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AS DRAMÁTICAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Na Guiné-Bissau o clima é tropical e tem duas estações distintas: a época seca, de novembro a meados de maio e a época das chuvas, que se vive agora e que dura até final de outubro.
Na Guiné diz-se aliás, que a primeira chuva chega no 15 de maio e a última é no primeiro de novembro, por isso lhe chamam a chuva lava cruzes.
Ao longo dos últimos 10 anos já vi de tudo um pouco. Vi chuva a chegar de facto a 15 de maio e grandes temporais na noite de 31 de outubro para 1 de novembro. Mas também já me caíram pingos em cima em final de Dezembro e até uma molha a sério apanhei no dia dos namorados no ano passado.
Estamos agora em tempo de chuva. Aquela chuva que teve o dom de me ligar à Guiné em 2008 quando lá aterrei em noite de temporal de agosto e que me acompanhou durante toda a minha estadia. Entre lama e muitas estradas intransitáveis, ficou para sempre marcada na minha memória a imagem das crianças a soltar gargalhadas de felicidade enquanto apanhavam rajadas de água debaixo das caleiras das casas das ruas por onde brincavam, com a roupa toda colada ao corpo e encharcados dos pés à cabeça. Só quem conhece aquele calor e aquela humidade percebe o sabor destes banhos. E a chuva, essa, já se sabe sempre quando chega. Vê-se um raio ou outro lá ao fundo, ouve-se o rugir do trovão. Chega então o vento a soprar-nos aos ouvidos o aviso da sua chegada. Entre o fenómeno do raio e o primeiro pingo de chuva, talvez passem uns 10 minutos, que dão tempo a quem quiser recolher. E aí começa o bonito espetáculo da natureza com um barulho ensurdecedor e os miúdos aos gritinhos estridentes de alegria a recolher pingos de chuva pelas ruas fora. Quando esta se vai, o calor pesado permanece e logo as roupas coladas ao corpo começam a secar.
Talvez por isso eu tenha voltado lá todos os meses de agosto desde então, e me delicie sempre com esta imagem, como se fosse a primeira vez. Esta alegria em estado puro, este agradecimento genuíno pelo que recebem da natureza, com o sorriso estampado no rosto em contraste com o negro profundo dos seus olhos é para mim a imagem de marca das crianças guineenses.

Mas um fenómeno que se vem a verificar desde 2014 perturba esta época tão necessária quanto inevitável na Guiné. A chuva aparece agora acompanhada com fortíssimas rajadas de vento e tempestades fortes que eram desconhecidas por aquelas bandas e ainda ninguém se mostrou capaz de explicar tal fenómeno. Alterações climáticas? Talvez seja a resposta mais plausível e também a mais fácil para justificar os dramas que se têm vindo a registar.

Num país onde maioria das habitações são construções frágeis com telhados de zinco, fácil é imaginar o drama quando um fenómeno meteorológico destes se verifica. E foi o que sucedeu há menos de uma semana. A chuva e o vento chegaram com uma força anormal e mataram 3 pessoas – duas crianças que ficaram soterradas e um adulto que morreu electrocutado (irónica morrer assim num país onde a energia eléctrica ainda continua a ser um bem a que poucos acedem e nenhum a garante de forma ininterrupta) e destruíram quase 1000 casas. Tendo em consideração que o número médio de elementos por agregado familiar na Guiné é de 8,3, segundo dados estatísticos de 2014, não é muito difícil concluir que estamos perante uma enorme tragédia social e material.

Neste momento ainda se avaliam estragos e a população lá vai tentando erguer de novo os seus lares, num instinto de sobrevivência natural em quem está habituado a lutar por cada pedacinho de pão e de paz que consegue juntar em casa. Quem ficou sem as paredes recorre ao abrigo generoso de familiares e amigos. Quem não tem dinheiro para as chapas de zinco, remedeia-se tapando os buracos com oleados. Quem não consegue juntar o necessário para blocos de cimento, recorre à tradicional construção de adobe. E assim se vão tentando organizar para aguentar os quatros meses de chuva que ainda os esperam pela frente.
Esta chuva, tão necessária para irrigar os férteis campos da Guiné e responsável por tantos momentos de alegria tornou-se também ela, fonte de dor e de preocupações que exigem uma atenção redobrada das autoridades. Para que mais nenhuma criança morra sob o peso da chuva que a devia fazer viver. E feliz.


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