Cultura, Literatura e Filosofia

O EXTRAORDINÁRIO

Certo dia, estava eu em casa, numa altura em que sentia-me um pouco sozinho, algo perdido e sem rumo, quando recebo uma chamada. Disseram-me que andavam à procura de alguém com grandes capacidades para um concurso intitulado de “Os Extraordinários”, que passava na RTP1. Estavam a precisar de um maestro jovem e lá encontraram o meu nome, para meu espanto. Na altura, fiquei quase sem saber o que dizer, porque queria primeiro perceber do que é que o concurso se tratava e o que poderia fazer se participasse.

Existiu sempre algo na Música que me ajudou, a minha rara capacidade de ter “ouvido absoluto”, de conseguir reconhecer uma nota musical sem qualquer tipo de referência. Pensei para mim que poderia ser engraçado fazer alguma prova que testasse esta capacidade, recorrendo a sons do nosso dia-a-dia e trazer todas as pessoas para dentro do modo como ouço o mundo todos os dias. E assim foi… Aceitei o desafio. Admito, não seria algo que faria sozinho, nunca teria pensado em participar em algo do género ou mostrar este tipo de capacidades para ninguém, mas algo fez-me andar para a frente e arriscar.

Tudo começou a ser organizado. Combinamos uma data para gravar um vídeo de apresentação. De repente, vejo uma equipa com imensas câmeras, na minha terra, Cete, e eu era o foco da sua atenção. Foi uma sensação estranha, sentia-me um modelo, a experimentar diferentes poses, diferentes andares, a tentar mostrar o meu melhor lado, que é sem dúvida o esquerdo, para me apresentar ao País. Até aí, toda esta experiência estava a ser diferente, mas não sabia a nada ainda, parecia tudo plasticidade para o Mundo ver.

Eis que chegou o dia… Toda a família quis vir, queria ver ao vivo o seu menino já crescido e barbudo na televisão. Viajamos durante horas, chegamos à Capital e entramos nos estúdios da RTP. Aí, encontrei-me com os restantes concorrentes, pessoas de capacidade incríveis, calculo mental fora de série, memória fotográfica, mas acima de tudo, pessoas com uma simplicidade e um bem estar que me deixaram muito à vontade, em especial a menina Francisca, que queria sempre alguém para brincar, e lá estava eu com ela. Sem ela saber, foi muito importante para mim que a sua ingenuidade pura me levasse a estar relaxado e feliz por lá estar.

Finalmente, chegava o momento. Estou prestes a entrar no Palco, algo que para mim foi sempre uma casa, mas aqui era diferente. Não tinha uma Flauta, não tinha uma Batuta, não tinha uma base para me sustentar. Tive algum tempo para olhar para o público, algo que nunca tinha feito até agora, e enquanto passava o meu vídeo de apresentação, olhei e vi toda a minha família. Os meus pais muito babados, as tias e os tios com orgulho imenso e o meu ídolo com um sorriso rasgado. Sim, o meu ídolo estava lá, o meu avô. Graças a ele, comecei a dar os meus primeiros passos na Música. Tudo o que ele queria, era que o seu neto fosse músico da Banda de Cete, juntamente com os seus filhos. Essa experiência foi a melhor coisa que alguma vez me poderia ter acontecido e devo tudo a ele. Ao ver a minha família assim, toda unida só para me ver, tinha a base que precisava.

Entrei confiante, sem receio, e nada intimidado pelo facto da Sílvia Alberto ser tão alta como eu. Tudo foi perfeito, acertei em todas as perguntas da minha prova, ouvi os gritos do público, escutei as palavras do júri e fiz o que queria fazer, mostrei a minha capacidade ao País. Ganhar nunca passou pela minha mente. Classificar talentos tão diversos é imensamente subjetivo, e fica sempre ao critério de quem vê. O júri colocou me nos finalistas, o público decidiu que tinha chegado ali a minha vez e o programa chegou ao fim. Não sabia é que mais estava para vir.

Passados quatro meses, o programa passa na televisão. Nunca tinha percebido a importância que tinha para algumas pessoas até chegar esse momento. Sou bombardeado com chamadas de amigos e familiares a dizerem que estavam orgulhosos de mim, com mensagens de professores que sempre acreditaram em mim a dizer como foste sempre especial e que mereces tudo, com encontros com pessoas de Cete a dizerem que tinham imenso orgulho em que fosses Cetense e não tivesses medo de o dizer na televisão. Enfim, durante dias, fui a “estrela” deste pequeno mundo.

Nunca pensei que algo que para mim parecia mais um dia qualquer, uma nova experiência, fosse tocar tanta gente, e aí percebi… “O Extraordinário” que apareceu na televisão não foi sozinho, foi representar todas as pessoas que alguma vez lhe disseram tu és capaz e lhe deram sempre tudo o que ele precisava. Todo o carinho, todo o sacrifício, tudo só para ver “O Extraordinário” ser alguém na vida. Ele nunca esteve sozinho, nem nunca estará. Não ganhei, mas aprendi algo mais importante, que o meu Mundo é muito mais claro e luminoso do que o que os meus olhos me transpareciam e a cada dia que passa, vou-me sentindo cada vez mais feliz. Uma experiência que na sua génese parecia ser mais plástica que outra coisa, trouxe-me muito, fazendo-me perceber que estou onde estou porque lutei por isso não sozinho, mas ao lado de um batalhão de pessoas incríveis. Somos Extraordinários!

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