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Cidadania e Sociedade

QUANTO TEMPO DURA UMA TRADIÇÃO?

Numa diversidade imensa de povos no nosso planeta, cada um tem a sua cultura, seus costumes, hábitos, misticismos, “estórias,” músicas, danças, tradições, etc. Assim como cada ser humano é único e irrepetível, cada povo possui uma “individualidade coletiva única”, que apesar da globalização “forçada” de hoje, procura manter. Nesse sentido, cada vez mais o Património Cultural da Humanidade, seja material ou imaterial, é valorizado e reconhecido.   

Assim como os nossos hábitos e tendências individuais devem ser repensados, fruto da nossa evolução e desenvolvimento integral entretanto adquirido, algo semelhante deverá ocorrer com hábitos, costumes e tradições dos povos e coletividades, à luz do conhecimento e consciencialização atual. Deixar de fazer sentido a prática de algumas tradições, significa isso mesmo, ou seja, mesmo que se pratique esse hábito ou tradição, ele efetivamente “já não é sentido nem vivido com paixão pela maioria da população dessa coletividade” e só se faz por mera repetição e por não haver “coragem” para “alguém” dizer, basta!

No início de julho vai ser apresentado na Assembleia da República um Projeto-Lei que determina a abolição de corridas de touros em Portugal, as ditas touradas. Curiosamente chamar tradição às “Touradas” pode apresentar alguma incorreção, pois ao longo dos últimos séculos estiveram praticamente ausentes inúmeras vezes em Portugal. Apenas como curiosidade, as “touradas” foram terminantemente proibidas pela Igreja Católica, pelo Papa Pio V, Papa Gregório XIII, Papa Sixto V, Papa Clemente VIII, Papa Inocêncio XI, Papa Benetido XV. Não deixa de ser curioso que num país que se denomina maioritariamente “católico” não se tenham seguido estas recomendações… Em termos políticos, o ministro Passos Manuel em 1836, no reinado de D. Maria II proibiu as corridas de touros, ainda que esse despacho fosse revogado no ano seguinte! 

Denominar cultura ou arte a esta “tradição,” onde manifestamente se produz sofrimento intenso a um animal meramente para servir de espetáculo, de prazer “mórbido”  a cada vez menos aficionados, é algo atualmente ilógico. Aceitar a nossa história é aprender com tudo aquilo que foi considerado normal, justo, espetáculo, desporto, etc, desde a arena onde se aplaudiam aqueles que em nome de uma religião eram dados às feras e se tornaram mártires, dos gladiadores que lutavam até à morte, da descriminação e abuso da mulheres, da escravatura considerada natural naquela época….  Efetivamente a humanidade não tem muito que se orgulhar do seu passado, com todas as atrocidades que fez e ainda teima fazer não só ao ser humano como aos animais não humanos!

  A abolição das Touradas em pleno séc. XXI, será meramente um ato de bom senso em sintonia com uma consciência social e global que se pretende na humanidade, baseada em inúmeras evidências científicas sobre o sofrimento de todos os Seres sencientes, que aliás, o recente estatuto jurídico dos animais vem confirmar.

Felizmente, tenho amigos de todos os partidos políticos que partilham desta opinião, da abolição das touradas, o que é indicador que o “sofrimento animal” sem fundamento lógico, vai para além de qualquer ideologia política.

Um outro animal igualmente está presente, o cavalo, que embora não seja a principal vítima, por vezes acaba ferido e mesmo morto em plena arena.

O toureiro e outros participantes humanos nestes espetáculos são os únicos que estão conscientes do que estão a fazer e o querem fazer, mas infelizmente alguns deles também acabam feridos e mesmo mortos, o que demonstra mais uma vez, que o sofrimento e morte é a nota dominante deste espetáculo! Quantas vidas humanas e não humanas poderiam ser evitadas? Afinal qual a mais valia de tudo isto?

Finalmente, e não esquecendo o foco principal deste tema, que é o do sofrimento animal durante e após o espetáculo tauromáquico, devemos refletir sobre o impacto da visualização das touradas principalmente por crianças. Por alguma razão, o Comité dos Direitos da Crianças das Nações Unidas, solicitou ao Estado Português, em 2014, a adotar medidas de sensibilização sobre a violência física e mental associada à tauromaquia. Com tanta violência no mundo, não precisamos de espetáculos que incitem à violência, ao sofrimento, à dor, ao derramamento de sangue, de um ser que manifestamente está encurralado e que por vezes na sua tentativa de fuga e em pânico, salta para o lugar do público!

Quanto tempo dura uma tradição? Dura o tempo necessário para evoluir nossas consciências, para desenvolver em nós uma ética superior onde estão incluídos todos os Seres sencientes.


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