidamente em poucas semanas. Escolhi muitas vezes clássicos, pouco habituais nas preferências dos meus pares.

Décadas depois, tento proporcionar aos meus filhos a mesma experiência e desejo que a vivam com a mesma intensidade.

Este fim de semana gostei de os ver ansiosos com o passeio à Feira do Livro, mesmo que essa agitação fosse motivada pela presença de um auto proclamado youtuber. Sinais de que a “velhinha” Feira do Livro tem rejuvenescido e se vai adaptando à evolução, primando pelo ecletismo. Se os youtubers levam crianças e adolescentes a visitar a feira, a passar os olhos pelos stands e a apreciar alguns livros, talvez a sua presença seja válida.

No início da tarde, já com o livro do Dark Frame debaixo do braço, juntamo-nos a uma fila, ainda modesta, mas que se adivinha promissora com o passar dos minutos. Atrevo-me – com gosto – a deixar a família na fila enquanto vou apreciar o que, de fato, me interessa na feira: bons livros, de preferência com bons descontos. Sinto que estou numa loja de doces e sou diabética. Já gastei cerca de cinquenta euros em “livros” para os meus filhos. Para mim, reduzo as aspirações a um ou dois.

Descubro que o António Lobo Antunes estará a autografar, não resisto. Compro mais um de Haruki Murakami. Estou semi feliz. Vi pelo menos mais cinco livros, na minha curta ronda, que mereciam ir comigo para casa. Nada feito, está na hora de regressar à fila mais concorrida da feira.

Quando regresso ao espaço de autógrafos do Dark, deparo-me com uma fila já bem composta, com centenas de pessoas. Vejo crianças com pouco mais de três anos, e um crescendo de outras crianças que já roçam a adolescência. Alguns vestidos de escuteiros, outros com cabelos azuis. Os pais suspiram num ambiente de cumplicidade. Vão fazendo comentários jocosos sobre a validade do “escritor” em questão, e sorriem resignados. Tudo em prol dos filhos, a quem é difícil privar de um fenómeno a esta escala, num mundo que vai evoluíndo no sentido errado.

Aproveito para folhear o livro de “Experiências e Factos Bizzaros”. Inofensivo – considerei – e com páginas de cores apelativas. Nenhum conteúdo literário de valor, tal como esperava. Qualquer criança de dez anos, habilitada a fazer pesquisas no Google, poderia tê-lo escrito.

Chega, finalmente, a “estrela da companhia” motivando os gritinhos de algumas meninas. Felizmente, não demorou muito até que chegasse a vez dos meus filhos. Rapaz simpático e paciente, assinou o livro e tirou uma foto. Compreende-se  a simpatia e a paciência quando um letreiro exposto no stand anuncia que já vendeu perto de cinquenta mil livros. Consta que os youtubers movimentam milhões, têm um empresário a gerir-lhes a “carreira” e vivem em moradias luxuosas.

Despachadas as hostes, chega a minha vez. Rumamos a mais uma fila, onde as crianças trocam de papel comigo. Desta vez, sou eu a interessada e elas as impacientes. António Lobo Antunes origina uma fila mais modesta, mas ainda assim longa. Chega a hora marcada para a sessão de autógrafos, mas o escritor não chega, nem à hora e nem nos quarenta minutos seguintes. A fila vai crescendo e a impaciência dos admiradores e dos meus filhos cresce ao mesmo ritmo. Chega finalmente, calmamente. Visita o stand da editora, cumprimenta amigos, tira fotos, enquanto a fila vai protestando que podia cumprir os protocolos mais tarde.

Alguns consagrados autores passaram uma hora, sentados no espaço de autógrafos, e nem um “rabisco” fizeram. Pergunto-me, quão frustrante será pensar que os youtubers movem centenas de pessoas numa tarde em que eles não movem nem uma. São escritores, escrevem conteúdos de qualidade para públicos variados, e não existe uma única pessoa na fila.

Enquanto me perco nestas divagações, António Lobo Antunes vai recebendo as pessoas à minha frente e, desta vez, os comentários jocosos são dele. Diz a uma adolescente com uma argola no nariz que aquilo é feio. Pergunta à mãe dela como é que se assoa. O estatuto assim lho permite, sem que os admiradores se ofendam. As suas interlocutoras limitam-se a sorrir.

Sento-me, finalmente, à frente dessa figura incontornável da literatura portuguesa, algo receosa pela tatuagem que tenho no braço. Limita-se a referir que tenho dois filhos. Sim, tenho dois filhos, que acabaram de vir de uma sessão de autógrafos com um youtuber de cabelo azul – pensei – o que lhe diria?

Daniel Pennac, nos “Direitos Inalienáveis do Leitor”, diz que o leitor tem o direito de ler, não importa o quê. Assim seja.

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