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O EU E AS DIFERENÇAS

Num mundo em que cada vez mais se vive o egocentrismo, em que o quero ser feliz é a filosofia de vida, agudizam-se as diferenças entre todos.

Num século em que se defende o “todos diferentes mas todos iguais”, todos somos cada vez mais diferentes porque se trata da nossa pessoa.

Até podemos basear a necessidade do nosso egocentrismo nas nossas necessidades físicas, emocionais, profissionais ou sociais.

Podemos até viver convictos de que não somos egocêntricos, que o que somos ou fazemos é reacção simples e defensiva ao que nos é imposto no dia a dia. O que importa é que a culpa não é nossa. O que conta é que temos uma desculpa.

Porque temos direito a isto e porque merecemos.

Porque as instituições existem para nos servir.

Os serviços, porque são pagos, têm de ser perfeitos.

Os médicos têm de ser feiticeiros e curar tudo, os polícias têm de ser super-herós e conseguir o que a sociedade não sabe, não quer ou não pode resolver.

O Estado tem de resolver, defender, construir, desenvolver, etc.

Os juízes têm de ser imparciais e o sistema judicial tem de ser rápido e eficiente.

E todos, TODOS têm de ser incorruptos, compreensivos, corretos, cumpridores da lei e das regras sociais, defensores dos mais desfavorecidos, exemplo de moral e de bons costumes.

TODOS, menos eu. Porque o eu tem o direito a exigir que os outros sejam o que eu não sou, que façam o que eu não faço.

Se pago impostos tenho direito a ver os meus interesses defendidos pelo estado mesmo que aceite um “escapadinha fiscal” de vez em quando.

Os polícias têm de ser eficientes e fazer cumprir a lei excepto quando eu estaciono no lugar dos deficientes por uns minutos ou quando ultrapasso os limites de velocidade, ou até mesmo quando bebo um bocadinho a mais.

Na esplanada em que me sento para beber um sumo merecido porque estou de férias tudo deve estar limpo, mesmo que eu ignore o cinzeiro e atire a beata ao chão.

Na praia onde vou desfrutar do sol tudo deve estar limpo mesmo que me esqueça de lixo na areia porque a minha criança é criança e não percebe que o papel do gelado pode voar com o vento ou ficar enterrado na areia.

Porque eu tenho direitos, porque eu mereço ser feliz.

E assim se vai vivendo, exigindo dos outros o que não exigimos de nós.

De uma forma ou de outra todos fugimos ao que exigimos dos outros.

Mas o estado, a polícia, o empregado do bar, o prestador de qualquer serviço é composto de inúmeros eus. E os eus têm direitos como eu, inclusive o direito a serem excepção nisto ou naquilo. Os eus merecem que isto ou aquilo seja diferente porque são eus.

E é então que todos os eus reclamam dos outros que também são eus e ninguém se entende, ninguém cumpre e ninguém tem na realidade o direito a reclamar.

Não que o eu deva ser perfeito. Até porque não pode. O ser humano não pode nem deve ser perfeito.

Não é que não se deva solicitar e até mesmo exigir os nossos direitos. Nem pensar.

Na verdade ninguém é irrepreensível…

Mas se o eu se mentalizar que todos os eus é que fazem da nossa sociedade aquilo que ela é, que o que se exige aos outros devo exigir a mim mesmo, que as desculpas ou são para todos ou para nenhuns… Se principalmente não nos esquecermos que TODOS somos humanos, talvez aí sim, talvez este país melhore. Há que ver os dois lados e analisar, defender e exigir em igualdade.

Porque tu, ele, vocês e eles são um simples conjunto de eus.

Enquanto o meu eu não for igual ao eu dos outros não temos hipótese…

Enquanto o eu não perceber que a sociedade só muda se o eu mudar, dando exemplo e merecendo o direito de exigir, continuaremos num círculo vicioso e viciado.

Quem não prevarica que atire a primeira “pedra” (e não estejam à espera que seja eu, ok?)

Dá que pensar não dá?

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