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O DIA DA MULHER AFRICANA E O FIM DA MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA

Celebrou-se ontem, 31 de Julho, o dia da mulher africana, uma data assinalada nas efemérides mundiais desde 1962 e que visa homenagear as mulheres que naquele Continente labutam no dia a dia para moldar o presente e mudar o futuro dos seus e de uma África tão fustigada pela fome, pelas epidemias, pelas alterações climáticas, pela instabilidade politica, económica e social que tanto afectam as populações e hipotecam o seu futuro.
Este dia serve especialmente para meter em evidência o papel crucial que classe feminina tem em África, muito particularmente na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, pela democracia, pela criação de sociedades melhores e mais justas, na gestão da economia doméstica e na educação dos seus filhos, mas também para alertar para as dificuldades que ainda hoje sofrem muitas mulheres discriminadas, mutiladas e subjugadas pelas sociedades em que se inserem.
Na Guiné-Bissau, país que mais de perto conheço em África, a mulher sempre teve um lugar de destaque ao longo da história, ocupando mesmo um papel central em algumas etnias como a Bijagó, uma sociedade matrilinear, onde a mulher assume o poder regulatório da sociedade. Aqui, é a mulher que escolhe o marido, que determina o divórcio, que fica com a guarda dos filhos, que controla o inicio e fim das colheitas e regula os conflitos sociais que possam vir a surgir. A Rainha Okinka Pampa, figura lendária dos Bijagós, continua na memória nacional como a heroína que nunca se rendeu ao poder colonial e negociou com os portugueses um tratado de paz altamente vantajoso para as suas gentes, habitantes do Arquipélago dos Bijagós. A Guiné-Bissau ainda continua nos dias de hoje a ter mulheres de alma cheia e com um papel determinante no desenvolvimento da sociedade e na defesa dos direitos humanos mais basilares. Mas nem todas as etnias lhe dão o destaque e lhe devolvem o respeito que merece, como entre os Bijagós.

Há ainda muito por fazer pela promoção de uma verdadeira igualdade e do respeito pela mulher guineense. Muito mesmo. Nomeadamente no combate ao flagelo dos casamentos forçados de meninas ou da mutilação genital feminina, criminalizada neste país de 2011 mas que ainda hoje atinge tantas meninas e mulheres de forma irreversível e com graves consequências para a vida. Segundo dados de 2014, 30% das meninas até aos 14 anos e 44% das jovens e mulheres guineenses com idades compreendidas entre os 14 anos e os 15 e os 49 anos foram sujeitas a excisão o que representa uma realidade hedionda.

As meninas e mulheres são postas nas mãos de fanatecas (mulheres que com uma lâmina ou faca lhes mutilam os órgãos genitais femininos) por famílias que à sombra de tradições ancestrais e religiosas visam torná-las puras para um casamento e para a vida. Algumas destas meninas morrem nas horas ou dias seguintes, vitimas de hemorragias ou de infeções causadas pela mutilação a que se sujeitaram, na maioria das vezes no meio do mato. A faca ou lâmina usada para cometer este crime repugnante que é a excisão, serve para praticar variadas mutilações num ambiente sem qualquer cuidado especial de higiene e a isto não será alheio o elevado índice de doenças como o HIV contraídas nesta franja da sociedade. As meninas e mulheres que sobrevivem a esta provação provocada com o beneplácito dos próprios familiares, guardam traumas, problemas de saúde e dores que as acompanham para a vida. Tudo em nome de um Deus e de um livro sagrado, o Corão, que não o exige e que se confundem com os mitos enraizados na sociedade.
 
No dia da mulher Africana deve colocar-se em relevo o papel crucial do sexo feminino como motor de desenvolvimento e alavanca das necessárias mudanças para um futuro promissor de África mas esta data deve também servir para denunciar e combater este tipo de práticas nefastas que diminuem física e psicológica as mulheres e que é praticado em cerca de 50 países do mundo (como em Portugal) e muito particularmente de África.
A mulher Africana tem ainda um longo caminho a percorrer na defesa dos seus direitos e do seu bem-estar. E enquanto durar a estrada e a caminhada, cá estaremos para as lembrar e denunciar as pedras e obstáculos que a sociedade vai colocando no seu caminho.

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