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Cultura, Literatura e Filosofia

A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO NONO

A legenda que se insurgia impossível, quota pagava na tradução outra que se fazia, para massas não, sequer palavra meada necessária para entendimento individual, de onomatopeias, mudas, silenciadas pelo entardecer das emoções, em espreguiçadeiras se embalando por dois corpos sustentadas.

Meninos-dos-porquês que rodopiam como peões jogados ao solo que, eles mesmos, pisavam, repisavam, requerendo dele, dia outro, lembrar a felicidade que interditava orfandade alguma.

Distanciavam pouco de ruela que se despedia dos raios que solidificavam aquele descomprometido estado com o que os envolvia.

Pais que percorriam um chegado perímetro, não descurando pormenores últimos para o momento em que à volta da mesa gargalhariam nos regados pensamentos que, empolando, servia a possibilidade de um braille, mesmo que de visão munidos, mas necessário o toque, para o reforço do vivido.

Espaço de cedência no tempo. Entardecer, talvez isto seja. Somente isto. Sem delongas em cálculos que não a soma do que sentimos. Científica comunidade, no contínuo aprofundar de escrutínio ao que se associa, podendo reaparecer, mas de soslaio. Sabe que estes, comunidade outra, de artes diversas vive. E esta, mais não é que uma delas, carecendo não de objetividade maior que aquele que comporta. A objetividade de um abstrato que se arredonda e forma confere, sem perfilada ilusão.

Isolado da árvore que até então me alimentava mútua dependência, a sombra e o conhecimento, logo o respeito, olho, sentado nas pequenas escadas da casa de habitante determinado em país outro garantir os soldos para o viver, e um dia a este lar voltar e sentir ocaso sobre ocaso. Casos que não vos conto. No sentir residem.

Guardião da casa e da sua memória o sou, o somos, enquanto não nos permitirmos olvidar os afetos com que esta é indumentada e matéria-prima dos alicerces que a sustentam.

Crianças que se esquecem do que ainda não lhes fora notificado. Coisa outra não é que o simples habitar, certificando cada passo seu, mecanicamente, esvaziando os tanques de possível imaginação profícua. Alagamento que os afunda, em destroços que irrecuperáveis se adjetivam, sem refutação à tona da água, num movimento que irreversível será, tamanha a profundidade do desconhecido. Em descendente percurso, para estado tal, ajuda tem o não pear daquilo que os estrutura.

Olhando estes, nutridos pelo chamamento dos seus, que perto ou longe, perto estão, esperança maior me abarca. Sabendo que a cada entardecer, alvoradas, muitas, despoletadas são. Um sorriso, aquele mesmo, que vão desenhando, enquanto que em gotejantes brincadeiras, temperatura alguma poderá esfriar a intensidade do que sentem sem o saberem. Apenas vivendo.

Este sol que agora, a marcada hora, se despede com um até já, é o mesmo que dormirá descansado, certo que momentos outros, imensos, serão distribuídos pelos mais recônditos espaços da aldeia.

Dorme o sol. Impossível não sorrir perante poetas da sua descomprometida ação.

Lembro-te Lucinda. Avó minha. Deixo-me abraçado por uma dor de não te ter levado a este entardecer, após labuta sua, vegetais cegando, à sopa tonalidade conferindo que enriqueceria o em volta da mesa. Queria, em muito, que sentisse isto que vos tenho contado. Isto que me preenche e nunca espaço limita ao que sobre mim se debruça, brincando, sorrindo nas águas de pueril pensamento. Gargalhadas as minhas também, bastando olhar para peixinhos provocados pelo malagueiro da extensão de cada um.

Humana dimensão esta, de cor a sei, que adendas acrescentando vai a cada safra de emoções. Sei-o, por maternal relação que importas nada transparecer, onde cores somarias a tão terna aldeia.

Cada ruga, a certeza de longa vida carregada de um esforço em querer um mundo melhor. Mundo este que aqui celebrando vamos, não permitindo um endomingar da lucidez e da sensibilidade, como que saindo dos seus lares, concretizada homilia e num após leituras, nem sempre sacras, um recolher à continuidade da opacidade que dias a comemorar tendem.

Sol que enxagua lágrimas suas. Não pensem que de um transpirar do que causa. Sim, a emoção de olhar para velhos que impossibilitam um entardecer que não um como este. O cuidar fomentando. Eis-nos perante cuidadores primeiros, que albergam em si toda uma fragilidade que recusamos, enquanto trocamos de posição e, repetidamente, ansiamos pelo pic-pic qualquer pessoa que nas artes do esconde-esconde prescinde do seu anonimato.

Atrocidade, guerra outra, aquela que debelamos e derramamos em social tecido perante a prenhez de uma individualidade de valores casta, que em rezas se multiplica, invalidando o Outro. Cheguem-se a lábios meus que lhes sussurrarei o quanto, facto esse aqui, não se aproxima da soleira da porta de coração nosso. Não vos tento. Alerto apenas que, para muitos, coisa estranha nesta aldeia se passa, tamanha a solidez com que se vive e se cuida dos seus.

Talvez este entardecer que vos falo mais não é do que um cuidar que não escolhe geração, não um que faz e o outro que espera. Não. Ambos se querem no uno que significam, jamais rejeitando a pluralidade que lhes é inerente.

Falei-vos de Lucinda. Certa é a sua terrena ausência. Mas carrego centenária vida no meu coração, que mesmo não visível, possível é de comigo a levar. Choro. E chorando para dentro de mim, a ela chegam as lágrimas que de felicidade obesas se tornam. E ela, no seu nunca tardio olhar, absorvendo cada uma delas, como que injusto achasse seu neto carregar tamanho peso. Não o permitiria.

Sinto-a. Continuamente. Ainda a choro. E até esta aldeia que dela tanto tem, sem nunca a ter visitado, a levo de braço dado. E ela, como sempre, rindo, rindo, rindo.

Tenho tanto de ti, minha avó, que não importa o quanto no teu amor desaguo. Deixo que essa corrente me leve. E a sua essência, o seu caudal, remete-me, também, para esta comunidade.

Naquela oficina onde gerações se abraçam, sentado estou. Sei-a a lado meu. Qual, não se mostra de importância maior. Apenas que está.

Entardecer é estar. Mesmo sem ela, esta labuta faço-a. Por ela também. Um rendilhar de memórias que visito. Sem retorno o batente, entro.

Labaredas num toque-e-foge, entre o querer sentir e o ainda não querer, pesquisando na incógnita do que após se seguirá.

Por momentos, levado sou para o exterior. Rua que nos percorre e, intermitentemente, permite o descuidado transitar dos pequenos e de outros que tendem a não largar a infância que carregam. A anciã que me ladeia ri. Desenha bonita expressão, sem licença pedir, nem a si mesma, pois sabe encantado tal estado e que de mal nada colhido será. Olho-a. Não copiando, acrescento o meu.

E as crianças, rindo, também, por íngremes ruas, deixando letras enamoradas pela vida e pelos outros, sentidas nas paredes de casas que assim se indumentam, absorvendo significados, agigantando o que já costume é na comunidade dimensionar.

Amor. Ao esquecimento o não votariam. Não necessitando de bandeira alguma quando a prática na sua plenitude sintetiza o que emoções, monossilabicamente, respondem. Aqui, ambiguidade sem espaço, mesmo que modesta e trinca-espinhas.

Alvorada. Alvorada. Alvorada. Ao olhar lhe segredava, menina-dos-olhos-nossos um sorriso esboçando, mesmo que ténue, a memória que ardente mantinha e, tocando, queimava nada.

No sabor daquele olhar liam-se-lhe as didascálias do que decidiu representar. Incauto, vivia sem remendo maior que costureira de emoções alertasse. Não permitiria manual que adultério praticasse no sentido e na celeridade a que impulsivamente se dispunha.

Alheou-se de observação próxima e estendeu no espaço o que sob a égide do coração transportava, em pesos vários distribuído. No sopé, a vontade de beber cada um dos sorrisos e deles se munir para enfrentar todo o negar de um mundo melhor.

Andaimes erguidos em torno deste pensamento. Construção segura nada. Não o queria. A cada recanto dos seus levá-lo-ia.

Neste largo nos encontramos. Bom permitires, do cimo da tua terna infância, que aqui te encaminhasse e ponte concluída para um sem fim de emoções que o estar, aqui, em aldeia-prólogo da tua, nossa existência, me proporciona.

Chegada a hora, dormirei. Sei que percebeste tudo o que em silêncio transmiti. Sempre soubeste tudo. E tudo, acreditem-me, é pouco para a beleza do seu saber.

Nunca te dirão que te esqueci, se tanto esta aldeia tem de ti.

Entardeceu.

Entardecemo-nos.

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