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EI-LOS QUE REGRESSAM A CASA

Todos os anos por esta altura eles regressam a casa. Com a constância e a regularidade das andorinhas pela Primavera. Eles enchem as aldeias de alegria, e de vida, muitas delas, que bem necessitam dessas golfadas de ar fresco para não se despovoarem completamente. Eles vêm com carros topo de gama, com jipes, vestidos de marcas, aculturados aos países onde labutam no quotidiano. Eles abarrotam as feiras e os mercados, com as cores garridas e os linguajares que os diferenciam. Atestam as festas e as romarias que se vão realizando um pouco por todo o Minho.

Eles são os portugueses que estão espalhados pelo mundo e que fazem de Julho e Agosto os meses por excelência da sua peregrinação anual pelas memórias da infância, pelos mitos e pelos rituais que os vão mantendo ligados à identidade que foram construindo, a sua aldeia e o seu país. Quer uma, quer outro, jamais esquecem o contributo que, cada um a seu modo, vão dando para o respectivo desenvolvimento. E eles são referências fundamentais na história moderna e contemporânea deste país.

A emigração em Portugal remonta à gesta dos Descobrimentos, quando os portugueses demandaram novos mundos e aí foram divulgando a cultura e os valores levados deste pequeno recanto pátrio, recebendo, em contrapartida, os ensinamentos e a cultura indígena, de cuja miscigenação resultou o que somos e o que eles são. As migrações atravessam o curso da nossa história, com mais expressão a partir do século XIX e integram um pouco a manifestação da identidade nacional.

O conhecido geógrafo Orlando Ribeiro referiu-se, em tempos, à emigração como a “vocação demográfica” de Portugal, em especial entre as gentes do Noroeste português e do Entre Douro e Minho em particular. De Fafe, também e sempre!…

Os emigrantes partiram por motivos pessoais ou patrióticos, em busca do ouro no Brasil nos séculos passados ou, desde há sessenta anos, na procura de melhores condições de vida na velha Europa. Muitas vezes, despovoando o país, o que provocou reacções oficiais através de políticas restritivas à saída dos nacionais.

Em cada um de nós há um emigrante, ou um familiar de emigrantes ou de portugueses em situação de retorno. E o movimento migratório não pára, nos últimos anos agravado pelas condições internas. Numa altura em que Portugal acolhe já no seu território milhares de imigrantes de múltiplos países, o fenómeno emigratório prossegue, com a saída anual de largas dezenas de milhar de portugueses, que na estranja vão procurar melhores condições de existência, fugindo a uma situação de crise e de desemprego entre portas que se regista desde há mais de uma década, agravada nos anos mais recentes.

Mas o Verão é o período do regresso, do convívio com os familiares e os amigos, nos cafés da aldeia ou nos restaurantes da cidade. Os emigrantes são hoje em dia portugueses cada vez mais parecidos com os que cá estão todo o ano: inquietos, hesitantes e poupados, a queixar-se da carestia da vida e a dizer mal do governo, qualquer que ele seja. Características que estão nos genes dos nossos patrícios, estejam onde estiverem, por cá ou pelas franças e araganças.

Os emigrantes são, justiça lhes seja feita, os heróis da contemporaneidade deste país. Eles “fizeram” o Brasil e “fizeram” a Europa, com a força dos seus braços e o sacrifício dos seus corações. Eles, que atravessaram os mares nas condições mais adversas e transpuseram as fronteiras a salto, clandestinamente, para acabarem a povoar os bairros de lata dos primórdios da emigração. Para fugir à miséria, à fome e à guerra colonial. Ou para agarrar novas oportunidades de emprego, como nos casos da emigração mais recente, mais qualificada e poliglota.

Em nome de um futuro melhor, sempre, mais sustentado, para si próprios ou para os filhos.

Hoje, eles são mais civilizados, integram já segundas e terceiras gerações e vivem divididos entre o íntimo apelo da terra natal e a família que se foi formando e ramificando nos países de acolhimento.

Neste Verão que decorre, quando mais uma vez eles povoam este Minho verde com tonalidades e simbioses de outras paragens, vai a minha sentida homenagem para os emigrantes, desta região e de todo o Portugal. Eles bem merecem o sincero reconhecimento dos patrícios que por cá ficam, às vezes por comodismo, outras por inveja, bem como das autoridades que nem sempre os tratam com o respeito a que fazem jus.

Os portugueses que estão espalhados pelo mundo merecem todos os monumentos e todas as festas que o país lhes tributa.

Sobretudo o respeito que nem sempre lhes é prestado!

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